
Assistência aos pobres e subnutridos em Chandpukur,
Bangladesh |
POBREZA
não é somente
falta de dinheiro
por Rodolfo Casadei
"Para entender o que é mesmo a pobreza
não bastam as avaliações econômicas".
É o que diz o professor José Scidá, comentando o
relatório Social Watch, compilado por uma rede internacional de
Ongs
No fim do ano passado, a Editora Missionária Italiana, em colaboração
com várias entidades governamentais e Ongs, publicou um relatório
que apresentava um olhar global, intitulado "A qualidade da vida
no mundo". Trata-se de um relatório anual sobre os indicadores
da pobreza no mundo dos últimos anos, com dados recolhidos por
mais de 200 Ongs presentes em 60 países. Para entendermos o que
é mesmo a pobreza, entrevistamos José Scidá, professor
de sociologia e autor de vários estudos e publicações
sobre o assunto.
Prof. Scidá, o relatório Social Watch procura documentar
os progressos e os retrocessos na luta contra a pobreza no mundo. Mas
é realmente possível medir e quantificar a pobreza?
Academicamente, sim, desde que se considerem duas condições
que não são, porém, fáceis de juntar: que
haja o consentimento sobre a definição da pobreza e que
os instrumentos de pesquisas sejam confiáveis.
Existe consenso sobre a definição da pobreza?
Não existe nem existiu no passado. O homem sempre se interessou
pela pobreza porque ela sempre existiu, mas, até tempos recentes,
era uma descrição literária e moralizadora do fenômeno.
Foi somente no fim do século 19, na Inglaterra, que apareceu uma
pesquisa científica sobre a pobreza. Naquela época, Charles
Booth, recolheu em 17 volumes o seu estudo sobre a pobreza em Londres,
que é considerada uma das primeiras pesquisas sociais da história.
Ele define, pela primeira vez, uma "linha de pobreza" fixada
em 21 xelins por semana (3,8 reais no dinheiro de hoje). Quem ganhava
menos que isso, era considerado pobre, porque não tinha condições
de sobreviver com seus recursos. Este método, porém, não
explica o procedimento usado para chegar a quantificar essa linha divisória.
Outro inglês, Benjamim Seeebohm Rowntree, anos depois, calculava
a sua "linha da pobreza", através do custo da alimentação
indispensável, do vestuário às despesas para a casa
e as pessoais. Como bom inglês, incluía também o consumo
de bebidas alcoólicas, porque dizia que o "homem é
um ser social e precisa pelo menos de uma cerveja por semana no pub com
os amigos". Os critérios escolhidos já diferiam entre
os dois autores e isso será uma constante em todas as definições
sucessivas da pobreza até os nossos dias: a pobreza que coincide
com a dificuldade de sobreviver, que Marx define como "reprodução
da força trabalho", e a pobreza como impossibilidade de satisfazer
outras exigências humanas que vão além da pura sobrevivência.
Isto se refere também à distinção entre
a pobreza absoluta e pobreza relativa que encontramos quando se fala da
pobreza no mundo?
Em parte. A pobreza absoluta se refere às condições
mínimas de sobrevivência; a pobreza relativa se baseia na
confrontação com a realidade da sociedade em que o homem
vive. A pobreza absoluta é definível em termos quase idênticos
em qualquer lugar do mundo; a pobreza relativa é diferente de lugar
para lugar, devido à maneira de viver num determinado lugar. Por
exemplo, na Itália, é pobre quem dispõe de uma renda
inferior à metade da renda nacional (quantia que em países
do Terceiro Mundo pode ser até um sinal de riqueza).
Onde estaria então o erro metodológico que os pesquisadores
da pobreza deveriam evitar?
O erro mais freqüente entre os pesquisadores é aquele de querer
criar indicadores perfeitos, mas que não são aplicáveis
porque é impossível recolher tudo o que os indicadores apontam
para definir a pobreza. Por exemplo, na metade dos anos 70, obteve um
certo sucesso um indicador preparado pela Organização das
Nações Unidas para a Pesquisa do Desenvolvimento Social
(Unrisd). Todos reconheceram que, como método, estava perfeito,
mas, na prática, era inaplicável: ele requeria 22 indicadores
que, até para os países mais desenvolvidos, era difícil
recolher. Um desses era, por exemplo, o consumo diário de frutas
e verduras frescas. Certamente este é um indicador importante para
a saúde das populações, mas impossível de
pesquisar. Além do mais, os custos administrativos das pesquisas
se tornariam proibitivos para os países pobres.
Muitos observadores e até os autores do Social Watch criticam
a definição da pobreza na base da renda de um dólar
por dia. Eles têm razão em criticar?
Certamente é um critério simplista e pobre do ponto de vista
metodológico, mas compreensível do ponto de vista político.
Que ele seja um método discutível até o próprio
Banco Mundial reconhece, tanto que ele aplica este método somente
na África subsaariana e na Ásia. Para definir a pobreza
na América Latina, fixou a linha de dois dólares/dia; nas
economias em transição, 4 dólares, enquanto para
os EUA e Europa, estabeleceu 12 dólares/dia. Logicamente, deveríamos
introduzir um valor igual ao do poder aquisitivo, porque não há
como comparar países onde o dólar tem um poder de compra
diferente. Então deveríamos falar de dólar "com
paridade de poder de compra", uma unidade de medida teórica,
porém, com base num certo valor monetário equivalente ao
"dólar que compraria a mesma cesta de bens de primeira necessidade"
em todos os países. Somente nessas condições a comparação
em dólar seria válida. Portanto, o verdadeiro problema está
na relativa confiabilidade dos dados sobre a pobreza que nos obriga a
usar critérios imperfeitos. Apesar de serem metodologicamente errados,
é melhor ter esses métodos imperfeitos que continuar discutindo
sobre critérios perfeitos e, no entanto, inaplicáveis.
Para o senhor, qual seria o indicador que mais revelaria a realidade
da pobreza e, por conseguinte, a realidade do desenvolvimento?
Eu acho que a definição da pobreza não pode ser
somente econômica porque o ser humano é definido por outras
necessidades além da sobrevivência. Não queremos desmerecer
as necessidades da simples reprodução humana, mas não
é somente esta necessidade que as ciências e as políticas
sociais devem considerar. Provavelmente, o melhor indicador atual é
aquele elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (ISU). Esse consiste na média ponderada de três
indicadores: a renda per capita na paridade de poder aquisitivo; a esperança
de vida desde o nascimento da pessoa e a taxa de alfabetização
dos adultos. É um indicador simples para ser relevado, mas considera
duas componentes importantes além da renda econômica.
É um pouco difícil encontrar esta dimensão no
Indicador do Desenvolvimento Humano...
De fato, no ISU, falta a dimensão da liberdade e dos direitos humanos
que está subentendida no ideal do desenvolvimento humano. Renda,
cultura e saúde poderiam, no limite, estar garantidas até
numa cadeia modelo, mas a vida dos encarcerados não pode ser considerada
plenamente humana se lhes falta a liberdade.
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