Revista "MUNDO e MISSÃO"
Saúde
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Para a medicina, o mal de Hansen,
popularmente conhecido como lepra, Um peregrino do amor
Ele nasceu em 17 de agosto de 1903, na França, de uma família abastada. O pai morreu em 1914, na Primeira Guerra Mundial, e a viúva assumiu os negócios da família na esperança de entregá-los, mais tarde, a Raoul, que foi encaminhado a uma escola profissional. A natureza poética e idealista, porém, fez com que Raoul enveredasse por outras estradas, tornando-se professor, jornalista e poeta. Com 17 anos, publicou um livrinho intitulado "Le Livre d'Amour", no qual resume a sua incipiente espiritualidade que será depois vivida na sua longa história de peregrino do amor. "Viver significa ajudar a viver... Ser feliz é fazer os outros felizes". Com 22 anos, ele casa com Madeleine Boudou que conhecera cinco anos antes, durante uma campanha de coletas de fundos para os feridos de guerra. Madeleine não somente foi a esposa, mas a colaboradora em todos os momentos da vida, tanto que Raoul deixou escrito que "a maior sorte de sua vida foi sua esposa Madeleine". Entre as suas paixões estavam as viagens, até mesmo as cheias de aventuras, realizadas com olhos de repórter, isto é, mais que diversão e lazer, procurando conhecer os outros. Em 1930, foi um dos primeiros jornalistas a sobrevoar os Andes com um pequeno avião dos correios, visitando Argentina, Chile, Peru e Bolívia, interessado, especialmente, nas instituições e fundações mantidas pelos religiosos em prol dos nativos.
Em 1935, La Nacion, famoso jornal argentino, lhe pediu que fizesse pesquisas sobre o pe. Charles de Foucauld, no vigésimo aniversário do seu assassinato pelos berberes, em Tamanrasset, no deserto da Argélia. Terminada a reportagem, Raoul e sua esposa tomaram a iniciativa de penetrar no sul do deserto do Saara, em direção ao rio Níger e foi essa aventura que mudou sua vida e a de milhões de hansenianos. Às margens do rio Níger, encontraram, pela primeira vez na vida, os leprosos com rosto, mãos e pernas deformados. Raoul volta para a França com a disposição de trabalhar para aqueles doentes, mas foi convocado pelo exército: estava eclodindo a Segunda Guerra Mundial. Em 1942, após a ocupação da França pelos alemães, se faz promotor de uma iniciativa para ajudar a amenizar os sofrimentos dos lugares ocupados pelas tropas nazistas - "Uma hora para os pobres" - com a qual pedia que se destinasse uma hora por ano do próprio salário, para seus concidadãos, provados pelas agruras da guerra. Alguns artigos escritos em 1939 contra Hitler chamando-o de anticristo, o tornaram inimigo dos ocupantes e, para escapar dos nazistas, se refugiou num convento de freiras tornando-se o jardineiro da casa. A superiora o convidou a se tornar promotor de um projeto para construir uma aldeia para hansenianos na Costa do Marfim.
Apesar da guerra e suas tristes conseqüências, numa França destruída, através de programas de rádio e artigos, conseguiu em poucos anos realizar o projeto em Adzope que, em 1969, o governo local transformou em Instituto Nacional para a Lepra. Descrevendo esse projeto de Adzope, Raoul o definiu como "uma jangada no oceano das misérias humanas", mas essa jangada se tornará a esperança de milhões de hansenianos, num momento em que as curas eram pouco eficazes e os leprosos, mais que doentes, eram tratados como escórias da sociedade, isolados e condenados ao seu certo e trágico destino de morte. A ESPERANÇA DE UMA VIDA
MELHOR A "Ordem da Caridade" que Raoul tinha fundado em 1946, tornou-se em 1968, a "Fundação Raoul Follereau". Nessa Ordem da Caridade, Raoul exortava aos participantes que "um membro da Ordem da Caridade não esquece que no mundo existem 800 milhões (já naqueles anos) de seres humanos que nunca conheceram um médico, 600 milhões de pessoas que nunca tinham sido vacinadas, 1300 milhões de pessoas que não sabiam ler e que, a cada ano, cinco milhões de pessoas morriam de fome. Portanto, até que na terra um ser humano tiver fome, passar frio ou for perseguido, o membro da Ordem da Caridade sabe que não terá o direito de se calar ou de se omitir". Em 1947, com sua brilhante fantasia em busca de soluções para a pobreza, proclama a greve geral do egoísmo em coincidência com as 15 horas da Sexta- Feira Santa, hora em que os egoístas e corruptos puseram na cruz o Cristo que disse "Amai-vos uns aos outros". A remuneração do trabalho daquela hora deveria ser dada aos pobres.
A partir da sua dedicação ao combate à lepra junto com a esposa, Raoul percorreu milhares de quilômetros, ao redor do mundo, realizou centenas de palestras e quando, já na avançada idade de 85 anos, as dores se manifestavam com crises agudas, fazia-se transportar de liteira para difundir suas campanhas e visitar seus hansenianos. As denúncias em prol dos hansenianos eram o testemunho real do que Raoul Follereau tinha visto e conhecido pessoalmente: "Vi... leprosos no meio de loucos, leprosos no deserto, nas cadeias, confinados em cemitério, em campos de concentração, vigiados por soldados armados. Tudo isso vi pessoalmente em pleno século 20, quando já existe a possibilidade de cura". DOIS BOMBARDEIROS PARA A CURA DOS LEPROSOS Em 1952, escreve para a Sétima Assembléia Geral da ONU, propondo o projeto de uma convenção internacional para tratar dos direitos dos leprosos. Como a ONU não respondeu, em 1954, convoca a primeira Jornada para o Leproso a ser celebrada no mundo inteiro, no último domingo de janeiro, data que hoje se celebra em muitos países para recolher fundos e continuar a luta contra a hanseníase. Estranhamente, no Brasil, ainda não temos o costume de celebrar esse dia. No mesmo ano, escreve uma carta aos dois líderes máximos da terra, o norte-americano Dwight Eisenhower e o russo Georgi Malenkov, pedindo uma ajuda equivalente ao custo de dois bombardeiros: "aquilo que vos peço é muito pouco. Peço um avião bombardeiro a cada um, porque sei que este avião custa cinco milhões de francos. Eu calculei que com o dinheiro desses aparelhos de morte se poderiam curar todos os leprosos do mundo". Naturalmente, os dois líderes nem responderam. Em 1966, Raoul Follereau patrocina o nascimento de uma Federação Européia contra a hanseníase para coordenar os organismos que lutavam contra a lepra, a Elep, que, mais tarde, se abrirá também para os organismos internacionais. Em 1975, vinte e três anos após o pedido de Raoul, a ONU adota uma Declaração Universal dos Direitos dos Doentes de Lepra.
Na sua luta contra a lepra, Follereau, talvez, tenha sido o primeiro a descobrir que a doença tem cura e pode ser evitada num ambiente social sadio, mais justo, mais eqüitativo e que, entre as causas, se encontra a miséria, a fome, a falta de moradia decente, o fanatismo e a covardia dos governos que pouco ou nada investem na saúde de seu povo. Assim, sempre com seu estilo provocatório e já famoso no mundo, escreve ao secretário geral da ONU para pedir que "todas as nações presentes na ONU declarem um dia de paz mundial a cada ano, se comprometam a retirar de seus orçamentos o equivalente ao custo de um dia de armamento e de guerra e o destinem para um fundo comum para lutar contra a pobreza, a miséria, a fome e as grandes doenças endêmicas que dizimam a humanidade". Essa idéia foi retomada pelo papa Paulo VI, no mesmo ano, mas tudo ficou letra morta. Os grandes da política pouco se importam com os pobres, doentes, miseráveis, se eles não entram no jogo dos seus interesses. O que consolava Raoul eram os jovens que, aos milhões, se empenharam nessas campanhas humanitárias, seguindo o seu entusiasmo. Em 1969, um ano após o famoso episódio que revolucionou a juventude européia com seu proibido proibir, Raoul agradecia aos jovens que se tinham colocado do outro lado da trincheira, do lado das campanhas humanitárias: "os três milhões de jovens que me apoiaram nessa campanha fraterna ficarão felizes e orgulhosos com os resultados". Famosas e marcantes ficaram as mensagens que Raoul deixava aos jovens. No seu testamento espiritual, deixou escrito: "Nomeio minha herdeira universal a juventude do mundo. Toda a juventude de direita, de esquerda, do centro, de cima... o que importa? Toda a juventude, aquela que recebeu o dom da fé, aquela que se comporta como se acreditasse e aquela que pensa não crer. Só há um céu para todos. Mais a minha vida se aproxima de seu final, mais sinto o imperioso dever de repetir: somente com o amor salvaremos a humanidade e ainda: a pior desgraça que pode acontecer a vocês, jovens, é não serem úteis a ninguém e que suas vidas não sirvam para nada. O tesouro que vos deixo é o bem que deixei de fazer, que gostaria de ter feito e que vocês farão depois de mim...". Raoul Follereau morreu aos 6 de dezembro de 1977. Alguns dias antes, seu amigo e biógrafo, Jean Toulat, tinha-lhe perguntado se tinha medo da morte. Ele, que preenchera sua vida com atividades sem fim para o bem da humanidade, respondeu: "Ter medo de Deus? Não! Deus é bom e com tranqüilidade me apresentarei ao seu encontro". A CADA MINUTO, UM LEPROSO A MAIS NO MUNDO "Para a medicina, o mal de Hansen - nome do descobridor do bacilo causador da lepra - não é mais um problema. Todavia, a cada minuto, aparece um novo caso da doença no mundo. A Índia é o país mais atingido em números absolutos e, em segundo lugar, vem o Brasil. A cura dessa epidemia não está somente na medicina, mas também na luta contra a pobreza". Quem diz isso, é o dr. Sunil Deepak, com sua autoridade de especialista em epidemiologia na Inglaterra, na Índia e na Itália, presidente do Ilep, a federação internacional que reúne todos os organismos no mundo que lutam contra a doença. Comentando os últimos dados da OMS, a Organização Mundial da Saúde, o dr. Sunil faz notar que, embora houve e há inegáveis sucessos na luta contra a hanseníase, 760 mil novos casos apareceram em 2001.
Entre esses novos doentes, 80 mil são crianças e 250 mil terão danos fisiológicos permanentes que os tornarão inaptos para sempre. Em 24 países do mundo (ver quadro), a doença deveria ser considerada ainda uma emergência social. Em 1991, a ONU tinha fixado o ano 2000 para a eliminação total da lepra, mas o objetivo falhou e a meta foi agendada para 2005. O dr. Sunil Deepak, porém, duvida que, nessa nova data, a lepra será eliminada e tenta explicar a causa do seu contínuo crescimento: "Hoje, a Organização Mundial de Saúde considera a hanseníase globalmente controlada e, de fato, em vários países, a incidência foi reduzida a quatro casos em dez mil pessoas. Mas, há situações extremas como a Índia que, em 2001, registrou 620 mil novos casos e o soma no mundo continua superior aos 760 mil casos. Outra causa do aumento é que, em vários países onde a hanseníase era endêmica, diante dos progressos obtidos nos últimos 20/30 anos, baixaram a guarda, desativaram cedo demais os hospitais e as colônias e restituíram às famílias doentes nem sempre curados. Por isso aumentou o contágio". O dr. Sunil Deepaak denuncia outras causas desse alastramento, porque, "apesar do progresso das pesquisas, a hanseníase permanece a doença dos pobres e a verdadeira cura é a luta contra o subdesenvolvimento. Por isso, os governos devem se comprometer a favorecer o crescimento social, a melhora das condições de vida. Combater a hanseníase é comprometer-se com uma maior justiça social e uma mais justa distribuição da riqueza". Marcelo Candia, o santo moderno Marcelo Candia (1916-1983) era um bem sucedido empresário italiano, figura modelar de leigo cristão que vivia o Evangelho. Um dia, vende sua indústria química e se transfere para Macapá, onde iniciou a construção do maior hospital do norte brasileiro, o São Camilo, confiando-o aos padres camilianos.
Não satisfeito, nos anos setenta, transfere-se para o leprosário governamental de Marituba, perto de Belém, considerado, pelos doentes e pelos visitantes, a ante-sala do inferno. A situação de abandono era trágica. Uma aldeia com casebres de barro e palha, onde as autoridades reuniam e abandonavam os leprosos. Havia mais de 1200 doentes com seus familiares nesses barracos e um só médico que procurava fazer o melhor possível, enfrentando uma extrema falta de recursos farmacêuticos. Os doentes eram abandonados, sem nada fazer, agravando seu desespero diante do avanço da doença que, não curada, tomava conta de seus corpos. Chegando ao leprosário, o dr. Candia consegue licença do governo para construir estruturas para ensinar aos doentes, de modo especial aos jovens, um trabalho, como marcenaria, datilografia, mecânica. Constrói um laboratório para as próteses, necessárias às pessoas que tinham perdido o uso dos membros, outros de corte e costura e enfermagem, inicia um dispensário médico com fisioterapeutas de Belém e Manda vir remédios do exterior. Em 1977, consegue missionários e missionárias do Pime para a assistência sanitária e religiosa e incentiva a formação de uma aldeia de ex-hansenianos na periferia do mesmo leprosário, abrigando-os com suas famílias. Em 1978, chega a Marituba dom Aristides, dinâmico e realizador, que transforma a antiga aldeia numa cidade satélite de Belém, com paróquia, escolas e obras sociais. O governo desativou o leprosário e a colônia após a visita do papa João Paulo II, mas a assistência aos leprosos continua com a presença dos Servos da Divina Providencia de dom Calabria, recentemente beatificado, e com a ajuda da Associação dos "Amigos de dom Aristides Pirovano" e da "Fundação dr. Marcelo Candia". Os anjos na ante-sala do inferno Desde a antiguidade, a lepra sempre foi vista como um perigo público. Da Bíblia, conhecemos as regras a que o doente, após ser declarado leproso pelos sacerdotes, devia se submeter. A primeira era se isolar do convívio familiar e social, deixar sua aldeia e avisar sua presença porque a doença era considerada, em primeiro lugar, uma doença impura, um pecado exterior. Outras culturas também tratavam os leprosos da mesma maneira, até poucos anos atrás, isolando-os do convívio social como cães raivosos. Gandhi deixou escrito que a assistência aos leprosos era tão cara aos missionários porque nenhum outro serviço ao próximo requer um espírito de renúncia e doação maior do que esse. Na Índia, em 1956, o governo reconhecia que 80% dos hansenianos do país eram curados por católicos e protestantes. Na história do cristianismo, desde o exemplo de Jesus que curou e reinseriu na sociedade os doentes, é grande o elenco dos que, por espírito de doação, se dedicaram aos leprosos até partilharem com eles a mesma doença, como pe. Damião, na ilha de Molokai. Em todos os institutos missionários que escolheram trabalhar nos limites extremos da sociedade, há uma extensa lista de missionários e missionárias, religiosos ou leigos, que se dedicaram e se dedicam a esse serviço. O Pime, também se destacou nesse campo. São os missionários e as irmãs da Imaculada que trabalham em Marituba, periferia de Belém, em Parintins na Amazonas, em Papua Nova Guiné, na Guiné Bissau, em Bangladesh, na Índia. Não podendo lembrar todos, queremos citar alguns exemplos e, entre eles, dom José Maritano, segundo bispo do Amapá, que, ao deixar o governo da diocese, passou os últimos anos no leprosário de Prata - Belém, agora desativado. Mas, também, pe Carlos Torriani, na Índia, com sua original e ecumênica iniciativa de criar um ashram em Bombaim; dom Aristides Pirovano, primeiro bispo de Amapá (1948-1965), superior geral do Pime (1965-1977) e que trabalhou no leprosário de Marituba, com uma presença direta ou viajando pela Europa, para conseguir meios e financiamentos para os seus doentes. Em particular, lembramos a figura de um industrial, Marcelo Candia, que vendeu todos seus bens e mudou sua vida por causa dos leprosos do Brasil. Hoje, está em andamento a causa de beatificação desse homem moderno que deixou tudo e deu aos pobres, conforme os conselhos evangélicos e se dedicou aos mais rejeitados entre os pobres e doentes. |
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