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OS POBRES PAGAM
Edison Barbieri
Os ricos consomem as energias e os pobres pagam a conta
Uma criança que nasce hoje em Nova York, Paris ou Londres vai consumir,
gastar e poluir, durante a sua vida, mais do que 50 crianças num
país em desenvolvimento. E os que consomem menos são os
que suportarão o grosso dos danos ambientais
A Onu denuncia
O Relatório do Desenvolvimento Humano da Onu de 1998 observa que
os países industrializados são os consumidores dominantes,
mas a população dos países pobres paga, proporcionalmente,
o preço mais elevado pela poluição e pela degradação
das terras, das florestas, dos rios e dos oceanos que constituem seu sustento.
"A esmagadora maioria dos que morrem por efeito da poluição
do ar e da água - registra o relatório - são habitantes
pobres de países em desenvolvimento. São também os
mais afetados pela desertificação e serão os mais
atingidos pelas inundações, as tempestades e as quebras
nas colheitas, devido ao aquecimento da atmosfera no nível mundial".
A queima de combustíveis fósseis, em todo o mundo, quase
quintuplicou desde 1950; o consumo de água doce quase dobrou, desde
1960; a captura de peixe quadruplicou; o consumo de madeira, na indústria
e como combustível, é agora 40% superior ao de há
25 anos.
Mas, apesar de o desmatamento se concentrar nos países em desenvolvimento,
mais da metade da madeira e quase três quartos do papel dela resultante
são utilizados nos países industrializados. Quase um bilhão
de habitantes de 40 países em desenvolvimento dependem da pesca
como principal fonte de proteínas, mas a captura marinha devastadora
e o tratamento de peixe para produção de óleo e de
rações para o gado fizeram aumentar os preços e reduziram
a disponibilidade de peixe para os pobres. Um quinto da população
mundial, que vive em países de renda mais elevada, contribui em
53% para as emissões de dióxido de carbono que conduzem
ao aumento do aquecimento da atmosfera no nível mundial. O quinto
da população mais pobre contribui só em 3%, mas vive
nas comunidades mais vulneráveis às inundações
costeiras. "O aumento de um metro do nível do mar, devido
ao aquecimento mundial da atmosfera, poderia causar a redução
de 17% da superfície terrestre de Bangladesh, ainda que este país
seja responsável por apenas 0,3% das emissões mundiais",
informa o Relatório.
Os pobres ficam menos capazes de se proteger contra a poluição
e o esgotamento dos recursos naturais. Milhões de pessoas que vivem
sem eletricidade ou outros combustíveis usam a lenha e o esterco
animal para cozinhar e se aquecer. Dessas, cerca de 2,1 milhões
morrem anualmente pela poluição do ar provocada pela fumaça
no interior de seus lares. Estima-se que, na América Latina e no
Caribe, cerca de 15 milhões de crianças com menos de dois
anos corram um elevado riscos de lesões cerebrais por efeito das
emissões de gasolina com chumbo.
O papel social e econômico da mulher nos países em desenvolvimento
expõe-na aos mais diversos riscos ambientais, desde as cozinhas
cheias de fumaça até os campos, onde entram em contato com
fertilizantes e pesticidas tóxicos, passando pelas pequenas indústrias,
que usam componentes perigosos e materiais inflamáveis sem as devidas
proteções.
Alternativas
"Os pobres e os países pobres necessitam acelerar o crescimento
do seu consumo", diz James Gustave Speth, administrador do Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento. "Mas não
precisam seguir o caminho percorrido pelas economias ricas e de elevado
crescimento. Podem fazer com que as técnicas de produção
sejam mais racionais ambientalmente, evitando assim os danos ambientais.
Não é de mais ou menos consumo que se trata, mas sim de
um modelo diferente de consumo: um consumo para o desenvolvimento humano".
O Relatório sustenta mudanças decisivas nas políticas
seguidas, nas instituições e nos valores. Os países
em desenvolvimento são capazes de "saltar" por cima das
armadilhas do crescimento de estilo ocidental, voltando-se para fontes
energéticas abundantes e não poluentes, para uma produção
de cereais com gastos de energia menos intensivos e para processos de
manufatura mais limpos, que evitem os altos custos de limpeza ambiental
atualmente praticada em muitos países. O Relatório se refere
a ações, já em curso em alguns países pobres,
tendentes à adoção de políticas de antipoluição
de baixo custo, eficazes e politicamente menos controversas. Essas iniciativas,
segundo os seus autores, têm dissipado o mito de que tais possibilidades
são limitadoras.
Um número significativo de países está se empenhando
no sentido de melhorar os modelos de consumo humano e de proteger o ambiente.
O Relatório cita os casos de Cingapura - que tem combinado impostos
de congestionamento com a melhoria dos transportes públicos -,
do Chile - que melhorou a qualidade do ar em Santiago, graças a
uma eficiente harmonização entre regularização,
gestão e policiamento do trânsito, e do Egito que reduziu
os riscos de resíduos sólidos de alto risco em fertilizantes
orgânicos.
O Relatório também dá conta do rápido crescimento
dos movimentos de consumidores nos países em desenvolvimento e
incita-os a estabelecer alianças mais fortes com outros movimentos
de apoio aos direitos da mulher e da criança e em favor da proteção
do ambiente.
O Relatório do Desenvolvimento Humano da Nações Unidas
é preparado todos os anos, desde 1990, por uma equipe independente
de especialistas. Ele não se restringe à análise
da renda per cápita para medir o progresso humano, mas avalia igualmente
indicadores como a esperança média de vida, a alfabetização
e o bem-estar geral. Sustenta que o desenvolvimento humano é, definitivamente,
"um processo de ampliação das opções
das pessoas".
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