Revista "MUNDO e MISSÃO"

Mulher

Rever a Índia com um olhar feminino

Patrizia Bergamaschi

A sociedade brasileira, talvez pela onda de misticismo deste fim de século, talvez pela redescoberta do Oriente, infelizmente numa visão ainda muito superficial, tem procurado informar-se mais sobre a cultura indiana. Alguns conceitos permanecem inalterados aos nossos olhos, negando a evolução do processo histórico que acontece em diferentes ritmos entre os povos.

Shobba Dixit é uma mulher que, imediatamente, impressiona e cativa pela simpatia, beleza e inteligência. Nascida em Mumbai, no estado de Maharastra, na Índia, está no Brasil, desde 1974, quando veio com seu noivo que decidira acompanhar o pai, pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais -INPE.
Da infância, ela guarda lembranças de uma vida normal numa cidade em desenvolvimento. No bairro em que moravam, levando uma vida simples, três classes sociais conviviam sem problemas. O pai era técnico de máquinas industriais, ganhava razoavelmente bem e, se não havia luxo, dava para comer e viver bem, mas todo o dinheiro era empregado no sustento da família. Em sua casa, eram cinco filhas: todas ajudavam em casa, mas também deviam estudar, apesar das restrições quanto às saídas, passeios e roupas modernas.
Quando mencionei a questão da discriminação das famílias em relação ao nascimento de meninas, acenando para as notícias sobre o assassinato de bebês do sexo feminino, Shobba frisou que, apenas em algumas lugares, o nascimento de um menino é recebido com maior satisfação, visto que, dependendo do número de filhas, a quantia a ser desembolsada para os dotes seria grande. Além disso, para quem mora no campo, um menino é um braço a mais na agricultura. Todavia, há alguns anos as coisas começam a mudar: o sistema do dote, que só existe em algumas regiões, principalmente no sul, está em decadência porque as próprias mulheres estão tomando a iniciativa de acabar com esse sistema ultrapassado. No seu caso, o pai deu apenas jóias e as roupas que uma noiva deveria levar. A passagem de avião para o Brasil, na época por volta de 2 mil dólares, quantia que serviria para o "dote" das outras irmãs, ficou por conta do noivo.
De qualquer forma, há uma diferença entre as mulheres que vivem nas grandes cidades e as que moram no interior: enquanto as primeiras participam da vida moderna, têm acesso à escola, sabem do que acontece através da televisão e outros meios, as segundas estão limitadas à vida doméstica, privadas de educação e informação.

O papel social da religião

É com muita naturalidade e respeito que Shobba fala de religião, um dos elementos mais importantes da cultura indiana e fonte de tantos atrativos para o mundo ocidental, estressado com os rumos mercantilistas que deu a sua civilização, onde produzir e competir são as palavras mais significativas. Documentários, filmes, livros e toda uma gama de produtos indianos vêm fascinando aqueles que, mais do que uma fé, buscam caminhos espirituais que garantam a elevação do espírito, a paz interior, uma nova forma de encarar a existência, muitas vezes, destituída de grandes motivações.
Todavia, há de se considerar que, separado de um contexto cultural muito específico e tradicional, o hinduísmo corre o risco de ser entendido, pelos ocidentais, apenas como um receituário de práticas de auto-ajuda e rituais exóticos. Falsa idéia! Exemplo disso, é "aquele adesivinho" - como classifica Shobba - que as pessoas usam aqui, no meio da testa, como se fosse o terceiro olho. Constrangida com a divulgação errônea do significado do sinal, ela explica que se trata de uma reverência à mente, considerada a parte principal, mais importante e frágil da natureza humana. O desconhecimento disso gerou uma banalização do referido sinal que pode ser adquirido em bancas de ambulantes, que o vendem como um enfeite qualquer.
Interessante é ver como Shobba, que é hindu, vê o cristianismo: "Na Índia, a mulher cristã é considerada mais moderna, visto que pode ter acesso a tudo, principalmente à educação. Além disso, o impacto com o Ocidente muda toda sua vida: ela não é vegetariana, pode vestir roupas modernas, seus valores são outros". E acrescenta: "A religião tem um papel importantíssimo: é ela que forma a sociedade".

Um feminismo indiano

É sempre o acesso à educação que permite à mulher uma nova postura diante da sociedade, ao assumir a condução de sua própria vida. Fala-se, por exemplo, de um feminismo indiano, sobretudo, nas classes sociais mais altas, visto que nas mais baixas é notória a submissão da mulher. Todavia, comenta Shobba, "ela luta pela sua liberdade e não para ultrapassar os direitos dos homens. Toda nossa vida está voltada para a tradição: o casamento, realizado de uma forma muito original, cercado de belos rituais, é considerado um complemento da vida e tem papel fundamental na vida de uma mulher. Uma moça que não se casa é vista pela sociedade como alguém com problemas...".
O que - aos olhos ocidentais - pode parecer submissão feminina, para a indiana é o significado de sua existência dentro de uma sociedade: "a mulher é a responsável pela harmonia da família, mesmo que isso signifique abrir mão de sua própria vontade. É ela que preserva a honra familiar, guardando o silêncio sobre eventuais erros do marido que, se tornados públicos, trariam o ridículo aos filhos". Shobba, hoje com 45 anos, só começou a trabalhar depois dos 40 anos, não porque não tivesse qualificações, mas porque o marido não queria, visto que, na cultura e tradição de seu país, o mais importante para a mulher é sua família e sua casa. Ainda que cansada após um dia de trabalho, Shobba, que é professora de inglês e também dá aulas de culinária indiana, ela deve preparar o jantar, servir todos, interessar-se pelas atividades e dificuldades dos filhos e do marido, o que ela faz com alegria e consciência, mesmo admitindo que a sociedade indiana seja machista.
Quando lhe perguntei como, com os olhos de sua cultura, ela vê a mulher brasileira, sua resposta veio com muita ponderação: "Às vezes, acho que a mulher se deixa influenciar muito pelos apelos da mídia e do comércio, que pedem um investimento cada vez maior na aparência, na sensualidade. O sexo é uma coisa importante na vida das pessoas. Na Índia, nas paredes externas dos templos, podemos ver representações do ato sexual, mas as pessoas não vêem aquilo com malícia. Todavia, fico preocupada ao ver meninas tão pequenas vestidas como artistas muito sensuais, brincando de gente grande. Essa superficialidade na educação não me parece adequada". Shobba, apesar de hindu, foi educada num colégio católico na Índia; estes são famosos pela qualidade e seriedade de ensino, e sua filha, para quem está passando a tradição de seu país, também freqüenta uma escola católica em São Paulo.

Transmitir a tradição e deixar livre

Na casa dos Dixit, há um santuário com os deuses que reverenciam, sobretudo Shiva que é, ao mesmo tempo, criador e destruidor. Diante deste altar, que muitas faxineiras tomaram por altar de macumba, Amaraja, a filha adolescente, acende incenso todas as tardes, segundo a tradição que veio de seus antepassados. Como qualquer jovem de sua geração, Amaraja também questiona valores, sobretudo os do comportamento de sua mãe. Shobba explica: "Eu tenho a obrigação de passar a tradição para minha filha e de dar-lhe exemplo. Acredito que, um dia, ela se casará com um brasileiro e que as coisas serão diferentes. Ela será livre de fazer como quiser.
Aliás, a tradição de seu povo e uma religiosidade bem integrada estão presentes até nos nomes dos membros de sua família: o nome de Shobba significa "beleza"; de seu marido Anil, "vento"; Amaraja lembra o nome do local em que três rios se encontram no estado em que Shobba nasceu e significa "imortal"; os nomes dos dois filhos evocam Shiva em diferentes ocasiões: Nandikesh, quando o deus se eleva em meditação em vista de um mundo melhor, e Rudia, quando afasta o mal.
Seus filhos nasceram aqui e, provavelmente, aqui construirão sua vida, distantes de sua cultura de origem. Tenho certeza, porém, de que no fundo deles mesmos, acariciam a imagem do sol a mirar-se nas águas sagradas dos rios da Índia.

Shobba é a primeira da esquerda para a direita. Na foto, as três mulheres estão trajando o tradicional sari que, normalmente tem 5 metros de comprimento por 1,20 de largura. Alguns chegam a medir até 9 metros. O sari é o elemento principal de um traje composto de uma blusa que vai até abaixo do busto e de uma anágua de mais 2 metros. No centro da testa, todas pintaram o tradicional sinal: para as mulheres casadas, ele é vermelho e não só indica seu estado civil, mas também deve ser usado para o bem do marido, pedindo para o casal prosperidade, filhos, etc. As moças solteiras podem usar de qualquer cor, inclusive combinando com o tom da roupa

Na casa da entrevistada, num dia em que preparou uma oração para pedir paz e prosperidade aos deuses. Vê-se sobre o altar doméstico, também a comida que ela preparou e que, depois, todos comerão juntos

Tradicional dançarina Bharatnatyam, com as jóias do templo. Até hoje, como na sociedade brasileira, é sonho de toda menina aprender a dançar

Bailarina do sul da Índia. As pontas dos dedos pintadas de vermelho realçam a expressividade e a importância dos delicados gestos na dança

Jaipur, no norte da Índia: as mulheres freqüentam mais os templos do que os homens

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