Revista "MUNDO e MISSÃO"

Saúde

Agosto de 2007 - Edição n.º 11
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 114

PALAVRA-CHAVE

“Neste início de século e do milênio, poucas palavras expressam melhor as grandes revoluções de cunho científico, econômico, político e social quanto a palavra “biotecnologia”.

(Antonio Moser, in Biotecnologia e Bioética, Petrópolis, vozes, 2004)

IMPACTO

A evolução galopante da biogenética causa impacto incrivelmente maior do que o provocado com a revolucionária descoberta da penicilina pelo médico bacteriologista, Alexander Fleming, em 1928.

RITMO ALUCINANTE

Métodos contraceptivos, abortivos ou não, estão nas prateleiras da medicina desde há muito tempo. Entretanto, a bioengenharia, microscópios eletrônicos e demais recursos da informática possibilitam experiências, como inseminação e fertilização in vitro, seqüenciamento genético, clonagens de mamíferos e, mais recentemente, pesquisas com células-tronco humanas, presentes
em organismos adultos e em embriões.

CÉLULAS-TRONCO

“Células-tronco (estaminais) são células que têm o potencial de se transformar em diferentes tecidos do organismo”, ensinam os biopesquisadores. “Quando estimuladas, elas têm capacidade – no seu processo contínuo de duplicações sucessivas – seja de diferenciarem-se até se tornarem células ‘maduras’ de um particular tecido, seja de gerarem outras células estaminais”, esclarece Giovanni Cipriani.

(“O Embrião Humano – Na fecundação, o marco da vida”, Paulinas, 2007)

 

MEDULA ÓSSEA, CORDÃO UMBILICAL E PLACENTA

As chamadas células-tronco, capazes de se transformar em diferentes tecidos humanos, estão presentes no organismo todo, mas os cientistas atestam que as da medula óssea são mais vigorosas. Produzidas no interior dos ossos, elas viajam pelo organismo através do sistema circulatório. Portanto, são as mais utilizadas para combater lesões cerebrais, ósseas, hepáticas e cardíacas. Além disso, cresce, no mundo todo, o uso das células do cordão umbilical para tratamento da leucemia.

Nesse caso, a compatibilidade genética entre doador e receptor não precisa ser total, como nos casos em que a célula é extraída da medula. Por sua vez, o Dr. Paolo De Coppi, do Institute of Child Health de Londres, aprofundou uma pesquisa sobre células-tronco extraídas do líquido amniótico para intervenções com terapia celular em recém-nascidos. Agora “seu foco é a placenta que, como o cordão umbilical, atualmente tem um papel primordial como fonte de células-tronco obtidas sem técnicas invasivas”.

(Avvenire – 23/06/07)

primeiro a descrever uma célula foi o inglês Robert Hooke, em 1665. Ao observar um pedaço de cortiça num microscópio construído por ele próprio, Hooke notou que o material era constituído por pequenas fileiras do que pareciam ser “caixas vazias”. Essas “caixas” lembraram-lhe celas de monges. Por isso, batizou-as de células (originalmente, “cell”, em inglês, é cela). Era impossível, na época, determinar quais eram as funções dessas estruturas. Somente em 1839, de posse de instrumentos ópticos mais refinados, o botânico Mathias Jakob Schleiden e o zoologista Theodor Schwann, ambos alemães, chegaram à conclusão de que todos os organismos vivos eram compostos de células e de que elas eram diferentes umas das outras, dependendo da área em que se concentravam”.

(José C. Crespo, in Diário Oficial do Estado de São Paulo, P. Legislativo, n. 83,4/5/2004, pág. 12)

 


Colônia de células-tronco embrionárias humanas

m 1998, James Alexander Thomson, biólogo celular da Universidade de Wisconsin (EUA), extraiu, isolou e cultivou em laboratório, pela primeira vez, células-tronco de um embrião humano. Como toda descoberta científica, também aquele trabalho pioneiro gerou controvérsias de origem ética e alimentadas em particular pela preocupação em defesa da vida por parte de muitas comunidades religiosas. Apesar das celeumas, desde então diversas nações permitem a utilização de células estaminais, retiradas de embriões, para fins de pesquisa e para tratamento de doenças.

 

zoólogo alemão Hans Dreisch trabalhando com ouriços-do-mar, em 1894, pegou um embrião de duas células e sacudindo dentro de um copo cilíndrico (béquer) cheio de água do mar fez com que as células se separassem, dando origem a dois ouriços adultos.

 

 

 

Lei n.º 11.105/2005

Câmara dos Deputados federais do Brasil aprovou, em março de 2005, a Lei de Biossegurança, que estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização em todas as atividades relacionadas aos Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e seus derivados. O artigo 5 da referida lei disciplina as questões ligadas à clonagem e à pesquisa genética com embriões humanos, permitindo o uso de células-tronco embrionárias para fins de pesquisa e terapia, desde que obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização in vitro e considerados inviáveis ou congelados há, pelo menos, três anos. Na cauda dessas definições embarca a mídia, espalhando raios de luzes e de esperança, como se a simples implantação de tais células resultasse em cura imediata, definitiva, de todos os males. Ato contínuo, pulsa mais rapidamente o sangue nas veias combalidas de pessoas com doenças crônicas ou letais.

 

UM ÓRGÃO QUE ALIMENTA ESPERANÇA

fígado lesado é o órgão humano mais procurado para experiências com células-tronco. Citado na matéria: “Por dentro dos novos tratamentos com células-tronco”, de Cristiane Segatto e Marcela Buscato, na revista Época (Ed. 475), o médico Ricardo Ribeiro dos Santos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz/BA, considera que, um dia, as células-tronco vão evitar transplantes de fígado. Na audiência pública sobre o assunto, no STF, em abril deste ano, o referido pesquisador defendeu o uso de células-tronco embrionárias.

EFICÁCIA CONTESTADA

élulas-tronco encontradas em adultos – ou seja, em seres já nascidos –, têm maior eficácia quando transplantadas a órgãos recém-lesados. Especialistas divergem a respeito da utilização de tais células em órgãos bastante debilitados ou comprometidos, em vista de resultados discrepantes, já obtidos em experiências com a terapia.

A SERVIÇO DE QUEM?

s novos domínios sobre a vida derrubam antigas concepções e levantam novos desafios. Laboratórios multinacionais investem, anualmente, bilhões de dólares e de euros em projetos de manipulação genética. Se servem à eternização da vida na terra, por que são tão secretos? Afinal, a serviço de quê ou de quem se faz o progresso?

abriela Cezar, biotecnóloga brasileira que fundou em Madison, nos Estados Unidos, a empresa Stemina, que vende tecnologia com células-tronco para testar se remédios são tóxicos, defende o uso de células-tronco embrionárias:

“Elas conseguem recapitular cada passo do desenvolvimento humano. Esse é o grande valor delas”.

Lygia da Veiga Pereira, geneticista da USP, também defende o mesmo procedimento:

“Mais do que material para gerar terapias, as células-tronco embrionárias são um instrumento riquíssimo de pesquisa.
Elas podem nos ensinar muito sobre o desenvolvimento embrionário, e isso poderá render frutos no futuro”.

(“Por dentro dos novos tratamentos com células-tronco”, de Cristiane Segatto e Marcela Buscato, revista Época, Ed. 475)

É POSSÍVEL, MAS É LÍCITO?

s células capazes de produzir um número elevado de células-mãe de qualquer tipo de tecido formam-se antes do embrião aderir às paredes do útero (fase de blastocisto). Podem ser cultivadas in vitro e mantidas inalteradas por anos. Entretanto, o seu isolamento implica na destruição do embrião.

CURIOSIDADES

• O organismo de um adulto tem aproximadamente 75 trilhões de células, agrupadas em cerca de 220 tipos distintos. Cada tipo é responsável pela formação de uma parte do corpo humano.

• Com 12 mil cordões umbilicais armazenados, o Brasil poderia cobrir toda a diversidade genética da população.

• O país faz quatro vezes menos transplantes de medula do que deveria fazer.

• Em 2001, o Dr. Hans F. Dohmanns, do Rio de Janeiro, injetou células-tronco do próprio paciente, uma pessoa de 69 anos, que sofria de cardiopatia em estado terminal: após três semanas, aquele senhor jogava bola com o neto! O dr. Hans fez tudo às próprias custas. O fato destacaria a pesquisa do Brasil, como pioneira no mundo, mas nenhum jornal, rádio ou TV noticiou o evento.

• “Não me abandone jamais”, romance de Kazuo Ishiguro, provoca inquietação, desperta consciência e propõe reflexões éticas. A questão de fundo é precisa, mesmo que não explícita: até onde é lícito expandir as fronteiras da ciência e da tecnologia? E a busca da saúde, da eficiência física, da eliminação da dor e das doenças pode justificar a criação de vidas de “série B”? É lícito permitir a produção de indivíduos que aceitam a condição de escravos, sem opor resistência? O autor não responde com discursos moralistas, mas ressalta a compaixão que causam os jovens destinados a serem doadores de órgãos. O leitor também não foge de sentir esta compaixão (Cia das Letras).

“É essencial o reconhecimento dado pela ciência moderna que, estudando os fenômenos naturais, contribui para a proteção do ambiente, o progresso dos países em via de desenvolvimento, o aumento da vida média. Mas é também forte a chamada de atenção aos profundos deveres éticos dos cientistas”.

(Nicola Cabibbo, físico)

"Além de problemas éticos, o estudo das células-tronco embrionárias humanas apresentou dificuldades. Uma delas reside no fato de que essas células, quando cultivadas, apresentam uma diferenciação descontrolada e, após algum tempo, produzem modificações em seu núcleo semelhantes às ocorridas na formação de tumores malignos. Dessa forma, injetadas em roedores, verificou-se 50% de probabilidade de gerarem teratomas (tumores de caráter embrionário)”. (...). “Estudos recentes demonstram que as células-tronco, de um modo geral, e não apenas as retiradas de embriões, produzem substâncias para a regeneração dos tecidos lesados. Bastaria a injeção dessas substâncias para alcançar a recuperação do tecido”.

(Dra. Alice Teixeira Ferreira, pesquisadora da UNIFESP)

"Por desinformação, a mídia confunde a população quando fala das curas efetuadas com células-tronco adultas e dá a entender que o resultado será o mesmo com as células-tronco embrionárias. Não é. Todas as curas efetuadas na espécie humana são devidas às células-tronco adultas. Pesquisadores do Institute of Human Genetics, da University of New Castle (Inglaterra), autorizados pelo governo inglês a tentar clonar seres humanos com fins terapêuticos, relatam gravíssimos obstáculos e dificuldades a serem superados, até mesmo malefícios que poderiam ocorrer em eventuais pacientes. Além disso, o tratamento com células-tronco embrionárias provocaria rejeição imunológica, uma vez que são células heterólogas, de outro indivíduo”.

(Denival da S. Brandão. Vidas Humanas em Jogo, Cidade Nova, jan.fev/2005)


Células-tronco embrionárias humanas

"É imoral usar seres humanos – tirando-lhes a vida – para curar outros seres humanos: tem-se cientificamente comprovado que o uso de células-tronco de adultos é eficaz e que elimina problemas de rejeição quando se utilizam células-tronco da medula do indivíduo a ser curado; não há nenhuma prova científica de que a utilização das células-tronco de embriões seja eficaz”.

(Secretaria do Estado do Vaticano, in O Embrião Humano, de G. Cipriani, Paulinas, 2007, pág. 93)

"Toda a pesquisa, como a que até agora foi conduzida e programada em células-tronco embrionárias humanas e em clonagem terapêutica, é decisivamente contrária a uma reta ética humana. Na realidade, aqueles que sustentam tal pesquisa: negam a verdade objetiva de que o embrião humano é um “ser humano”, por isso não merece consideração particular e pode ser tratado como um “objeto”; ou negam o valor real do embrião humano, reduzindo-o a um “indivíduo em formação”, cujo valor é inferior ao bem que poderia derivar de sua utilização para a pesquisa; ou negam ou desprezam a estreita e direta correlação entre as células-tronco e a sua origem”.

(Pontifícia Academia pela Vida, agosto de 2000, in Civiltà Cattolica – no 3636/2001 pág. 552)

"Não há, no mundo, nenhuma publicação científica que demonstre que as células-tronco embrionárias façam bem. Ao contrário, já foi demonstrado em experiências em animais, que elas provocam tumores muito graves e acarretam perigo de rejeição porque o material genético é diferente”.

(Lilian Piñero Eça, doutora em biologia molecular, programa Tribuna Independente, Rede Vida de Televisão)

"A Igreja católica sempre tenta dominar a sociedade, impondo suas idéias, que se revelam sempre atrasadas. Agora quer interferir nas consciências, negando direitos dos homossexuais, das pessoas poderem se recasar depois de uma experiência de fracasso, de usar a camisinha, de abortar, e impede a pesquisa científica, como no caso das células-tronco embrionárias. Ainda não aprendeu de seus erros com Giordano Bruno, Galileu Galilei, Charles Darwin, Sigmund Freud, etc”.

(Raul Levatti, Caxias do Sul, RS)

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Apresentamos abaixo os links de vários artigos publicados sobre o tema EMBRIÃO HUMANO: sujeito ou objeto? com objetivo de favorecer a você uma reflexão ampla sobre ao assunto:

- A origem da vida do ser humano e o aborto

- Embrião muda de forma, não de ser - Entrevista

- Quais perspectivas terapêuticas oferece a pesquisa do embrião?

- Clonagem e Clonagem Terapêutica: algumas questões técnicas não divulgadas pela mídia

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