Revista "MUNDO e MISSÃO"

Movimentos Eclesiais

CNBB e MOVIMENTOS

Aroldo Braga

Em Goiânia, pela primeira vez, a CNBB se encontra com os Movimentos Eclesiais. Depois das dificuldades, abre-se a esperança, na unidade.

Entres os dias 24 e 26 de novembro passado, aconteceu, em Goiânia, o I Encontro Nacional dos Movimentos Eclesiais (I ENME), convocado pela CNBB e do qual participaram representantes de movimentos e novas comunidades eclesiais de todo o Brasil.

Inspirado no grande Encontro de Pentecostes, ocorrido em Roma em 1998, quando João Paulo II abençoou com grande alegria a presença dos movimentos na vida da Igreja, esse encontro de Goiânia teve um outro significado e outra forma de desenvolvimento. Enquanto em Roma ocorria um encontro festivo, onde o papa apenas confirmava seu reconhecimento e apoio a essa emergente e significativa expressão da Igreja em nosso tempo, em Goiânia, verificava-se uma primeira abordagem de relacionamento da estrutura da Conferência Episcopal com os movimentos e novas comunidades no Brasil.

Além dos momentos expressivos da abertura, das liturgias e do encerramento ocorrido no Estádio Olímpico de Goiânia, foram destaques a mesa-redonda e as duas conferências. A teóloga Maria Clara Bingemer, do Centro Loyola de Fé e Cultura, do Rio Janeiro, com o tema "Movimentos Eclesiais, vocação à santidade na diversidade", apresentado no dia 25, enfocou o papel dos movimentos eclesiais em nosso tempo, ligando esse papel à vocação de cada pessoa à santidade como conseqüência do próprio sacramento do Batismo. Essa reflexão repercutiu profundamente sobre todo o encontro, tornando-se um de seus pontos mais significativos. Foram importantes ainda, nesse contexto, a conferência do presidente nacional da Renovação Carismática Católica, Reinaldo dos Reis, com o tema "Missão dos Leigos no Mundo", e a mesa-redonda onde foram apresentadas algumas experiências de inserção de movimentos na Igreja e na vida social de nosso País.

Santidade na diversidade

Ainda que cada bispo tenha, como de fato cada um tem, a oportunidade de um relacionamento direto com os movimentos em sua Igreja particular, fazia-se necessária a abertura desse diálogo em nível nacional, tanto para que os movimentos possam melhor conhecer e se integrar nos grandes programas da Pastoral expressos nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil (DGAE) quanto para que a própria estrutura da CNBB, conhecendo os Movimentos, acolha-os como agentes dessa ação evangelizadora, despindo-se das reservas com que ainda os considera. Não é infundada a esperança de que, a partir daqui, esse relacionamento venha crescer e estreitar-se, com grandes benefícios para a Igreja e para a sociedade.

A mensagem aprovada no Encontro, dirigida ao episcopado, ao clero e a todo o Povo de Deus, reconhece, de forma madura, a necessidade de "um testemunho vivo de unidade da Igreja" diante de um "mundo dilacerado e marcado pelo individualismo, pela falta de solidariedade, pela discriminação e pela intolerância, e diante dos desafios provocados por um sistema neoliberal excludente e opressor". Lembra, repetindo o texto do Projeto "Ser Igreja no Novo Milênio", que "a busca da concórdia e do consenso não foi sempre fácil; mas o diálogo e o respeito das diferenças, testemunhados pelo Novo Testamento, abrem perspectivas para os cristãos de hoje: para um diálogo respeitoso e construtivo dentro da própria Igreja" (SINM).

Unidade

Esse diálogo, esse respeito e esse testemunho vivo de unidade deverão ser a grande riqueza advinda do Encontro e serão mais um instrumento para o cumprimento do papel que a Igreja sempre tem tido como guardiã da ética, da justiça e da liberdade em nosso País. O mundo tem mudado velozmente e essa mudança traz a todos os segmentos da sociedade, inclusive à Igreja, uma grande perplexidade diante do futuro e do próprio presente. Mais do que nunca, nesse tempo de mudanças e de perplexidade, o Brasil carece da palavra, do testemunho e da luz que a Igreja pode lhe dar. E essa luz, essa palavra dependem também da compreensão que a Igreja busca ter de si mesma diante da emergência de novos atores no processo de evangelização, incluindo-os em seu diálogo com este mundo marcado fortemente pela diversidade.

Para essa compreensão de si mesma, a Igreja deverá estar atenta à surpreendente quantidade de pequenos grupos, comunidades e movimentos autônomos que se apresentaram nesse I Encontro Nacional dos Movimentos. Os participantes dessas experiências vivem na convicção de sua fidelidade mais plena à Igreja, a sua doutrina e ao Evangelho, exercitando essa fidelidade em diferentes ambientes e com as mais variadas visões de Igreja. Faz-se necessária a construção de um espaço de diálogo da CNBB com essas comunidades, a fim de que elas encontrem a certeza de sua pertença e possam ali receber o amor, o ensino e até mesmo a correção do episcopado nacional. Isso é importantíssimo, até como proteção à unidade da ação evangelizadora no Brasil.

Sinal vivo das perspectivas desse diálogo foram as presenças, em toda a programação, do presidente da Conferência, dom Jaime Chemello, e de dom Mauro Montagnoli, bispo responsável pelo Setor Leigos da CNBB, significando a importância desse evento que nasceu de uma decisão dos bispos de todo o Brasil, tomada em sua Assembléia Geral de 1999.

Aos movimentos, depois desse Encontro, cabe dar novos passos na busca de mais inserção na ação evangelizadora da Igreja no Brasil, sempre protegendo cada um o seu carisma, que é a primeira razão de suas existências. Sendo assim, junto com todas as demais expressões da Igreja em nosso País, os movimentos poderão contribuir para a realização da oração de Jesus, tomada como lema do Encontro e desafio para toda a Igreja: "Que todos sejam um, para que o mundo creia" (Jo 17,21).

Aroldo Braga é assessor nacional da CNBB

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