Revista "MUNDO e MISSÃO"
Mulher
Hoje, o Senhor nos convocou aqui na Guatemala, um país pobre e pequeno como a Galiléia nos tempos de Jesus, entre um povo que não se configura entre os poderosos da Terra, que neste mundo globalizado condivide a mesma pobreza de muitos povos do Sul e não a riqueza dos povos do Norte. Deus, porém, não esquece o povo da Guatemala, nem sua terra, mas o guarda no seu coração como um tesouro. Por isso estamos aqui reunidos na alegria, para que o mundo possa ver e conhecer a fé no Deus da Vida deste povo e enviar, daqui, discípulos e discípulas para anunciar a Boa Nova da Vida que vence o mal que destrói e mata. Estamos diante de todos, homens e mulheres, povos e países que aguardam, com esperança, que a verdadeira vida se torne história...”. “Estamos conscientes de viver num período de rápidas e profundas transformações que se repercutem sobre a existência da humanidade, aumentando as incertezas e as angústias, sobretudo dos empobrecidos, hoje presentes em amplos setores e em cada canto do planeta”. A teóloga Adelaida enumera os muitos problemas que representam um enorme desafio à criatividade, à liberdade, em particular às pessoas sensíveis que sabem se comover diante da dor do irmão e se indignar diante da injustiça que a provoca. Ficam indignadas, perguntando a si mesmas onde se manifesta “a força do Espírito”. Ela se manifesta lá onde se luta contra a pobreza injusta e desumana, para dar novamente dignidade, onde se afirma o valor da vida, se reconstrói a unidade da família humana, na riqueza da diversidade, percorrendo o caminho do diálogo intercultural, na busca da verdade, da justiça e da reconciliação. Esse foi o caminho indicado no Conferência latino-americana em Medelin para fazer emergir o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal. Eis por que, na evangelização, não se podem utilizar “os elementos hegemônicos de uma cultura que reforça as relações de subordinação entre povos e pessoas”. É necessário, pelo contrário, redescobrir “o poder da vida e da libertação da Palavra de Deus que opera em cada ser humano e que cada povo guarda nas tradições religiosas e na sua sabedoria. Somente assim, nessa redescoberta das culturas dos povos considerados pequenos e insignificantes, abre-se espaço de resistência para alimentar a luta contra a opressão, a marginalização, a pobreza e faz-se crescer a esperança num mundo justo e fraterno em que as diferentes culturas e tradições tenham os mesmos direitos”. Desafio para os cristãos Entre os desafios que interpelam, hoje, os cristãos, a teóloga lembra o diálogo, o encontro respeitoso, a escuta: “O diálogo inter-religioso nos permite ir ao encontro dos crentes de outras religiões e caminhar na busca de Deus e do homem, para construir um mundo de vida, de justiça e de paz”. Mas o problema mais grave do mundo atual é, sem dúvida, a pobreza “desumana e antievangélica”, o crescente abismo que separa os ricos dos pobres: “com preocupação, e até com angústia, assistimos à mudança epocal e à adoção de medidas neoliberais que se demonstram falidas, porque deixam os pobres, que já sofrem a fome, a falta de trabalho, de moradia, de assistência sanitária, de instrução devido ao desprezo do qual são objetos, cada vez mais expostos a todas as intempéries sociais...
À luz do Evangelho se compreende que a pobreza é o produto da sociedade intrinsecamente injusta, com suas estruturas de pecado”. Em conseqüência, a “opção preferencial pelos pobres é mais que necessária e urgente num mundo em que aumentam os excluídos da economia, da sociedade e da cultura e aumenta o contraste entre países ricos e pobres. Uma opção fundamentalmente evangélica que se baseia no amor fundamental de Deus e na predileção pelos fracos, perseguidos, pelos que não contam”. A situação da América latina Após o recente passado de guerras fratricidas, violências e violações dos direitos humanos, de indiferenças e vergonha, em muitos países da América Latina, foram constituídas comissões para a verdade e a reconciliação. A teóloga refere-se, em particular, à sua terra, o Peru, onde aconteceram graves violações, como torturas e o desaparecimento de pessoas, entre as quais índios e camponeses, em contraste com muita apatia e indiferença em denunciá-las essas violações. Houve também gestos de coragem por parte de homens e mulheres que, até com perigo de vida, construíram caminhos de paz, como os bispos Angelelli, Romero e Geraldi. Continua Adelaida: “Não podemos ficar indiferentes diante dos rostos marcados com feridas profundas que esperam ser curadas com o ungüento da ternura. Mas chegou o momento de refletir sobre a responsabilidade de cada um, para se comprometer com a defesa do valor absoluto da vida”. “Conhecer a verdade, será o ponto de partida na longa história dos nossos povos, uma oportunidade que não se pode perder”. Adelaida destaca “as muitas mulheres que na fé, fonte de água viva, encontraram e encontram a força de se comprometer com a vida, lutando para derrotar a pobreza; as muitas mulheres que nunca desistiram de procurar os desaparecidos ou assassinados pelo regime militar, para dar-lhes uma digna sepultura. As tantas mulheres, que desde sempre, presentes ‘em modo anônimo e silencioso’ na Igreja, hoje, assumem responsabilidades eclesiais”, abrindo novas formas de trabalho pastoral e de missão evangelizadora. Agem ativamente na catequese da família, nas pastorais da saúde, nos comitês de defesa dos direitos humanos. Mulheres pobres e marginalizadas, como nos tempos de Cristo, mas capazes de inúmeras boas obras como aquela que, conforme o evangelho de São Marcos, ungiu o Mestre que veio anunciar a libertação da pobreza, da prisão, da cegueira e opressão, sinais de escravidão e de morte. Diante de tudo isso, aparece a necessidade de uma profunda espiritualidade pascal, fundada na certeza de que a última palavra não é mais a da morte; de uma espiritualidade missionária, que comporta ir sempre além, evitando o risco de se fechar; de uma espiritualidade compromissada com os pobres, que promove a reconciliação como caminho e sinal de fraternidade universal que, na ressurreição de Cristo, celebra a vida. |
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