Revista "MUNDO e MISSÃO"
Missão Urbana
Revista MUNDO e MISSÃO apresenta a entrevista que Pe. Paolo Parise concedeu ao site da nossa revista (www.pimenet.org.br). Nela, ele descreve o trabalho que está desenvolvendo em sua paróquia, na periferia da região sul de São Paulo, visando conscientizar o povo a se mobilizar contra a onda de violência que assola nossas cidades Quem é Pe. Paolo Parise? – Sou padre carlista, nascido e criado na Itália. Há sete anos, desde que cheguei em São Paulo, dou aula de teologia no ITESP (Ipiranga), lecionando cristologia. Porém, desde o começo, fiz a opção de morar no Grajaú, periferia sul de São Paulo, na paróquia Nossa Senhora dos Migrantes. Neste lugar, desenvolvi todas as atividades normais de uma paróquia, formada por muitas comunidades, numa perspectiva missionária. O senhor está na linha-de-frente de uma pastoral explosiva. Do que se trata? – Logo que cheguei ao Grajaú, deparei-me com a absurda violência na região, que atinge de modo especial os jovens. Nas estatísticas da cidade de São Paulo, infelizmente, Grajaú ocupa o segundo lugar no ranking de mortes violentas. Aos poucos, comecei a dar uma resposta a este triste fenômeno, tornando protagonistas os próprios jovens. Nasceu assim o evento pela paz no ano de 2000. Como isso começou? – Encontrar corpos nas ruas, nas calçadas ou na beira da represa Billings, criava em mim um sentimento de impotência e de pequenez. A faísca, que provocou a minha mudança de postura e que me levou a reagir, foi o sentimento de indignação gerado por dois fatos ocorridos praticamente em poucos dias de distância: a mãe de um integrante do grupo de jovens de uma comunidade foi atingida e morta, por bala perdida, na calçada próxima da igreja e um adolescente morreu na porta da igreja no momento da comunhão. Logo pensei: “Não dá para assistir, não podemos ficar trancados na igreja celebrando quando, ao redor, há mortes por todo lado”. Assim começou a nossa atuação pela paz no Grajaú. Hoje, observando a caminhada realizada, posso dizer que aconteceu uma evolução da nossa atuação e um progressivo amadurecimento. No começo, entrei em mais de 40 igrejas evangélicas e templos de outras religiões, convidando a uma ação em conjunto para promover a paz. O convite fundamentalmente se resumia a estas palavras: “Chega de gastar as nossas energias em críticas recíprocas, que não levam a nada. Em nome do mesmo Deus, comecemos a testemunhar a paz entre nós, atuando juntos para erradicar a violência e promover a paz”. A maioria não aceitou, mas alguns representantes destas outras tradições religiosas somaram as forças. Ao mesmo tempo, comecei a reunir jovens sensíveis ao assunto e dispostos a agir. A intuição foi de me tornar um assessor que ajudasse e incentivasse os jovens a desenvolver uma ação pela paz. No começo, limitamo-nos a realizar um evento numa praça, precedido por duas caminhadas pelas ruas da região com faixas e trios elétricos. Mas fomos percebendo que isso era insuficiente e, no ano seguinte, incluímos um gesto na avenida principal, com aproximadamente 900 jovens segurando cruzes brancas, em silêncio, por uma hora. Sucessivamente, incluímos um concurso de música e poesia pela paz, dividido em 5 categorias por faixas etárias. Um concurso que atingiu mais de 90 escolas, com o apoio das Delegacias de Ensino do Estado e da Prefeitura. E as comunidades, só assistindo? – Progressivamente, começaram a surgir convites nas escolas para realizar momentos ecumênicos, palestras, testemunhos. Na paróquia, o valor da paz começou a ser assunto formativo em muitas pastorais. Com o tempo, fui percebendo que a prevenção tem uma importância fundamental e conheci entidades que atuam no território. Com elas começou uma aproximação e interligação que deu um novo brilho ao evento anual pela paz, transformando-o na celebração de tantas caminhadas a serviço da juventude da região. Neste ano, chegamos a 11 entidades, nem todas católicas, incluindo ONGs, centros comunitários, fundações, jornais, programas e projetos. E os próximos passos... – Continuamos a sonhar com a criação de uma rede, entre nós todos, para sermos mais eficazes. Em síntese, o evento pela paz deixou de ser um momento isolado anual e se tornou uma proposta articulada. Nossos objetivos podem ser assim formulados: passar uma mensagem de incentivo para a região, demonstrando que muitos acreditam no valor da paz; reconquistar os espaços públicos (ruas, calçadas, praças) como lugar de encontro e não de medo; celebrar a caminhada das entidades da região e aumentar as interligações e colaborações; conscientizar o jovem que, a partir das diferenças religiosas, políticas, ideológicas e partidárias, é possível atuar em comunhão pela paz; perceber que a variedade de formas de violência não se esgota nas mortes, mas vai contra o meio ambiente, a harmonia no lar e na escola, desperta o machismo... Encontrou dificuldades? – Muitas. E de vários gêneros: dificuldade na captação de recursos econômicos para levar adiante as atividades; desinteresse de algumas instituições públicas e religiosas; tentativas de instrumentalização política; desinteresse da grande mídia e ameaças pessoais. Além disso, toda vez que encontro um corpo no chão ou um jovem paralisado na cama por causa de tiros, sinto-me um pouco derrotado. Há resultados positivos, certamente... – Estou lembrando o lindo trabalho de promoção humana e de prevenção no Jardim Ângela. No passado, a região era a mais violenta de São Paulo e encontra-se atualmente em clara e progressiva recuperação. Com certeza, os resultados serão notados em médio e longo prazo. Já começam a ser percebidos, mas em escala reduzida. Quando consigo salvar um jovem ou adolescente, penso que o esforço valeu a pena. É uma vida que renasce, uma nova possibilidade de futuro. Gostaria de contar alguns fatos significativos? – São tantos! A tentação é citar o clima de otimismo e de esperança que se cria na região, invertendo a tendência de pessimismo e de medo. Mas existem fatos ligados a encontros pessoais e que atestam o valor da iniciativa. Saliento o protagonismo e a responsabilidade dos jovens que organizam o evento pela paz. Mas também os que simplesmente acabam participando e que se tornam, aos poucos, atores principais, ajudando os colegas a deixar drogas, armas, desejo de vingança... Quantos encontros pessoais experimentei com jovens, já entrando no mundo da violência, e que conseguimos salvar e oferecer-lhes outra perspectiva de vida! Existem encontros com homicidas ou com gente envolvida no mundo da violência que não posso relatar, mas que foram motivo de mudança de vida. O senhor esperava alcançar tais resultados? – Com certeza não! Confiei sempre na presença de Deus, que me faz atuar com esperança e otimismo, mas não pensava que a sementinha crescesse tanto!
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