Revista "MUNDO e MISSÃO"
Papa
Mais uma vez, o papa pediu perdão a um povo distante e numa situação diferente de todos os outros países. Se nestes houve guerras, perseguições religiosas ou inquisição, na China, não houve nada disso: pelo contrário, perseguições religiosas, que ainda perduram, partem das autoridades chinesas. O ato do papa deixou perplexos analistas e vatica-nistas, pois o fato era insólito, imprevisto e todos se perguntavam o que estaria por trás do pedido. Na mensagem enviada a Pequim, de maneira informal, sendo que não existem relações diplomáticas entre os dois Estados, o apelo do papa era para que se superassem as incompreensões, os erros do passado e alguns inevitáveis deslizes de missionários. Esse pedido de perdão, diferente dos outros, é um velado convite para que entre China e Vaticano se estabeleça um diálogo que traga benefício a toda a humanidade. João Paulo II toma a iniciativa, estendeu mais uma vez a mão, para forçar uma situação de diálogo, sabendo que, outras vezes, Pequim já recusou ou ignorou esses pedidos. Com essa sua mensagem, o pontífice gostaria, certamente, de concluir sua peregrinação pelo mundo inteiro e o último baluarte é exatamente a China que agora está se distanciando do marxismo, mas não parece voltar atrás em sua política materialista ou de domínio sobre qualquer religião existente no país. O papa passou por cima também das polêmicas, quando, no ano passado, por ocasião do Jubileu do 2000, declarou santos os missionários e católicos leigos, mortos pelo boxers no começo de século 20, na China, considerados mártires pela Igreja. Numa publicação do partido comunista chinês, os mesmos foram taxados como bandidos e violentadores de crianças e mulheres. Na carta, o papa não fala da Igreja Católica Patriótica, criada pelo governo de Pequim, que não aceita a autoridade do papal. Matteo Ricci O pedido de desculpa está contido numa mensagem divulgada por ocasião de um congresso em Roma e, que uma semana antes, realizou-se também em Pequim, sobre a figura quase lendária de Matteo Ricci, o primeiro jesuíta ocidental que conseguiu, pelos seus conhecimentos científicos e astronômicos, entrar no palácio imperial. Matteo Ricci, que, em 1601, se fez chinês entre os chineses e ainda hoje é uma figura lembrada e respeitada pelo povo, iniciou o anúncio do cristianismo na China. O papa aproveita desta figura para reafirmar que a Santa Sé olha para o povo chinês com profunda simpatia e com participante atenção. São conhecidos, até no tempo presente, os passos relevantes que a China conseguiu, recentemente, no campo social, econômico, educativo, apesar de perdurarem não poucas dificuldades. O Vaticano aqui se refere aos progressos da China em matéria de escolarização e na luta contra a fome dos últimos anos. João Paulo II oferece-se com um humilde e desinteressado serviço para o bem dos católicos e para todos os chineses da China. Por isso, ele lembra a história, às vezes difícil, entre a Igreja católica e a nação chinesa, o trabalho que tantos missionários desenvolveram na obra humanitária com total desinteresse, porém reconhece que a história nos lembra que nem sempre a ação dos membros da Igreja na China foi isenta de erros e que, às vezes, foi condicionada por situações difíceis, ligadas a acontecimentos históricos complexos e interesses políticos contrastantes. Os erros que o papa reconhece são que, em certos período da história moderna, no fim do século 19 e no começo do 20, os missionários pediram proteção por parte das potências políticas européias, dando a impressão de que a religião cristã era a religião dos diabos ocidentais que a impunham, através dos exércitos europeus. O papa não esquece também de citar as questões teológicas que perduraram, por séculos, como a questão dos ritos chineses em que havia missionários que queriam uma maior inculturação da cristianismo na China, mas nem sempre foram bem entendidos pelo Vaticano. O papa formula assim o mea culpa: Sinto profunda dor por estes erros e limites do passado e sinto que tenham engendrado, em não poucas pessoas, a impressão de falta de respeito e de estima da Igreja católica pelo povo chinês, induzindo-o a pensar que isso fosse movido por sentimentos de hostilidade contra a China. Por tudo isso, peço perdão e compreensão aos que se sentiram, de alguma maneira, feridos por estas ações dos cristãos. Com esta linguagem humilde, o papa tenta fazer-se ouvir por um interlocutor difícil, que sempre se recusou a aceitar qualquer contato para um possível encontro.
Por isso, a mensagem aponta quais seriam as vantagens recíprocas do diálogo: A China e a Igreja católica têm aspectos diferentes, mas, em nenhuma maneira, estão em contraposição; são, historicamente, duas entre as mais antigas instituições vivas e operantes no mundo. As duas, embora em âmbitos diferentes uma no político e social, outra no espiritual e religioso contam com mais de um bilhão de filhos e filhas. No final, o pedido de reatamento das relações diplomáticas: a Santa Sé, em nome da inteira Igreja católica e pensando em toda a humanidade, deseja a abertura de um espaço de diálogo com as autoridades populares chinesas, com as quais, superadas as incompreensões do passado, se possa trabalhar juntos para o bem do povo chinês e para a paz do mundo. Conseguirá o papa romper o muro da recusa? É muito difícil que esta carta consiga mudar os ânimos dos chefes da China, apesar de o papa apresentar-se despido de qualquer pretensão ou de pedidos, como geralmente ocorre nos tratados internacionais. Ele recorre a sua arma preferida: pedir o perdão de eventuais pecados e ofensas para aplainar o caminho e evitar desentendimentos. Já tentou outra vezes o meio diplomático, como quando, em 1982, declarou que o Vaticano reconhecia a China como uma grande realidade unitária, dando a entender que Taiwan era parte da China continental e que a Santa Sé estava disposta a mudar a nunciatura apostólica de Taiwan para Pequim, mas o governo continental nem tomou conhecimento do assunto. Em 1965, o Vaticano patrocinava a entrada da China na Onu, mas quando esta conseguiu entrar no Palácio de vidro, não fez nenhuma referência ao apoio recebido do Vaticano. |
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