Revista "MUNDO e MISSÃO"
Mulher
| O que restou das amazonas do Benin?
Patrizia Bergamaschi Após consultar o parecer da multidão, o mingan (algoz e
mais alto dignatário da corte), retirou-se; uma amazona, com cerca
de 20 anos, dirigiu-se decididamente aos dois homens que seguravam o condenado.
Estavam querendo pôr à prova a jovem que ainda não
havia matado ninguém! Armada com um sabre do país bem afiado,
ela feriu uma primeira vez, depois uma segunda e uma terceira, cortando,
depois, tranqüilamente, os últimos pedaços de carne
que ligavam a cabeça ao pescoço. O algoz ordenou que recolhessem
a cabeça que um homem levou ao palácio do rei. Após
a execução, a amazona enxugou com a mão o sangue
que ficou em seu sabre e o tomou". Um regimento de cruéis mulheres A criação desse perigoso exército é descrita
no trabalho do estudioso, Pierre Dufour, a respeito da ação
francesa para acabar com o rei Behanzin, em 1892, em Daomé, atual
Benim, nome adquirido em 1975, quinze anos após se tornar uma república.
Acontecia que o rei de Dan-Homé invadia, constantemente, o pequeno
reino de Porto-Novo, sob protetorado francês. Durante vários
anos, repetiram-se os acordos assinados e violados e o rei de Dan-Homé
afirmava-se cada vez mais como tirano. Foi, então, na condição
de tirano, preocupado com a manutenção do poder dentro de
sua própria corte, que o rei Guezo, no século passado, passou
a investir mais na seleção de meninas, primeiro entre as
filhas dos escravos vendidos, depois, também entre as filhas dos
"seus homens", aquelas que fariam parte de sua guarda pessoal
e de seu harém. Destacavam-se, antes de tudo, pelo fanatismo: "Somos
homens, não mulheres. Aquelas que voltarem de uma guerra sem terem
conquistado algo devem morrer. Qualquer cidade que vamos atacar devemos
conquistá-la ou nos enterraremos sob suas ruínas. Guezo
é o rei dos reis. Enquanto ele viver, não temeremos nada.
Guezo deu-nos um novo dia. Somos suas mulheres, suas filhas, ele nos alimenta". Tirania cega Treinadas como soldados, elas eram obrigadas ao celibato, a não
ser aquelas que o rei escolhia para serem suas esposas ou para dar a seus
melhores guerreiros. O corpo das amazonas contava com cinco mil mulheres,
repartidas em três brigadas e vários regimentos, sob o comando
único de uma guerreira que tivesse se destacado em combate. Sua
missão era estar perto do rei e só atacar segundo sua ordem;
como disciplina: acostumar-se ao sofrimento e matar, sem cuidar da própria
vida. Foi também com esse regimento de elite, verdadeira tropa
de choque, que o neto de Guezo, Behanzin, que exerceu um governo de terror,
mascarado por uma leve camada de civilização européia,
decidiu enfrentar 3600 homens enviados pela França. Um século depois Das fantásticas e inacreditáveis histórias das amazonas
reais quase nada restou: ruínas, lembranças. A vida da mulher
beninense da atualidade não evoca conquistas, glórias e
lutas, mas equaciona-se no binômio família-tradição. Mentalidade mágica? Ainda hoje, apesar do contato com o mundo europeu e, sobretudo, com o
cristianismo de diversas denominações, há costumes
que não se perdem, por conta daquilo que o nosso mundo chama de
"mentalidade mágica". Exemplo disso é a grande
quantidade de bebês abandonados: existe um costume que priva do
direito de viver o recém-nascido que, na hora do parto, cai sobre
o ventre ou que nasce no oitavo mês e também as crianças
que tiveram o primeiro dente no maxilar superior, entre outros motivos. E as guerreiras? Entender o desaparecimento do regimento das amazonas não é tão difícil. Com a derrota do rei tirano, a existência das guerreiras não teria mais sentido, visto que naufragava a fonte geradora que as impulsionava a lutar. O que impressiona é que o rei não conseguira tamanha ferocidade, lealdade e fanatismo dos soldados. Talvez o motivo que explique seja a antiga estrutura social do reino de Daomé em que o soberano detinha todo o poder, inclusive o de vida e morte de seus súditos, em que ser mulher era contar muito pouco, era ser um número a mais. Nessa concepção, pertencer ao regimento do rei significava estar, de certo modo, próximo ao poder, agindo como homem, em situação de domínio (inclusive sexual), inspirando medo e respeito, decidindo sobre a vida. Todavia, sendo as amazonas uma exceção na tradicional sociedade africana, seu destino seria fugaz como seu aparente poder. Com a morte do rei, morreria o quase mito das guerreiras. Voltaria a mulher a ser lugar submisso e passivo. |
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