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A RESSUREIÇÃO de um servo
sofredor
Arlindo Pereira Dias
No domingo, 13 de agosto, a paróquia São Geraldo, na diocese
de Santo André, esteve superlotada para o funeral do pe. Alfredo
Kunz, da Congregação dos Filhos da Caridade. Pe. Alfredinho,
como era conhecido, morreu durante um retiro da Ir-mandade do Servo Sofredor
(ISSO), que acontecia em São Paulo, com a presença de diversas
pessoas do Brasil e do mundo. O domingo seria reservado à consagração
de novos membros da Irmandade. Mais razão o grupo encontrou para
se consagrar na manhã daquele domingo.
Nara Rachild Silva, consagrada da Irmandade, que conviveu de perto com
o padre Alfredinho, nos últimos doze anos na favela e o acompanhou
nos seus últimos dias, comenta: "Foi muito forte, às
6h30 da manhã a gente poder celebrar essas consagrações
do ano 2000, com o milagre do corpo presente do Alfredinho. Um corpo consagrado,
doado, que chegou ao fim de sua função na terra: os órgãos
não funcionavam mais. A gente vê o que é a força
de uma con-sagração, de um espírito que carregou
e conduziu esse corpo durante a sua vida toda. É o que a gente
deseja para cada consagrado: que tenha essa força para além
da dor, para ir além da morte e nos apontar o caminho da ressurreição".
Nos últimos meses, Nara sentia que o padre Alfredinho já
se preparava para o momento da morte: "A gente louva a Deus por estar
celebrando hoje a ressurreição do Alfredinho. Alguém
lhe dizia - comenta ela - que ele não podia ser esquecido nesta
terra. Com aquele jeito bem humorado, ele respondia: 'Eu estou aqui na
terra esperando o Bem Amado dar uma piscadinha pra mim e dizer: vem Alfredinho.
Assim eu escuto e vou'. Na UTI eu tentei dizer para ele que o terreno
estava fértil. O Evangelho diz que se o grão de trigo não
morre não produz fruto, mas se morre, ele produz muito fruto".
Alfredinho nasceu na Suíça, mas, ainda criança, teve
que migrar com sua família para a França. Durante a guerra,
combateu contra os alemães. Preso, foi levado para um campo de
concentração na Áustria, onde passou quatro anos
como cozinheiro. Em meio a tanto sofrimento, sentiu o desejo de trabalhar
com os pobres e ser padre. Foi para o Canadá, onde fez seus estudos.
Depois de uma breve experiência no Chile, veio para o Brasil. Foi
a Crateús para aprender a língua, mas acabou ficando.
Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, conta:
"Quando pe. Alfredinho chegou, em 1968, praticamente como mendigo,
eu não estava. Ninguém o conhecia e ele ficou esperando
por mim. Quando nos encontramos, me disse: 'A casa do bispo recebe os
pobres, mas os pobres não estão em casa na casa do bispo.
Aqui não quero ficar. Foi morar num bairro com dois padres. Lá
os pobres vinham, mas os mais lascados, não. Ele disse: aqui também
não quero". É ele mesmo que conta: "Um dia, fui
chamado para assistir uma tuberculosa de 22 anos, em fase terminal, vítima
da prostituição. Jamais me esquecerei do seu sorriso depois
de ter se confessado, comungado e recebido a unção dos enfermos:
seu rosto refletia a profunda alegria pela presença de Cristo nela.
Quando morreu, 15 dias depois, tiveram que usar a porta do seu barraco
para transportá-la ao cemitério. Pouco depois, aluguei aquela
casa, em plena zona de prostituição".
Uma das iniciativas do padre Alfredinho no Ceará foi a Porta Aberta
ao Faminto (PAF). Comenta dom Fragoso: "Quando, numa seca violenta,
o povo vinha para a cidade sem nada, pedindo comida e trabalho, eram considerados
pelo exército, pelos comerciantes e pela polícia como invasores
e inimigos. Alfredinho disse: 'Invasores não, são irmãos
que precisam de nós'. Então sugeriu que se colocasse um
cartaz nas casas, com a sigla PAF, isto é, vocês não
são invasores. Mais de 2000 casas colocaram os cartazes e acolheram
os pobres". Devido à necessidade de tratamento de saúde,
em 1988, Alfredinho foi para São Paulo e passou a morar num barraco
na favela Lamartine, mas entre 95 e 97 desceu do morro e foi viver com
os moradores de rua.
A ISSO nasceu da meditação prolongada dos cantos do Servo
Sofredor (Is 42-53). Comentava Alfredinho: "Penso que o povo que
sofre, do jeito que ele é, sem pedir que seja convertido primeiro,
esse é o Servo Sofredor de Javé". A Irmandade está
espalhada por 10 estados do Brasil, Europa, Canadá, Suíça,
Equador e México e conta com uma coordenação nacional
que reside em Crateús. Na verdade, sua estrutura é bastante
simples, podendo acolher como consagrados e consagradas uma diversidade
enorme de pessoas.
Rosemaire, sofredora que vive em favela, assim define a ISSO: "Agora
nosso sofrimento tem nome: Irmandade do Servo Sofredor. O sofrimento que
a gente já tinha não era batizado".
Quando o servo sofredor começa a se unir, a fazer pequenas comunidades
de sete pessoas, a fazer um trabalho de artesanato, ele começa,
sem saber, a criar os alicerces da única civilização
que vai salvar o mundo amanhã: a civilização da austeridade.
O futuro do mundo está nas mãos dos pobres e não
dos técnicos, que só fazem projetos de bilhões e
não dão nenhum rendimento aos pobres. As bases de uma civilização
da austeridade são a única coisa capaz de saciar dignamente,
neste terceiro milênio, a fome de milhões de crianças,
mulheres e homens que estão gritando no planeta Terra.
Viver o Evangelho, o despo-jamento, deixar-se ensinar pelo povo, desfazer-se
dos privilégios para viver do jeito dos pobres, essa é a
grande revolução. É lá que se encontra a famosa
Igreja dos pobres. Entre os pobres, temos tanta coisa que aprender. É
uma universidade onde nunca vai haver uma formatura.
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