Revista "MUNDO e MISSÃO"
Mulher
|
Descobrindo os Patrizia Bergamaschi
O que leva uma professora Imagens do galpão construído por uma família à beira do Amazonas e cedido para o primeiro dia da Biblioteca itinerante num bairro de pescadores
Ao lado de Sílvia de Aranha Ribeiro, qualquer um fica animado. Para ela, radicada há 25 anos em Itacoatiara, no médio Amazonas, não há nada que possa abalar sua fé nem diminuir seu amor pelo povo. Sua experiência é grande e já lhe permite contar a história da prelazia, recordando seus primeiros passos e a evolução de toda uma caminhada de crescimento, conscientização e participação. O município de Itacoatiara fica à margem esquerda do Amazonas e sua po-pulação, segundo o censo de 2000, chegava a 72 mil habitantes. Mesmo sendo o segundo município do Estado do Amazonas em arrecadação, enfrenta o problema do desemprego e da pobreza, além da ineficácia das políticas públicas. Diante disso e dentre as muitas ações que estão sendo realizadas, uma se destaca pelo es-pírito que a move, inspirado na coragem e doação de um bispo missionário, falecido em 1998 e tão amado de seu povo. Dom Jorge Marskell era da Sociedade Missionária de Scárboro e chegou a Itacoatiara em 1962. Em 1978, tornou-se seu bispo. Uma escolha mais do que certa, pois ninguém mais do que ele amava e conhecia aquele povo, que respondia com o mesmo afeto. Seu trabalho episcopal foi grande: incentivou a formação e o fortalecimento das Comunidades de Base e preparou suas lideranças. Deu todo o apoio às diversas pastorais: da família, da juventude, sobretudo às sociais, como as da terra, da saúde, da mulher, da criança, indigenista e carcerária. Seu compromisso maior foi, até o fim, com os mais pobres. Sílvia lembra do bispo com admiração e daquilo que ele dizia: O Senhor nos pede que saibamos descobrir seu próprio rosto nos rostos sofridos dos irmãos. A Associação Um testemunho tão coerente e sincero levou alguns amigos do falecido bispo a fundarem uma associação que leva seu nome, mas também que quer manter vivos os ideais de solidariedade com os mais pobres que tanto marcou a vida do missionário. O objetivo maior da Associação D. José Marskell, que se caracteriza como entidade civil sem fins lucrativos, é continuar fazendo um trabalho de cidadania junto aos pobres e para isso já está atuando em três frentes de ação. Como ainda não tem uma sede, a Associação vai aonde for preciso. Assim, é em espaços cedidos por outras entidades que funcionam duas classes de alfabetização para adultos; a Biblioteca infanto-juvenil é itinerante e a assistência jurídica aos mais pobres é ativada, quando se faz necessária. E como não há defensor público na cidade, essa frente de atuação é muito requisitada. É da Biblioteca que Sílvia fala com muito entusiasmo, pensando nas muitas crianças que se encantam com os livros em mãos: O pessoal leva os livros em caixas de papelão, transportadas em bicicletas e no dia em que a Biblioteca chega (geralmente a um espaço cedido por uma associação de bairro ou algum particular), há sempre um momento de festa, com brincadeiras e merenda. As crianças levam os livros para casa e podem trocá-los no final da semana. Quando, depois de um mês, a Biblioteca deixa o local, fazemos outra vez um pouco de festa e já estamos com a idéia de fazer teatro e pedir mais participação ativa das crianças. Consultadas sobre um nome a ser dado para a Biblioteca, um grupo de crianças sugeriu: Biblioteca da Alegria e Somos amigos da leitura, o que já revela que o projeto está dando certo, mesmo se houve quem jogasse os livros fora... A participação feminina Sílvia vive ao lado das mulheres de Itacoatiara, partilhando seus caminhos e suas lutas e testemunha que elas assumem as famílias com garra e coragem: Há muitas mães solteiras, inclusive muito jovens. Muitos homens não assumem a paternidade nem a casa, e muitas vezes nem teriam como fazê-lo, porque a oferta de empregos é pequena e Manaus acaba sendo o único recurso. Mas nas comunidades, atualmente, há mais mulheres do que homens atuando na catequese e nos cargos de coordenação. Algumas líderes já participaram de reuniões estaduais e nacionais de diversos movimentos da Igreja, inclusive da Pastoral da Terra, mostrando que as mulheres têm aproveitado bastante os cursos oferecidos pela Igreja e que, mesmo sem terem grandes estudos, estão sempre abertas e preocupadas. Na própria Associação, a participação feminina é decisiva. A tesoureira é uma gaúcha que foi para Itacoatiara para trabalhar como enfermeira e que se apaixonou pelo povo. Vendo as necessidades locais, ela voltou para o Rio Grande do Sul, formou-se em Medicina e retornou à cidade. Quem cuida do setor de relações públicas é outra gaúcha radicada há dez anos no Amazonas; Sílvia é a di-retora, a secretaria está confiada a um professor amazonense. Mas há muitas colaboradoras que não medem esforços para ajudar os projetos da Associação.
Sílvia de Aranha Ribeiro A mulher no Amazonas sempre foi ainda mais oprimida do que o homem. Há frases repetidas pelo povo, que caracterizam bem essa situação:
A mulher tem que ser subjugada pelo marido; Ela fez isso porque o marido não a domou... Quando, no fim da década de 60, começaram a se formar as
primeiras comunidades na Prelazia, a equipe volante se preocupou com a
situação da mulher e fundou clubes de mães. Nesses
casos, as mulheres se reuniam, rezavam e trocavam conhecimentos de habilidades
como crochê, costura, receitas culinárias. Com tudo isso,
iam aprendendo a organizar-se e a fazer com mais eficiência as tarefas
caseiras. Logo, os agentes de pastoral que visitavam as comunidades perceberam a necessidade de promover encontros ou estudo para as mulheres, numa tentativa de elas reconhecerem seu valor e seu papel na luta pela transformação da sociedade. Esses encontros não seriam para aprendizagem de trabalhos manuais, mas principalmente para ampliar sua visão sobre os acontecimentos sociopolíticos e econômicos e sua tarefa frente aos mesmos. Até então, a grande maioria dos cursistas era de homens. Nos cursos que passaram a ser organizados para mulheres, além de conhecimentos sobre a Bíblia e doutrina, eram ensinadas noções a respeito de saúde, educação dos filhos, plantio de hortas caseiras, etc. Os Clubes de Mães, pelo menos os da cidade, recebiam verba da Legião Brasileira de Assistência, o que permitia comprar material para as várias atividades desenvolvidas, devendo os clubes prestar contas do dinheiro gasto. Os Clubes de Mães podem ser considerados precursores da Pastoral da mulher. Precursora também foi a assistência prestada por várias senhoras às mulheres prostituídas, muitas delas jovens mães solteiras que habitavam a zona do Jauary, próxima ao rio Amazonas, em Itacoatiara na década de 60. Em 1987 foi fundada oficialmente, porque já funcionava, uma entidade importante para o trabalho realizado por mulheres, para mulheres: o Centro Comunitário da Mulher (CCM). O Centro nasceu da iniciativa de senhoras que participavam de grupos de base, algumas delas engajadas na Pastoral indigenista. Tinha por objetivo a valorização da mulher, principalmente da mulher marginalizada, prostituída, mães abandonadas pelo marido e com filhos para criar. Para isso promovia cursos de educação de base, arte culinária, costura, etc. Foi em novembro de 1989, por ocasião de um encontro de mulheres de toda a Prelazia de Itacoatiara, que foi discutida a discriminação sofrida pela mulher e que surgiu a proposta de implantação da Pastoral da mulher em todas as áreas. No final do encontro cada participante recebeu uma muda de limoeiro, como símbolo do nascimento de algo novo. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]