Revista "MUNDO e MISSÃO"
Mulher
Ao pensar no papel da mulher na obra da escritora mineira Adélia Prado, imediatamente me ocorre que es-se papel não existe; mas de fato existe o ser Adélia que em sendo profundamente ser demonstra-se em sua forma original: feminina. É João Paulo II que declara, na encíclica A Dignidade e a Vocação da Mulher, justamente, que cada mulher herda do princípio da criação a dignidade de pessoa precisamente como mulher. Mas, antes, temos de enfrentar a questão da pessoa, do ser pessoa. Em Adélia Prado, ser pessoa comprova, imediatamente, a afirmação aristotélica da admiração. O pensador grego afirma que o princípio de toda a poesia reside no miradum: uma das características ontológicas do homem é admirar-se diante da realidade, é mirar estupefacto pelo descobrimento do mundo. O miradum se dá quando nos damos conta de que o mundo,
a natureza, as pessoas, escondem um encanto inespe-rado, até então
despercebido. Certa vez, o escritor do realismo fantástico Franz Kafka fez um interessante comentário acerca de como julgavam sua obra. Dizia-se que Kafka tinha o poder de criar o maravilhoso em suas obras. Ele contraponteou, afirmando que decerto isso seria um engano, pois a realidade por si já era o próprio maravilhoso. Trata o ofício da arte, portanto, como tarefa de revelar o maravilhoso existente em todas as coisas, para que o homem possa exercer sua tarefa humana de maravilhar-se com o mundo, porque reconhece que ele possui um sentido, um maravilhoso dentro de si. A nossa escritora afirma isso no poema Genesíaco, ao explicar que os vocativos, a súplica, o dar-se conta, enfim, da realidade maior do que o eu é a base da escrita.
A esse ponto temos clara a importância da admiração como característica constitutiva do ser, resta-nos entender um pouco do que pode ser sua manifestação feminina. A obra adeliana é a próprio desvelar de sentido do cotidiano revelada no formato prosa ou verso por ela escolhido. A maneira de sua expressão é marcadamente de uma mulher. O que quer dizer marcadamente mulher? Que a exaustiva administração dos afazeres cotidianos são o grande tema de sua obra. Em uma interessante entrevista sobre o ato de criar, o professor da Universidade de São Paulo, Luiz Jean Lauand, indaga-lhe sobre qual é o grande tema da escrita. Sua resposta precisa e profundamente conectada à vida, portanto, às pessoas que a cercam foi, literalmente,: O grande tema é o real. E onde é que nós temos o real? É na cena cotidiana. Todo mundo só tem o cotidiano e não tem outra coisa. A esta capacidade de realismo, de estar atenta à infinidade de pequenos problemas e também aos grandes que a realidade lhe lança é que eu chamo da postura feminina da obra adeliana.
Por isso, estranhamente, é uma verdadeira bandeira revolucionária o seu magnífico poema Mural, de seu último livro de poemas Oráculos de Maio.
Amar a aprazível rotina de recolher ovos, fazer comida, ir para o trabalho, ajudar as crianças a viver descreve a grande rotina da qual se constitui a vida humana. Não é pouco, portanto, resgatá-la, uma vez que se trata da própria vida. Encerremos com um texto do grande educador beneditino, Dom Lourenço de Almeida Prado, sobre os pequenos atos dos quais se constitui a história do homem: Já se disse que o avanço da civilização, isto é, o amadurecimento da vida do homem em sociedade, pelo acesso à vida civilizada, não tem sido causado pelos grandes políticos reformadores, nem pelos grandes generais ou líderes revolucionários, mas pelo trabalho silencioso e quase imperceptível daqueles que vão introduzindo, no convívio cotidiano da família, dos grupos de trabalho, da aldeia ou da fazenda, princípios de relacionamento, práticas de reciprocidade e mutualidade, que se transformam em hábitos comuns e depois são acolhidos e consagrados pelas leis. Podemos dizer, nesse sentido, quase sem exagero, que a verdadeira história da humanidade não está nos compêndios. Estes tratam das guerras e das revoluções, dos surgimentos e da derrubada dos tiranos, do crescimento e da morte dos impérios e quase nunca se dão conta de que, entre a hora que um rei suplanta o seu antecessor e a hora em que ele mesmo é suplantado, não há um passo sequer de verdadeiro progresso humano. O progresso realmente digno desse nome vem de dentro, nasce no coração humano que se aprimora e transborda para as leis e as instituições. Eis uma tarefa marcadamente feminina de quem sabe que servindo, se torna rainha. |
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