Revista "MUNDO e MISSÃO"
Saúde
* Hospice é um modelo de atendimento médico-legal alternativo para doenças terminais A grande maioria dos profissionais da saúde em nosso país, sem falar do público em geral, praticamente ainda desconhece o que isso significa e não sabe da existência de programas e serviços de cuidados paliativos em nossas instituições de saúde. Quando se ouve dizer de uma ação ou medida paliativa, o entendimento do senso comum vai no sentido de que se trata de uma ação ou medida que, na verdade, não resolve um determinado problema ou desafio, mas apenas “coloca panos quentes” e a realidade permanece inalterada. Outras vezes, confunde-se Cuidados Paliativos com a indução da morte (eutanásia), ou com a suspensão dos tratamentos. Os Cuidados Paliativos não apressam a morte, apenas a aceitam como parte inexorável de um processo. Também não se suspende todo o tratamento, apenas os considerados fúteis. A “medicina paliativa” é uma especialidade médica na Inglaterra desde 1987. O objetivo fundamental da medicina é tratar os enfermos buscando restabelecer a integridade perdida. A “cura” ocorre quando a saúde, entendida como o bem-estar biológico, psicossocial (e espiritual), é plenamente restabelecida.
CONCEITO DE CUIDADOS PALIATIVOS A Organização Mundial de Saúde, em 2002, definiu Cuidados Paliativos como sendo “uma abordagem que aprimora a qualidade de vida dos pacientes e famílias que enfrentam problemas associados com doenças ameaçadoras de vida, através da prevenção e alívio do sofrimento, por meios de identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e outros problemas de ordem física, psicossocial e espiritual”. No contexto dos cuidados da saúde de hoje, entre os inúmeros desafios que surgem, para além da desospitalização e tecnologização do cuidado, um é crucial: o que fazer com as pessoas que estão fora de possibilidades terapêuticas? Nada? Claro que não! Aqui surgem os chamados cuidados paliativos. A filosofia dos cuidados paliativos procura atender a pessoa que enfrenta uma doença crônico-degenerativa ou que esteja na fase final da vida, na sua globalidade de ser, procurando o seu bem-estar global, viabilizando a possibilidade de viver a própria morte. Entre outras necessidades, que se tornam evidentes neste momento, destacam-se: o respeito pela autonomia da pessoa, que significa não abandoná-la à sua própria sorte; saber a verdade sobre sua condição de saúde e ser partícipe no processo de tomada de decisões; ter sua dor e sofrimento cuidados e não ser tratada como mero objeto. O fator humano nunca será dispensável ou descartável! Este passa pela comunicação que ouve, acolhe, e respeita o outro como pessoa humana nas suas verdades, clamores, valores. PRINCÍPIOS DOS CUIDADOS PALIATIVOS Os princípios dos cuidados paliativos podem ser assim resumidos: a) cuidado integral da pessoa, que leve em conta os aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais; b) trabalhar com a família do doente, que é o núcleo fundamental de apoio; c) promoção da autonomia e da dignidade do doente, elaborando com ele os objetivos terapêuticos, através de uma relação franca e honesta; d) conceito ativo de terapia (não se pode aceitar como válida a atitude que diz “não há mais nada a fazer” – o cuidar continua quando não se pode mais curar); e) propiciar, em torno do doente, uma atmosfera de respeito, apoio e comunicação (isto influi muito no controle dos sintomas); f) trabalho multidisciplinar dos profissionais. Os cuidados paliativos são indicados quando estamos frente a: a) presença de enfermidade avançada, progressiva e incurável; b) falta de possibilidades razoáveis de resposta ao tratamento específico; c) presença de numerosos sintomas intensos, múltiplos, multifatoriais e mutantes; d) grande impacto emocional no paciente, família e equipe de cuidadores, relacionado com a presença explícita ou não da morte; e) prognóstico de vida inferior a seis meses. Enfim, eis uma alternativa que surge como síntese ética do direito de morrer com dignidade e do respeito pela vida humana no seu ocaso, sem a temida abreviação de um lado (eutanásia) e nem o prolongamento indevido de outro (distanásia). A médica inglesa pioneira nesta área, dra. Cicley Saunders, resume com felicidade a essência deste cuidado junto aos pacientes terminais: “Eu me importo pelo fato de você ser você, importo-me até o último momento de sua vida e faremos tudo o que está ao nosso alcance, não somente para ajudar você a morrer em paz, mas também para você viver até o dia da morte”. Não somos doentes e nem vítimas da morte. É saudável sermos peregrinos. Não podemos passivamente aceitar a morte como conseqüência do descaso pela vida, causado pela exclusão, violência, acidentes e pobreza. Nasce uma sabedoria a partir da reflexão, aceitação e compromisso com o cuidado da vida humana no adeus final. Entre dois limites opostos, de um lado, a convicção profunda de não abreviar a vida; de outro, a visão de não prolongar a agonia, o sofrimento e a morte. Ao não matar e ao não prolongar, situa-se o amarás... Como fomos ajudados para nascer, precisamos ser também ajudados no momento do adeus à vida. |
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