Revista "MUNDO e MISSÃO"
Missão Urbana
por Celso P. Caria É preciso identificar, minimamente, o fundamento antropológico e filosófico da sociedade moderna, para poder dialogar com ela, e, assim, ficar com o que é bom e fazer a revisão do que não é tão bom. Em um primeiro momento, é preciso realizar uma contextualização histórica da cultura moderna. A palavra moderna tornou-se quase que exclusivamente sinônimo de avanço tecnológico, de mais atual, sem a percepção de um movimento de mudança de significados, sentidos e valores, como acontece em um processo cultural. Qualquer livro didático de história coloca o mundo moderno começando pelo menos no século 15. A muitos parece que o avanço tecnológico, por exemplo, foi fruto apenas de algumas mentes brilhantes que, ao inventarem novas máquinas, produziram, pelo próprio invento, a mudança de mentalidade. A modernidade é um movimento cultural que nasce de uma profunda insatisfação do modelo de organização da vida humana na sociedade medieval. Podemos colocar o filósofo francês R. Descartes (1596-1650) como um símbolo bastante forte desse nascimento cultural. Depois de séculos de cultura medieval, em que se afirmava que o princípio do conhecimento está na verdade, Descartes apresenta a necessidade da dúvida, para realizar o bom pensar. Outros nomes continuaram a questionar o modelo escolático-medieval: Galileu, Newton, A. Smith, Rousseau, Kant, Hegel, entre outros. Um movimento que foi desenvolvendo uma maneira de pensar e, conseqüentemente, agir, cujo significado representou uma ruptura com um modelo que se recusava admitir qualquer tipo de mudança. Movimento que não parou, e mesmo que se dê, nos dias atuais, novos nomes, como pós-modernidade, continua a ter o mesmo fundamento e a produzir conseqüências para a vida humana em sociedade. E, certamente, o cristianismo e suas concretizações históricas, como o catolicismo, não está imune de sofrer o impacto das transformações oriundas de tal mentalidade. Portanto, para dialogar com essa realidade cultural é preciso identificar alguns elementos que possibilitem relacioná-los, ou não, com os princípios do Evangelho de Jesus Cristo. Dialogar com o mundo moderno, insistimos, não significa apenas fazer uso dos avanços tecnológicos produzidos por ele. Uma pessoa pode usar o computador, por exemplo, e ter uma mentalidade predominantemente não-moderna. Assim, examinaremos, a seguir, algumas características que conduzam a uma aproximação mais cuidadosa com a modernidade. Certamente elas não esgotam o amplo leque de análise possível, mas indicam que a reflexão precisa ir mais a fundo, pois o risco, como vem sendo afirmado, é ficar com o superficial. E no caso da preocupação deste artigo, a relação com a missão de anunciar o Evangelho pode significar assumir, no âmbito pastoral, aquilo que a cultura moderna tem de desumano sem perceber. O homem no centro O risco do individualismo, inclusive o religioso, é constante. É sair de uma sociedade coletiva, para uma sociedade das liberdades individuais. Sem dúvida, havia um exagero na sociedade antiga, a ponto do coletivo determinar, predominantemente, a vida do indivíduo (por exemplo, o casamento sem amor). No entanto, a modernidade pode promover hoje o desaparecimento de uma realidade humana fundamental, isto é, a de que somos seres interdependentes. Seres que não podem viver sem uma relação solidária. O ser humano é solidário e não solitário. O egoísmo produtivo, como proposto pela economia moderna, só tem aumentado a exclusão social e afetado o equilíbrio ecológico. E a religião não está imune de se tornar uma “empresa que produz bens religiosos para o consumo individual dos indivíduos”. Uma sociedade que não é regida por um único princípio será caracterizada também por ser fragmentada e pluralista. Foi a modernidade que permitiu o aparecimento das diversas ciências que hoje influenciam tremendamente o cotidiano das pessoas. Uma sociedade calcada em novas relações de produção que buscou estabelecer serviços e meios que aumentem, cada vez mais, a capacidade produtiva, incluindo nela o próprio ser humano. Assim a técnica, a habilidade de instrumentalizar melhor a vida humana, que sempre esteve na vida social da humanidade (um exemplo de grande avanço tecnológico foi a manipulação do fogo), será buscada de modo consciente para melhorar a qualidade produtiva. Ora, em uma sociedade assim, muitas vezes, a finalidade última da busca será esquecida, tendo em vista as necessidades imediatas. E aqui também as religiões correm o risco de se render à necessidade imediata. Um especialista em “mercadologia” (o chamado “marketing católico”) dizia certa vez: “Nós temos o melhor produto – a salvação – e não sabemos vender o mesmo no mercado da fé”. Percebe-se, nitidamente, um reducionismo imediatista que transforma uma proposta vital em objeto a ser adquirido no mercado. Evangelho de sempre Outras características podem ser observadas como base estruturante da cultura moderna: a diversidade da produção de idéias, desabrochando em um conjunto diversificado de ideologias. Uma sociedade onde a relação com a temporalidade será modificada, pois a vida não será mais regulada pela natureza e sim por ponteiros de relógio, hoje digitais, que controlam até os segundos. A própria relação com o espaço geográfico será redimensionada. Uma sociedade que precisará muito da linguagem matemática, a ponto de transformar necessidades humanas básicas apenas em dados estatísticos. Apesar do espaço reduzido, cremos ter apontado, suficientemente, a necessidade de ir até as raízes da cultura moderna, como afirmava o papa Paulo VI. O Evangelho é e sempre será o mesmo. Os valores que propõe também. Porém, não se pode simplesmente repetir fórmulas do passado que devem ter sido ótimas em um determinado momento, mas que neste tempo não funcionam mais. Não basta uma simples adaptação. Por isso, é preciso continuar a reflexão. |
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