Revista "MUNDO e MISSÃO"

Pobres

Enquanto a mídia tenta conscientizar as autoridades e a população sobre o gravíssimo problema do aliciamento de menores para o tráfico de drogas, inúmeras iniciativas particulares buscam oferecer-lhes um outro caminho. Eis um exemplo!

Franco Cagnasso
PIME - Bangladesh

ondoso e muito estimado, aquele missionário tinha dedicado tudo à missão, aprendendo bem a língua local, viajando incansavelmente de bicicleta ou a pé, enriquecendo cada passo com oração.

Único defeito:

- famintos e desocupados, pobres e aproveitadores, qualquer um que pedisse, conseguia.

Quando se afastou, incapacitado, o superior proibiu-o de usar o dinheiro que recebia, para protegê-lo das intermináveis filas de pedintes, muitos prepotentes. Depois da sua morte, encontramos seu diário. Abrange o período de poucos meses, mas um fragmento sobre o sofrimento de toda a vida, uma luta angustiante com os pobres.

Padecia pela tristeza e humilhação daquela gente; percebia que a sua ajuda, mesmo quando bem focalizada, era, entretanto, insuficiente para resolver os problemas, nutrindo, às vezes, a preguiça, a passividade, o alcoolismo... Como um animal perseguido, encontrava, por vezes, um alívio em um retiro espiritual, em uma assembléia com seus coirmãos, mas seu pensamento permanecia ligado à interminável ladainha de misérias, à sua incapacidade de discernir, de ajudar com critérios racionais, de libertar-se da compaixão pelos sofrimentos que o assediavam.

Escreveu: - “Amanhã retorno à missão, mas mesmo antes que eu consiga chegar, alguém já estará me esperando pelo caminho, e recomeçará o meu tormento...”.

A sua angústia não é única. Ela manifestava um incômodo do qual muitos missionários jamais falam, nem mesmo entre si, porque sabem que não encontrarão respostas. Dizem os geólogos que, nas profundezas da terra, existem falhas, linhas de fratura das plataformas continentais que se chocam, gerando atritos fortíssimos, provocando terremotos e tsunami.

Os missionários originários dos países ricos, ao trabalharem nos países mais pobres, encontram-se nestas zonas de falhas, rachados e esmagados entre mundos cultural, social e economicamente em atrito. Nascidos e crescidos na abundância, em ambientes protegidos, com assistência médica, boa alimentação, moradias sólidas... imaginaram a missão como uma vida com e para os mais pobres; quando inseridos nela, encontram-se não só penosamente impotentes, mas dilacerados.

Falta tudo a que estão habituados: - comida, remédios, segurança, casa, esperança de mudança.

Sobretudo falta, no mínimo, uma aparência de justiça, que reconheça a dignidade aos pobres. Enquanto isso, a exploração se difunde nas pregas mórbidas do capitalismo e nas altas esferas financeiras, emergindo nas máfias brutais, no desprezo dos ricos que, protegidos pelo poder, roubam, matam, levam à condenação inocentes para expropriá-los, impunemente. O missionário grita contra a injustiça, mas o grito não ameniza, num sopro, o sofrimento do doente que está à sua frente, sem meios para ir ao hospital.

Deixou tudo para estar com os pobres, mas é rico, poderoso e não consegue sequer entender como eles o vêem:

- um misterioso estrangeiro que, se quiser, pode; “dele, dos seus humores depende a possibilidade do meu filho estudar, da minha esposa se tratar, de consertar o teto da minha casa...”.

Se disser “não!”, porque não pode fazer tudo, porque sempre dar é ineficaz, porque não tem mais recursos, eles pensarão simplesmente que o estrangeiro não quis colaborar. Você, missionário, com tristeza se pergunta, se tudo o que você faz manifesta seu amor a Cristo, ou pelo contrário, o encobre. No Evangelho de João, Jesus dá o pão e escapa; e quando a multidão O alcança, pedindo mais pão, Ele afirma que deveriam desejar outra coisa. Quando chega para nós, missionários, o momento de escapar? Como dizer às pessoas que estamos na missão por outra causa?

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