Revista "MUNDO e MISSÃO"

Política

por Edson Martins

arcos era desses que saia sempre correndo de casa. Dia desses ia ao trabalho e a correria da cidade o impediu de tomar um bom café em casa. Sua opção foi quebrar o jejum em um dos inúmeros bares que existem em São Paulo.

O bar poderia ser qualquer um, seu cenário era absolutamente comum: uma maioria de homens, poucas opções de comida, conversas fiadas, um café muito doce e pouco fresco.

O dia anterior havia sido muito cansativo. Estava exausto sem saber o motivo; estava acostumado com isso. Como raramente fazia, viu-se aproveitando o momento sem um motivo especial e passou a perceber melhor o ambiente: as mesas engorduradas, propagandas de cigarro, os homens que despiam as mulheres com seus olhares, os comentários sobre futebol.

Deu-se ao direito de ouvir as conversas dos outros, sem medo de sentir-se intrometido. Entre tantas conversas, uma chamou-lhe mais a atenção: dois homens falavam sobre as eleições que estavam próximas:

- Já tem candidato?
- Mais ou menos...eu não gosto de perder tempo assistindo ao horário eleitoral. Tanta produção, tanto dinheiro, eles só querem se dar bem...

Alguns segundos de silêncio. Em um canto, temos um bicheiro que, atentamente, organiza as apostas do dia e conta o dinheiro até então arrecadado. Ele está sempre por lá; faz seu ponto ali.

É neste momento que um dos dois decide se encaminhar ao bicheiro e fazer sua aposta.

- Sabe de uma coisa? É nesse que eu confio. Nunca me deu um cano.
- Verdade! Não conheço caso de alguém que ganhou e não recebeu do bicheiro.
- E o cara é louco? Se ele tentar enganar a freguesia, acabam com a vida dele.
- E, além do mais, que alternativa de trabalho um cidadão de uma certa idade tem, ganhando o que ele ganha?
- Nunca! Fora as caixinhas. Ô Zé? Você nem pensa em abandonar o jogo do bicho, não é?

Silencioso, o bicheiro acena cautelosamente com a cabeça, indicando concordância.

- Taí...o negócio é botar logo um bicheiro como presidente: não precisa roubar, é honesto e nem precisa de papelada para isso...só na palavra.
- Verdade...vê se sai candidato, Zé.

Chegara sua vez de votar.
Na fila, estudantes, donas
de casa, empresários,
comerciantes, profissionais
liberais, médicos, lixeiros, professores e bicheiros.
Mais uma vez, o mesário
o chamara e, mesmo antes
das pesquisas boca
de urna, já tinha a certeza
do resultado: deu
democracia na cabeça!

Sorriso no rosto dos três. Silêncio no bar. Cada qual acaba seu café. Cumprimentam-se e vão para lados opostos.Mais um café. A conversa deixou Marcos preocupado. Com todo o respeito que tinha aos bicheiros e aos que apreciam esse tipo de jogo, não considerava que tal profissão conferisse um atestado moral ou de idoneidade a alguém, a ponto de torná-lo indicado à presidência. Sabia que aquele bicheiro nunca ousaria ser presidente; sabia que aquela conversa não passava de uma especulação barata, de uma quase-brincadeira...mas a simples possibilidade o perturbava.

Já acreditou que talvez um médico, um lixeiro, um professor e outras especialidades conferissem ao seu executor uma determinada índole que o colocasse em condição moralmente favorável; mas bicheiro não.

Pagou a conta e esqueceu do dia de trabalho, embora tivesse ido ao escritório. Passou então a consultar outras pessoas, ligou para amigos, escreveu para parentes. Queria que dissessem a opinião a respeito da idoneidade dos bicheiros. Ficou realmente surpreso com o resultado: a grande maioria das pessoas demonstrou confiança nos bicheiros, mesmo aquelas que não costumam fazer apostas.

Pessimismo. Frustração. Ele que estava levando a eleição tão a sério, percebera que a referência moral de sua sociedade era um contraventor.

Uma conclusão dessas, a uma semana das eleições, deixou-o um pouco entristecido; Marcos realmente esperava que a sociedade brasileira estivesse um pouco mais amadurecida; que nossa democracia fosse um pouco mais estruturada; que os anos de resistência e a luta pelo fim da ditadura tivessem valido mais a pena.

Decidiu então se alienar do processo eleitoral. Só voltou a pensar em política no dia das eleições. Fora à escola em que estudara quando menino e adolescente e reencontrou um monte de gente amiga.

Nessas ocasiões as saudades são inevitáveis e boas. Lembrou das aulas de Educação Moral e Cívica e das sabatinas sobre o hino nacional e os símbolos pátrios. Lembrou dos uniformes em estilo militar e os cabelos cortados como os marines norte-americanos.

Lembrou dos conselhos do pai de não se envolver com política e da sensação gostosa, embora não muito compreendida, de participar do primeiro grêmio estudantil, quando tinha uns dezesseis anos.

Lembrou do movimento pelas diretas e da mãe com aquela cara que via o filho ir sem saber como e se voltaria; lembrou da volta sempre temerosa quando se via no ponto de ônibus sozinho.

Lembrou das lágrimas pela derrota nas Diretas-já e na morte de Tancredo Neves.

Lembrou também das campanhas de 85, 88, 89. Seu velho carro vermelho fora riscado em 88 por conta do adesivo de um partido de esquerda e em 89, fora sujo com excrementos de animais.

Lembrou do sentimento de ódio que sentira a cada debate, das acusações pessoais que definiram os resultados das eleições de 89 e fizeram de Collor presidente do Brasil.

Como a fila para votar estava muito extensa, teve tempo de retomar outras lembranças.

Retomou nomes e escândalos tais como os "Anões do Orçamento"; de Naji Nahas, a famosa "Operação Uruguai", a "Casa da Dinda".

Lembrou do absurdo preconceito contra negros, mulheres e nordestinos, utilizado amplamente, impunemente, chegando até a render votos no passado. Lembrou que defender a pena de morte e o massacre do Carandiru já foi motivo de orgulho em campanha eleitoral e também já rendeu tantos votos.

Lembrou da loucura que eram as portas das seções de votação com cabos eleitorais agressivos, incisivos, violentos. Lembrou também da compra explicita de votos, tida como algo normal, normal, embora lamentável.

Quanta coisa foi embora, quanto atraso democrático foi superado, quantos atentados aos direitos políticos mínimos do cidadão foram imoralizados, mesmo ainda resistindo, embora certamente em menor intensidade.

Comparou esses avanços, frutos da luta e da vocação democrática de nossa sociedade, com aquela conversa que ouviu no bar e o tornara, por falta de percepção histórica, tão pessimista.

Ficou assustado e viu no pessimismo cego uma força conservadora nele mesmo e passou a procurar alguma sintonia. Olhou ao redor e viu, apesar de tamanhas filas, o ambiente de participação, democracia e serenidade que se vivia naquele local.

Foi só então que percebeu o caráter popular e silencioso que nosso aprendizado democrático tem marcado. Mesmo para ele, o resultado da eleição, embora importante, já não era uma questão de vida ou morte.

Edson Martins é cientista social,
professor e consultor do IEE/Puc São Paulo
e Instituto Paulo Freire.
E-mail: martins_edson@zipmail.com.br

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