Revista "MUNDO e MISSÃO"
Missão Urbana
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do Evangelho
Porém, no que se refere ao desafio de continuar a missão de evangelizar, precisamos sair do campo da análise, sem evidentemente abandoná-la, para o campo das perspectivas. Precisamos efetivar, de fato, caminhos que nos permitam testemunhar o cristianismo como uma proposta realizável para a pessoa humana estruturada pela presente situação cultural. Contudo, para tanto, uma exigência é pressuposto irrenunciável: se somos cristãos(ãs), a base do diálogo deverão ser os princípios calcados na Boa Nova de Jesus Cristo, em seu caminho. Sem estar mergulhado, profundamente, no mistério da vida, paixão, morte e ressurreição do Nazareno, não se pode construir o novo. A tarefa missionária compreende a capacidade de dialogar com a realidade cultural da missão, procurando uma conversão que não se reduz a uma adesão institucional, embora essa adesão seja conseqüência de algo maior. Não se trata de querer alcançar números cada vez mais elevados de adeptos, sem a possibilidade de propiciar uma mudança radical na vida pessoal e social dos que se convertem. O “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16,15), certamente, não pode ser reduzido ao caráter quantitativo. Por isso, a missão deve estar sempre atenta ao significado fundamental da evangelização, seus objetivos e sua capacidade de ir até às raízes da cultura (Paulo VI / EN). Muitos procedimentos, estratégias e métodos poderão fazer parte do processo, mas sempre mantendo e recordando a finalidade última da missão. Assim sendo, sempre se fará necessário manter uma memória viva do mistério pascal que possibilite encontrar e seguir Cristo Jesus. Uma teologia e espiritualidade da missão evangelizadora será, constantemente, um alimento imprescindível. Recordar alguns aspectos da essência desse alimento, que ajudam a descobrir pistas pastorais diante do desafio do mundo moderno. Cristo, ilustre desconhecido Apesar de boa parte do mundo ocidental possuir um percentual bastante grande de cristãos(ãs), podemos afirmar que ainda é, para a grande maioria, um ilustre desconhecido. É interessante observar que a presença do Nazareno na cultura moderna não foi desprezada. Existe um incontável número de filmes, documentários, publicações, revistas de grande circulação, onde Ele, ou o cristianismo, é o tema principal (exemplo: uma publicação nova no Brasil chamada “História Viva / Grandes Temas”, cujo primeiro número foi dedicado a Jesus / dezembro de 2003; e o filme de Mel Gibson sobre a Paixão).
No entanto, muitas vezes, é um interesse desvinculado de um projeto de vida e pode gerar bastante confusão. Naturalmente, para dialogar, é preciso ter uma identidade definida para não absorver violentamente o outro. O que tem acontecido, predominantemente, pelo menos no Brasil, é que não há uma iniciação profunda no caminho de Jesus. Vivemos em um país de maioria cristã, mas, de certa forma, descristianizado. Assim, muitos dos que se dizem convertidos ao cristianismo, de várias denominações, não pautam suas vidas, suas atitudes, seus princípios éticos, em valores calcados no Evangelho. Para realizar um processo dialogal com o mundo moderno, sem “demonizá-lo”, é preciso ter segurança da proposta e, ao mesmo tempo, capacidade crítica para tratar de uma “agenda” típica desse novo contexto, sem uma doutrinação autoritária que só traria a rejeição das pessoas estruturadas no pensamento moderno. Teremos segurança e, ao mesmo tempo, capacidade crítica, se estivermos permanentemente inseridos em uma espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo. Essa inserção deve estar fundamentada em uma experiência espiritual que seja capaz de viver a fé no meio das contradições da cidade, entendendo, a experiência espiritual como o caminho de uma vida humana feita no Espírito, na direção do projeto salvífico realizado por Jesus Cristo, englobando a vida toda da pessoa e não somente alguns aspectos ou fenômenos extraordinários. E, aqui, toda e qualquer espiritualidade deverá estar centrada sempre na pessoa e mensagem de Jesus Cristo. É olhando para a humanidade do Cristo que devemos viver a nossa humanidade. É olhando para Ele e na graça do Espírito Santo, que devemos nos interessar pela vida, pois Deus nos mostrou, através dele, um caminho de eternidade que começa no presente. Cristo: missionário do reino Nunca é demais lembrar o que a Cristologia vem nos apresentando nas últimas décadas: Jesus Cristo foi o missionário do Reino. E, para anunciar e realizar o Reino de Deus em si mesmo, Jesus assume um messianismo um tanto quanto original, um messias que recusa o poder dominador para salvar. Ele é o messias servidor. A comunidade primitiva, no Novo Testamento, identifica o messianismo de Jesus Cristo com aquele servo apresentando por Isaías nos famosos Cânticos do Servo Sofredor (Is 42-53). O Nazareno foi fiel até o fim ao propósito de sua encarnação: anunciar, pelo Reino de Deus, que o único caminho salvífico é o amor. Por isso, a Primeira Carta de João define: “Deus é Amor” (4,16), e “aquele que não ama permanece na morte” (3,14), “nisto se revelam os filhos de Deus e os filhos do demônio: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama o seu irmão” (3,10). Assim sendo, “nisto conhecemos o Amor: que ele deu a sua vida por nós. E nós também devemos dar as nossas vidas pelos irmãos” (3,6). Portanto “se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso” (4,20). Procurando seguir os passos de Jesus Cristo, os cristãos sempre foram desafiados a viver a fé cristã, dentro da uma história concreta. Hoje, isso não é diferente. Poderíamos perguntar: que espiritualidade traduziria melhor o seguimento de Jesus Cristo em nossos dias? Todas e nenhuma. Tudo vai depender da nossa fidelidade ao caminho apontado por Jesus Cristo. Por certo, não podemos ficar naquela falsa discussão sobre o que seja mais importante: a fé ou as obras. No cristianismo, uma não pode existir sem a outra. Certamente, não podemos aceitar uma espiritualidade que nos faça cair em um fechamento sobre nós mesmos, num subjetivismo exagerado, ou num coletivismo que não leva em consideração a realidade pessoal de cada um, pois as necessidades humanas são múltiplas e variadas. Os sinais concretos da salvação não podem ser percebidos apenas numa dimensão coletiva (macro-social), com suas ambigüidades, e tampouco somente relacionados a uma experiência subjetiva, sentida no “coração humano” (micro-social). Esse deverá ser sempre o ponto de partida para qualquer ação pastoral, em qualquer tempo e lugar. A partir daí, podemos traçar algumas pistas pastorais para a missão. |
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