Revista "MUNDO e MISSÃO"
Missão Urbana
Evidenciada pela mídia, nacional e internacional, como uma das maiores e mais violentas favelas da América Latina, a Rocinha, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, é também um terreno fértil para iniciativas de promoção humana Ana Maria Pisani UM POUCO DA HISTÓRIA
Eram, basicamente, agricultores que possuíam pequenas roças e vendiam suas produções nos povoados vizinhos. Daí surgiu o nome Rocinha. Migrantes da região nordeste, chegados em meados dos anos 50, contribuem para o seu crescimento populacional. Na década de 70, grupos organizados, visando o desenvolvimento social da comunidade, reivindicam ao poder público, saúde, educação, água, luz e saneamento básico. Água e luz chegam em algumas residências. Na década de 80, surgem as escolas, creches e centros comunitários; é implantado o Centro de Saúde e o Núcleo da CEDAE (Companhia Estadual de Águas e Esgotos). Através da Lei 1995, de 18 de julho de 1993, a Rocinha é transformada em bairro, tendo sua própria Região Administrativa. Quanto à sua população, há uma defasagem entre os números fornecidos: - pelo Censo 2000-IBGE, seriam 56.388 habitantes; pelo cadastramento da Light, companhia distribuidora de energia elétrica, e da TV-Roc, TV a cabo local, atualmente seriam cerca de 120 mil habitantes. O poder público e os serviços instalados em parceria com empresas privadas oferecem à população todo tipo de assistência. Atualmente a Rocinha conta com: - 3 Associações de Moradores, 3 CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública), 3 jornais, 2 rádios, 2 Postos de Saúde, 2 agências bancárias, 2 linhas de ônibus, 2 supermercados, Associação Comercial, Escola Estadual, Escola Municipal, Balcão de Direitos, rede de televisão exclusiva, Paróquia com 10 Capelas, Igreja Metodista, agência dos CORREIOS, escolas de esportes, escola de samba (Acadêmicos da Rocinha), Casa de Cultura, e diversas ONG´s e instituições que oferecem cursos (alfabetização, profissionalizantes, artesanato, idiomas, informática, etc.), serviços sociais e um variado conjunto de atividades para todas as idades. PROTAGONISMO DOS MORADORES Para se ter uma visão de outra faceta da realidade dentro da Rocinha, nada melhor do que dar a vez à voz de um morador, João Guilherme de Oliveira Neto, assinante da Revista MUNDO e MISSÃO, que nos escreveu: “É com imenso prazer, satisfação e alegria que tentarei falar um pouco das boas coisas que acontecem por aqui, na Rocinha, graças ao sentimento de solidariedade que existe nesta imensa comunidade. Ligadas à Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, temos algumas comunidades eclesiais e capelas que conseguem, brilhantemente, transmitir o toque de Deus, através da evangelização e do serviço à população. A Comunidade Nossa Senhora Aparecida, que fica na parte de baixo da favela, com sua capela, oferece catequese a quase 300 crianças, Grupo de Jovens, Círculos Bíblicos, reza do Terço e Missa dominical para quase 150 pessoas. Os grupos de Círculos Bíblicos, que já são quatro, com cerca de 40 participantes, reúnem-se à noite, uma vez por semana, sob a coordenação de quatro senhoras. Além disso, levam a Palavra de Deus caminhando pelas vielas da favela, apesar dos momentos de perigo que enfrentam. Dona Maria Ferreira, uma das coordenadoras, que também é ministra da Eucaristia, confessa: ‘Meu maior prazer é estar na reunião de Círculos Bíblicos e levar a Comunhão a alguém necessitado’. Já houve situações inusitadas em que rapazes, envolvidos com o tráfico de drogas, em dia de guerra no morro, ao encontrarem uma coordenadora pelas vielas, deram-lhe um alerta: ‘Cuidado aí, Tia! Volta pra casa! Amanhã a senhora reza!’. Ou então: ‘Hei, Tia! Hoje não tá nada bom por aqui! Reza por mim!’. Contudo, essas senhoras têm a coragem e a generosidade de perseverar em seu trabalho de evangelização e, pelo seu testemunho, já são uma grande referência para a comunidade”. E, João Guilherme, comovido, prossegue: “E, assim, vamos espalhando sementes de amor, através da evangelização, para que todos sintam que Deus está conosco. Tudo de bom que acontece na Rocinha é fruto do desejo de ajudar e de se sentir ajudado por uma comunidade cheia de solidariedade. Apesar de todas as dificuldades, de todos os perigos, sentimos que, com a fé e o amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo, somos fortes e podemos caminhar cultivando a paz e a alegria de Jesus”. FRUTOS DA SOLIDARIEDADE A partir das informações que João Guilherme nos enviou com sua carta, complementadas com dados colhidos em outras fontes, vamos apresentar alguns exemplos de iniciativas e projetos que surgiram e se desenvolvem na favela da Rocinha: – ASPA – Ação Social Padre Anchieta: fundada em 1963, pelo padre jesuíta Paulo Machado Barbosa, professor da PUC – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em conjunto com outros professores e moradores do bairro da Gávea, a esta obra desenvolve um trabalho de promoção social, cultural e educacional em benefício dos moradores da comunidade da Rocinha. O embrião do projeto nasceu com mães solidárias que se organizaram para cuidar das crianças de outras mães, que deviam sair de casa para trabalhar e não tinham com quem deixar seus filhos. Com o tempo, a creche cresceu e se organizou para atender às exigências legais. Hoje, a ASPA tem por missão promover a consciência, o exercício da cidadania, buscando melhorar a qualidade de vida através da educação. Para tanto, desenvolve os seguintes projetos: Creche ASPA; Banca Dever (de reforço escolar); Brinquedoteca; Escola Noturna (alfabetização de jovens e adultos); Atividades para a Terceira Idade; Grupos de Produção e Geração de Renda (confecção, artesanato e marcenaria) e Grupo sobre a Realidade da Mulher. Em seus diversos projetos, atende uma média de 500 pessoas, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos, sendo que a creche atende, diariamente, cerca de 120 crianças com idade entre quatro meses a três anos e onze meses. O sustento financeiro da obra depende de um convênio com a Secretaria Municipal de Educação, que não cobre todas as despesas, e de doações de colaboradores. Apesar das inúmeras dificuldades, conta com a participação de pais e voluntários que dedicam parte do seu tempo para suprir as necessidades mais urgentes. João Guilherme conta, em sua carta: “Usamos o espaço físico da ASPA também para aulas de catequese, reuniões de coordenação de grupos, almoços beneficentes... É isso! A ASPA oferece espaço, alimentação, recreação, educação, formação e até evangelização, para que o povo da Rocinha possa ser mais feliz”.
– Escola de Música da Rocinha: foi fundada em 1994 pelo pianista e concertista alemão Hans Ulrich Koch. Tem sido um importante instrumento para o futuro dos jovens da comunidade, revelando talentos que começam a ser aproveitados no mercado. Em parceria com a gravadora Sony Music, com o CIAPI – Campus Internacional de Aprendizado Politécnico Integrado e com a Rocinha XXI, foi lançado, em 2001, o CD beneficente “Paz”, com a participação dos coros juvenil e infantil, além de um quinteto de cordas, percussão e acordeão, apresentando sucessos da música popular brasileira e canções clássicas de corais internacionais. – ONG “Rocinha XXI”: foi fundada em 22 de agosto de 1998, por alguns atores sociais, engajados em diferentes segmentos locais, que buscavam mecanismos de integração, para melhorar a qualidade de vida da comunidade. Sua missão é promover o desenvolvimento local através de ações multiplicadoras que estimulem a população a buscar soluções para os problemas da Rocinha através de uma proposta sociocultural e educacional. Entre as diversas ações desenvolvidas, destacamos o Programa de Comunicação Comunitária, para estudantes de Jornalismo, através das parcerias com: Rádio Katana, Rádio Brisa, TV ROC, Universidade UNICARIOCA e Jornal Rocinha Notícias, este com tiragem mensal de 8 mil exemplares. Além dos estudantes de Jornalismo, integram este programa jovens da comunidade que cursam o Ensino Médio e aprendem noções de Comunicação Comunitária. A Rocinha XXI desenvolve, também, ações com outras Ongs, empresas, instituições e órgãos públicos, como parceira e incentivadora.
– Casa de Cultura da Rocinha: fundada em junho de 2003, sob a liderança do morador Maurício Fagundes, o “Soca”, tem o objetivo de oferecer várias atividades culturais, buscando o desenvolvimento da comunidade e a transformação dos seus moradores em cidadãos, capazes de construir uma trajetória de sucesso na arte, na música e na vida. Já ofereceu cerca de 20 cursos, atendendo aproximadamente 1.100 pessoas. Atualmente, os cursos ministrados são: dança, capoeira, inglês, vôlei, teatro, cavaquinho e violão. Através da “Oficina de Luteria na Rocinha” oferece cursos profissionalizantes de construção e reparos de instrumentos musicais de cordas. É uma das parceiras da “Escola de Fotógrafos Populares Imagens do Povo” (do Observatório de Favelas), que, sob a condução dos renomados fotógrafos João Roberto Ripper e Ricardo Funari, busca formar jovens moradores de favelas no ofício da fotografia, abrindo-lhes caminho no mercado de trabalho – além disso, visa compor o banco de imagens “Imagens do Povo”, como veículo de divulgação do trabalho desses jovens. – Instituto Reação:
o judoca Flávio Canto, medalha olímpica de bronze em Atenas
– 2004, há quatro anos está à frente do projeto
de ensino de judô para jovens da Rocinha e de outras favelas, visando
promover a sua inclusão social e abrir-lhes novas perspectivas,inclusive
o sonho de participação A PRESENÇA DA IGREJA Na Rocinha, o sinal da Igreja Católica se concretiza com a Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem e suas 10 capelas, que atendem centenas de famílias, em suas necessidades espirituais, familiares, sociais e materiais, através das Pastorais da Criança, do Menor e das Favelas e inúmeras obras sociais e educativas. Padre Manoel de Oliveira Manangão é seu incansável Pároco desde 1983. Encerramos com palavras de Pe. Thierry Linard de Guertechin, que trabalhou e viveu 19 anos na Rocinha: “A convivência
com este povo, as amizades bem vivas, até hoje, me tornaram mais
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