Revista "MUNDO e MISSÃO"

Mulher

“Maria, desde o primeiro instante de sua maternidade divina, (...) insere-se no serviço messiânico de Cristo.
É precisamente este serviço que constitui o fundamento
próprio do Reino, no qual ‘servir... quer dizer reinar.’
Cristo, “Servo do Senhor”, manifestará a todos os homens
a dignidade real do serviço, com a qual anda
estreitamente ligada a vocação de todo homem.”

João Paulu II, A Dignidade e a Vocação da Mulher, 5.

Ao pensar no papel da mulher na obra da escritora mineira Adélia Prado, imediatamente me ocorre que es-se papel não existe; mas – de fato – existe o ser Adélia que – em sendo profundamente ser – demonstra-se em sua forma original: feminina.

É João Paulo II que declara, na encíclica A Dignidade e a Vocação da Mulher, justamente, que cada mulher herda do princípio da criação “a dignidade de pessoa precisamente como mulher”. Mas, antes, temos de enfrentar a questão da pessoa, do ser pessoa.

Em Adélia Prado, ser pessoa comprova, imediatamente, a afirmação aristotélica da admiração. O pensador grego afirma que o princípio de toda a poesia reside no miradum: uma das características ontológicas do homem é admirar-se diante da realidade, é mirar estupefacto pelo “descobrimento” do mundo.

“O miradum se dá quando nos damos conta de que o mundo, a natureza, as pessoas, escondem um encanto inespe-rado, até então despercebido.
O miradum é o que a fotografia, o quadro, a música podem nos revelar e nos surpreender ao nos despertarem para o que estava ao nosso lado e que parecia estar vazio de significação. Fazem-nos perceber, no comum e no diário, aquilo que é incomum e não-diário”.

Certa vez, o escritor do realismo fantástico Franz Kafka fez um interessante comentário acerca de como julgavam sua obra. Dizia-se que Kafka tinha o poder de criar o maravilhoso em suas obras. Ele contraponteou, afirmando que decerto isso seria um engano, pois a realidade – por si – já era o próprio maravilhoso. Trata o ofício da arte, portanto, como tarefa de revelar o maravilhoso existente em todas as coisas, para que o homem possa exercer sua tarefa humana de maravilhar-se com o mundo, porque reconhece que ele possui um sentido, um maravilhoso dentro de si.

A nossa escritora afirma isso no poema “Genesíaco”, ao explicar que os vocativos, a súplica, o dar-se conta, enfim, da realidade maior do que o eu é a base da escrita.

Ó noite de mil olhos reluzentes
Os vocativos são o princípio
De toda a poesia.

A esse ponto temos clara a importância da admiração como característica constitutiva do ser, resta-nos entender um pouco do que pode ser sua manifestação feminina.

A obra adeliana é a próprio desvelar de sentido do cotidiano revelada no formato – prosa ou verso – por ela escolhido. A maneira de sua expressão é marcadamente de uma mulher. O que quer dizer marcadamente mulher? Que a exaustiva administração dos afazeres cotidianos são o grande tema de sua obra.

Em uma interessante entrevista sobre o ato de criar, o professor da Universidade de São Paulo, Luiz Jean Lauand, indaga-lhe sobre qual é o grande tema da escrita. Sua resposta precisa e profundamente conectada à vida, portanto, às pessoas que a cercam foi, literalmente,: “O grande tema é o real. E onde é que nós temos o real? É na cena cotidiana. Todo mundo só tem o cotidiano e não tem outra coisa”.

A esta capacidade de realismo, de estar atenta à infinidade de pequenos problemas – e também aos grandes – que a realidade lhe lança é que eu chamo da postura feminina da obra adeliana.

Uma forma para mim

Hoje acordei normal,
como antes de fazer treze.
Fui cedo catar coisas no lixo,
cavucar abacaxis apodrecidos,
atrás de um veio são,
como quem cata ouro.
Que tem isso tudo a ver
com santidade?
Mas se não tiver me morro,
porque não entendo outro ar
menos grosso que este
onde meu nariz se apóia.

Essa capacidade de reconhecer ou de suplicar para reconhecer o sentido das coisas, quaisquer coisas, todas as coisas faz com que nada escape do cotidiano. A enorme virtude disso é que a nossa vida é cotidiano prosaico, pequeno, repetitivo, ranheta. Assim, ao gritar pelo sentido da vida miudinha – que é do que somos feitos – e ao afirmar suas respostas, Adélia Prado nos “salva” e o faz de uma maneira vigorosa. Como uma mulher, ela é grande porque vai tecendo, relembrando, apontando o sentido para cada um que encontra nas tarefas cotidianas. Essa grande revolução silenciosa, misteriosa e definitiva que trata de cooperar com a construção da alma daqueles que encontra é a grande vocação da maternidade, aliás, maternidade de todos os tipos: mãe, professor, amigo...

Por isso, estranhamente, é uma verdadeira bandeira revolucionária o seu magnífico poema “Mural”, de seu último livro de poemas Oráculos de Maio.

Recolhe do ninho os ovos a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
é seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.

“Amar a aprazível rotina” de recolher ovos, fazer comida, ir para o trabalho, ajudar as crianças a viver descreve a grande rotina da qual se constitui a vida humana. Não é pouco, portanto, resgatá-la, uma vez que se trata da própria vida.

Encerremos com um texto do grande educador beneditino, Dom Lourenço de Almeida Prado, sobre os pequenos atos dos quais se constitui a história do homem:

“Já se disse que o avanço da civilização, isto é, o amadurecimento da vida do homem em sociedade, pelo acesso à vida civilizada, não tem sido causado pelos grandes políticos reformadores, nem pelos grandes generais ou líderes revolucionários, mas pelo trabalho silencioso e quase imperceptível daqueles que vão introduzindo, no convívio cotidiano da família, dos grupos de trabalho, da aldeia ou da fazenda, princípios de relacionamento, práticas de reciprocidade e mutualidade, que se transformam em hábitos comuns e depois são acolhidos e consagrados pelas leis.

Podemos dizer, nesse sentido, quase sem exagero, que a verdadeira história da humanidade não está nos compêndios. Estes tratam das guerras e das revoluções, dos surgimentos e da derrubada dos tiranos, do crescimento e da morte dos impérios e quase nunca se dão conta de que, entre a hora que um rei suplanta o seu antecessor e a hora em que ele mesmo é suplantado, não há um passo sequer de verdadeiro progresso humano. O progresso realmente digno desse nome vem de dentro, nasce no coração humano que se aprimora e transborda para as leis e as instituições”.

Eis uma tarefa marcadamente feminina de quem sabe que “servindo, se torna rainha”.

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