Revista "MUNDO e MISSÃO"
Mulher
Mulheres geradoras
de org. por Costanzo Domegana
Existem
“profissões” nas quais a presença das mulheres
é mínima,
A rejeição das outras religiões é um fenômeno novo em nosso país, e é por isso que a presença da Igreja em terra islâmica reveste uma importância capital pela promoção e o respeito às diferenças. É necessário que a existência do outro, sua presença e a maneira como se olha a diferença sejam vividas como coisas normais, evidentes. Sobretudo neste período em que vivemos momentos trágicos marcados pela exclusão, o totalitarismo, a ameaça islâmica integralista, racista e misógina.
A mensagem de bom senso, de tolerância, de respeito às crenças é ameaçada, aniquilada: os assassinatos de religiosos cristãos, vistos como perturbadores da “comunidade melhor” (os muçulmanos, n.d.t.) podem então ser “justificados”. Diante dessa situação dramática, a Igreja da Argélia fez sua opção: nossa Igreja compreendeu que o abandono não é uma solução. De fora, essa opção nem sempre foi bem entendida. Por que manter tantos padres, quando a comunidade cristã se tornou quase inexistente? Devemos, então, refletir sobre uma Igreja específica e especial para os países muçulmanos. Ela teria duas dimensões:
Na Argélia, fiéis muçulmanos vêem sua religião confiscada por grupos prontos a utilizar a violência para impor sua visão do islã. Sentimos uma profunda frustração. A presença dos cristãos se torna então um vislumbre de esperança para nos consolar, nos ajudar a amar a Deus e a procurá-lo. A presença de religiosos e religiosas, seu sacrifício, suas obras a serviço dos jovens e das mulheres, em particular, são um conforto para aqueles, entre nós, que, de vez em quando, fraquejam e perdem a esperança. Nós nos recuperamos, retomamos a confiança e continuamos, graças ao exemplo desses cristãos que nos dizem uma palavra de Deus e sobre Deus. A Igreja da Argélia nos deu a oportunidade de aprender a lutar para que aumente a humanidade na justiça, na liberdade, na verdade, na solidariedade e na fraternidade. De vez em quando, temos vontade de rejeitar Deus, mas a presença da Igreja nos chama à ordem e nos ajuda a ver Deus atuando e nos torna responsáveis. A presença da Igreja, é mais do que nunca, vital para nosso país, para assegurar a perenidade de uma Argélia plural, pluriétnica, aberta ao próximo, profundamente tolerante e solidária, para construir a história da Igreja de amanhã ou, melhor, o homem de amanhã, o argelino de amanhã. Todos os massacres sofridos nos últimos anos – milhares de mortos e órfãos – os argelinos saberão perdoá-los. Mas o que eles não aceitam são os assassinados de religiosos, esses “homens de Deus”. Assim, a história permitiu quebrar os tabus e reconhecer oficialmente esses religiosos cristãos como homens de Deus, definição que se recusava a atribuir a eles em terra islâmica. Assim, dom Pierre Claverie, bispo de Orán, assassinado em 1996, tornou-se “nosso bispo”. Existe, na Argélia, uma “Igreja muçulmana”. É composta por todas as mulheres e todos os homens que se reconhecem em uma mensagem de amor universal e no seu compromisso com uma sociedade plural e fraterna: ela é mais numerosa do que vocês imaginam. É por isso que eu acho injusto e prejudicial que se diga: “Não há mais cristãos. Por que então enviar religiosos para a Argélia?”. Na Argélia, nossos sangues são misturados. É o que acreditava Pierre Claverie, ele que misturou seu sangue ao de Mohammed (motorista do bispo, morto com ele, n.d.t.). Efetivamente, não há mais simplesmente cristãos, nem simplesmente muçulmanos: existe a revelação de Deus ao homem. O homem de amanhã está em construção – e a Igreja da Argélia está presente para isso. É por isso que eu apelo às forças de Deus e do amor de Deus, dentro do país como no exterior, para que não abaixemos os braços. É um destino comum, são valores comuns que formam essa esperança de vida, essa sede dentro do respeito e na tolerância. Eu quero prestar homenagem aos 19 religiosos e religiosas que, nos últimos anos, deram sua vida para que viva aquela Argélia! Presto uma homenagem particular a Pierre Claverie, nosso bispo. Agradeço a todos os que escolheram ficar ou vir até nós para essa partilha. Obrigada à Igreja por ter deixado sua porta aberta: ela descobre o homem novo. E, juntos, descobrimos Deus. Porque Deus não é uma propriedade particular. Uma muçulmana “amiga
da Igreja” Amor delicado e respeitoso
Só quinze anos depois, pode realizar seu sonho de partir para a África – precisamente para a Argélia onde o irmão Carlos viveu e morreu – com sua mãe e uma companheira, com as quais começa a se dedicar à população pobre de uma cidadezinha dos altos planaltos. É um período de muita atividade, mas ela percebe que falta algo de essencial: a contemplação, para a qual se sente chamada. Na busca da definição de sua vocação, evidencia-se em sua alma o mistério de Belém, com o rosto de um Deus sem defesa, humilde. Os pequenos e os pobres Em outubro de 1939, Madalena (pequena irmã Madalena de Jesus) inicia, com uma companheira, a primeira fraternidade das pequenas irmãs de Jesus e vão se inserir no meio de uma centena de famílias nômades, que vivem discriminadas ao redor de um oásis. Da manhã até a noite, trabalha com eles, partilha sua vida, conhece cada um pelo nome. A companheira a deixa pouco tempo depois e Madalena se encontra sozinha, totalmente mergulhada nesse ambiente muçulmano. Ela não procura fazer uma obra de assistência, mas tecer pacientemente laços de amizade com pessoas das quais tudo deveria separá-la. Assim lembra, mais tarde, essa primeira experiência: “Passei com eles um período extraordinário de minha vida, no qual vi que um amor de amizade podia coexistir com diferenças de raça, de cultura, de condição social. Entre os mais pobres dos nômades, eles eram os que não tinham nada e se instalavam nos limites de um oásis para serem socorridos. Comigo foram de uma bondade, de uma delicadeza comovente. Nenhuma porta se fechava diante de mim e nunca desapareceu algo da fraternidade, embora eles fossem mais pobres do que eu. Velavam por mim e cuidavam de mim quando estava doente. E diziam que se eu morresse, deveria ser enterrada no meio de deles”. Alguns anos depois, quando ela funda fraternidades em diversos países e povos, convida as pequenas irmãs, apoiando-se sobre aquela primeira experiência: “Gostaria que vocês acreditassem que pode existir uma amizade verdadeira, um afeto profundo entre pessoas que não são nem da mesma religião, nem da mesma raça, nem do mesmo ambiente. É preciso que seu amor cresça e se aprofunde e se matize de delicadeza. O amor generoso se encontra facilmente, mas o amor delicado e respeitoso por todos é raro”. As fundações Nos primeiros anos, ir. Madalena pensava ter fundado uma congregação que se dedicaria exclusivamente aos nômades do Saara. Mas, em 1946, chega à convicção de que a Fraternidade deve se estender ao mundo inteiro e que a amizade que vive com os nômades pode ser vivida com outros povos, em outros contextos. E funda a primeira fraternidade operária na França. Em 1948, começa a abertura para o Oriente Médio e, no ano seguinte, uma presença original entre os nômades da Europa, os ciganos. No mesmo ano, deixa a responsabilidade da Fraternidade a outra irmã e se consagra às fundações, que se espalham rapidamente em todos os continentes, sobretudo no meio das minorias ou nos bairros populares das cidades. Em 1953, escreve às irmãzinhas: “Os projetos de fundação se multiplicam. O mundo inteiro nos chama através da voz dos pequenos e dos pobres que sofrem o desprezo e a injustiça, através da voz das minorias ignoradas. Seria dolorido demais não responder a esses apelos”. Assim, as fraternidades se multiplicam entre os pigmeus dos Camarões, os índios do Brasil, os esquimós da Alasca, os aborígines da Austrália, o povo massai do Quênia... Em 1956, entra pela primeira vez nos países comunistas da Europa. Com 81 anos, consegue entrar na China Popular. Morre em 1989. Contemplação no mundo A originalidade da Fraternidade fundada pela irmãzinha Madalena está na vida contemplativa, inserida no meio do mundo. Num texto, que ela chama de seu testamento, assim a descreve: “Como Jesus, durante sua vida humana, faça-se toda a todos: árabe no meio dos árabes, nômade no meio dos nômades, operária no meio dos operários, mas, antes de tudo, humana no meio dos seres humanos. Não se ache obrigada, para defender sua dignidade religiosa e sua vida de intimidade com Deus contra os perigos exteriores, a levantar uma barreira entre o mundo leigo e você. Não se coloque à margem da massa humana. Como Jesus, faça parte dessa massa humana.
Penetre profundamente e santifique seu ambiente com a conformidade de vida, com a amizade, com o amor, com uma vida totalmente doada como a de Jesus, a serviço de todos, com uma vida tão misturada à de todos, que seja uma só coisa com todos, querendo ser entre eles como o fermento que se perde na massa para fazê-la levedar”. E continua, com ousadia: “Atrevo-me a dizer-lhe ainda: antes de ser religiosa, seja humana e cristã, em toda a força e beleza da palavra. Seja humana para melhor glorificar ao Pai em sua criatura e dar testemunho à humanidade santa de seu Bem-Amado Irmão e Senhor Jesus. Mais você será perfeita e totalmente humana, mais poderá ser perfeita e totalmente religiosa, porque sua perfeição religiosa desabrochará então em um equilíbrio normal que reforçará sua base”. A vida da irmãzinha Madalena e da Fraternidade têm uma prioridade: as minorias abandonadas, os marginalizados: “Devemos ir à procura não só do pobre respeitado, mas também do miserável, do condenado, do culpado que se esconde e que tem vergonha, perguntando-se quem ainda vai amá-lo com amizade. É por isso que procuramos nos aproximar dos presos no abandono moral de suas prisões”. Tudo é vivido na máxima gratuidade: “Permaneçamos as pequenas irmãs de todos, que possamos responder lealmente àqueles que nos colocam a questão: ‘É porque você quer me converter que procura minha amizade? – Não, eu o amo porque você é meu irmão em Deus’. É neste sentido que eu digo, algumas vezes, que devemos ir entre os povos com uma amizade ‘gratuita’ que ama sem procurar um retorno, sem calcular os resultados obtidos. Por isso, ficamos desconcertadas quando nos perguntam: ‘Quais são os resultados de seu apostolado? Que influência vocês têm sobre aqueles que as rodeiam?’. É uma linguagem que não corresponde a nada para nós. Nossa vocação é fazer amar o Cristo através de nós, sem procurar conhecer os resultados. Deus os conta e Deus os vê”. Adaptação do artigo
de Petite soeur Anne de Jésus, Amor entre as religiões odos os homens são candidatos à unidade”. Essa convicção, simples, mas radical, está na base do carisma de Chiara Lubich, uma das personalidades mais eminentes do nosso tempo, fundadora do Movimento dos Focolares ou Obra de Maria. Sua atividade vai muito além do movimento por ela fundado, estendendo-se ao ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a economia, a política, com contatos com grandes personalidades e entidades das Igrejas e religiões, do mundo político e econômico. Aqui vamos nos limitar somente à sua contribuição ao diálogo inter-religioso. Sua originalidade está na proposta da “arte de amar”, que é o caminho para a fraternidade universal e a unidade. São princípios simples e universais, que todos aceitam:
Não são princípios teóricos, mas um estilo de vida, que produziu frutos abundantes e novos. Foi na ocasião do recebimento do Prêmio Templeton para o Progresso da Religião, em Londres (1977), ao qual estavam presentes numerosos representantes das grandes religiões, que Chiara sentiu o chamado a entrar naquele mundo, até então quase desconhecido. E escreveu aos membros do Movimento: “Se em suas cidades existe uma mesquita ou uma sinagoga ou outro lugar de culto não cristão, saibam que ali é seu lugar. Encontrem a maneira de entrar em contato com aqueles fiéis, de estabelecer um diálogo”. A partir daí, começaram os contatos, sempre mais amplos e mais profundos, de Chiara e seu movimento, com budistas, muçulmanos, judeus e hindus, além de representantes de outras religiões. Os budistas Em 1981, Nikkyo Niwano, único observador não-católico no Concílio Vaticano II, fundador do Movimento budista Rissho Kosei-Kai, com mais de seis milhões de adeptos, convidou Chiara a apresentar sua experiência cristã a 12 mil líderes desse movimento, em Tóquio. Ela falou explicitamente de Jesus e da Trindade. Um dirigente comentou que aquilo que o havia impressionado era o Deus-Amor. A esse acontecimento seguiram-se inúmeras ocasiões de contato e de colaboração entre os dois movimentos em várias partes do mundo, também no Brasil.
Em 1995, o Movimento dos Focolares entrou em contato com alguns eminentes representantes do monarquismo tailandês, o grão mestre Ajahn Tong – uma autoridade internacional na doutrina budista – e o monge Thongrattana Thavorn. Eles passaram um período em Loppiano, perto de Florença, um centro de convivência e de formação da Obra de Maria. No convívio diário com as pessoas dali, intuíram a essência do Evangelho e descobriram profundas consonâncias com a vida deles.
Foi assim que, em janeiro de 1997, Chiara foi convidada a ir à Tailândia, onde se encontrou com o supremo patriarca do budismo tailandês. Em seguida, falou a 800 jovens da Universidade Budista de Chiang Mai e dirigiu-se também a monges, monjas e leigos que queriam conhecer seu testemunho cristão. Apresentando-a a esse grupo, o venerável Ajahn Tong declarou: “O sábio não é nem homem nem mulher, nem criança nem adulto. Quando alguém acende uma luz na escuridão, não se pergunta quem ele é. Chiara está aqui para doar-nos a sua luz”. Os judeus Existe um relacionamento muito cordial entre o Movimento dos Focolares e os judeus, em diferentes partes do mundo: Roma, Israel, França, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, etc. Em 1995, Chiara recebeu da nação judaica o prêmio “Uma Oliveira pela Paz”, pelo seu esforço em construir a unidade entre as diversas religiões. Em 1999, o movimento promoveu, em Jerusalém, um encontro entre cristãos e judeus. Chiara, ausente, enviou uma mensagem, na qual afirmava: “Se o nome de cristão, ou de uma Igreja, ou de uma religião pode criar obstáculos à unidade, é melhor não insistir sobre ele. O que vale não é a etiqueta da garrafa, mas aquilo que está dentro. E nós procuramos dar aquela paz, aquela liberdade que vem do fato de nos doarmos nas maneiras mais simples e concretas, no trabalho, na escola, na família”. Uma psiquiatra judia comentava: “Nessa espiritualidade se deseja que cada um de nós permaneça o que é, que não mude, que não se converta, mas que dialogue”. Na conclusão de um encontro entre judeus e focolarinos na Argentina, no ano passado, um judeu confessou: “Esperamos sempre a vinda do Messias, mas hoje me pergunto se Ele já não está aqui, entre nós, e não o reconhecemos. Talvez tenha um nome que todos pronunciamos: Paz... o que a humanidade inteira espera!”. Os muçulmanos Os contatos do Movimento dos Focolares com os muçulmanos começaram em 1964, em Roma. Pouco tempo depois, alguns focolarinos se transferiram para a Argélia, a fim de dar continuidade àquele primeiro contato. Atualmente, há muçulmanos amigos do movimento em cerca de vinte países da África, do Oriente Médio, da Ásia, da Europa e das Américas. Um dos relacionamentos mais interessantes abriu-se recentemente com os muçulmanos afro-americanos dos Estados Unidos.
Em maio de 1997, Chiara Lubich foi a Nova York para encontrar-se, no Harlem, com W.D. Mohammed, fundador do American Muslim Mission (um dos dois troncos dos Black Muslims) e, na mesquita Malcom Shabazz, diante de três mil muçulmanos, ressaltou os pontos em comum entre o islamismo e o cristianismo. Foi um momento forte de encontro entre cristãos e muçulmanos, entre brancos e negros. Com W.D. Mohammed, Chiara estabeleceu um pacto: “Trabalhar sem tréguas pela paz e pela reconciliação”.
A convivência do dia-a-dia e os encontros periódicos aprofundam a unidade entre muçulmanos e membros do movimento. W.D. Mohammed declarou numa dessas ocasiões: “Confirmo tudo aquilo que Chiara disse. Eu a vejo como uma líder para todos nós. Estou falando sério. Li na Bíblia que Jesus Cristo convidou todos os seus discípulos a lavar os pés uns dos outros. É o que estamos fazendo hoje”. E os muçulmanos presentes num encontro internacional em Roma, comentavam na conclusão: “Todos nos sentimos envolvidos pela presença de Deus. O ideal da unidade, este dom especial e miraculoso, realizou, nesses dias, a unidade, não só entre cristãos e muçulmanos, mas também entre muçulmanos e muçulmanos”. Os hindus Depois de contatos entre membros da Obra de Maria e hindus na Índia, Chiara foi convidada, em 2001 e 2003, a ir a esse país por organizações, movimentos, universidades, comunidades daquela religião. De associações de inspiração gandhiana recebeu o importante Prêmio “Defensor da Paz”; foi acolhida no Shanti Ashram, uma cidadezinha fundada por um senador, seguidor de Gandhi; enviou uma mensagem a um congresso de 50 mil jovens de um movimento hindu com 8 milhões de adeptos; encontrou docentes e estudantes da Escola de Sânscrito, um instituto de cultura inter-religiosa na universidade de Mumbai. Estabeleceram-se laços profundos de espiritualidade,
de diálogo teológico-espiritual e de atividades comuns.
Relatamos duas ressonâncias, que podem dar uma idéia da profundidade
desse diálogo com os hindus. “Nós falamos de reencarnação,
mas, vivendo a espiritualidade de Chiara, aprendi que toda vez que eu
amo, morro e renasço” (Uma médica hindu). “Isto
está acontecendo porque a mulher é mãe, e sabe o
que é o amor, como Maria. Acho que é ela que está
trabalhando; assim como para fazer um colar de flores é necessário
um fio que une tudo, Maria está unindo todas estas flores”
(Kala Acharya, diretora da Escola de Sânscrito de Mumbai, referindo-se
a Chiara e a outras duas mulheres hindus, instrumentos desse diálogo). |
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