Revista "MUNDO e MISSÃO"

Política

CHINA: dois passos para frente e um para trás

Charlie Dittmeier

"O que vai mudar em nossas vidas a partir de 1º de julho de 1997?" Era essa a pergunta que muitos habitantes de Hong Kong se faziam, quando a cidade deixou de ser colônia inglesa e voltou a fazer parte da República Popular da China. O que aconteceu então, nesse tempo?

Um ano e meio depois da volta de Hong Kong à China, podemos dizer que algumas coisas mudaram e outras não, por exemplo, não se esperava uma crise econômica e ela veio.
Em 1997, a economia estava em pleno desenvolvimento; hoje, a taxa de desemprego é a mais elevada dos últimos quinze anos, o valor dos imóveis caiu em 40% e várias lojas estão para fechar. Os turistas esperados não chegaram.
Enquanto isso, a economia da China continental continuou a crescer numa taxa respeitável de 6%. Esperava-se um aumento da censura e da repressão e, aparentemente, isso não veio. Um inquérito entre chefes de empresas classifica Hong Kong entre os quatro países asiáticos que gozam de um nível elevado de liberdade de imprensa e vê isso como um fator positivo para ajudar a cidade a sair da crise em que entrou junto com outros tigres asiáticos.
Tudo isso, como já dissemos, aparentemente...
Não é fácil julgar os acontecimentos chineses a partir dos pontos de vista da cultura ocidental. De fato, houve também mudanças negativas no que diz respeito aos direitos humanos e às liberdades civis, mas o responsável disso tudo foi, para a opinião pública, o governo de Hong Kong que sempre realizou "o trabalho sujo" de reprimir várias manifestações populares. Pequim sempre ficou alheia a toda intervenção, mantendo assim alta sua reputação internacional. O governo central faz questão de mostrar aos observadores estrangeiros que é possível realizar o slogan criado por Deng Xiaoping: "Um país, dois sistemas" (o comunista e o capitalista).
Mas a essa imagem da China que está sendo apresentada ao mundo, nem sempre corresponde a realidade. Isso se tornou evidente na ocasião, por exemplo, das últimas eleições em Hong Kong.

As eleições

Nas eleições para a Assembléia Legislativa, em maio de 1998, estavam sendo disputadas sessenta cadeiras. O governo gastou 6 milhões de dólares numa campanha de publicidade que garantia que a eleição seria "aberta, honesta e justa". Ela foi aberta e honesta, mas não foi justa.
Dos 60 deputados, somente 20 foram eleitos pelo povo: 30 foram escolhidos nas "circunscrições profissionais", isto é, por grupos de eleitores pertencentes a uma mesma indústria ou a uma mesma profissão. Nesse caso, o direito de voto era limitado aos profissionais qualificados e aos quadros da indústria, pessoas que tinham interesse em agradar a Pequim, se quisessem continuar a realizar negócios na China continental. Enfim, 10 deputados foram escolhidos por um comitê de seleção "pró-Pequim". O resultado foi que alguns deputados foram eleitos somente com 300-400 votos, enquanto outros precisaram de dezenas ou centenas de milhares.
Uma revista, com certa dose de humor, comentou as eleições, dizendo que "ganhadores e perdedores, foram todos eleitos. O que não deixa de ser mais justo que no outro sistema, onde somente os ganhadores ganhavam."

As mudanças na China

O que acontece em Hong Kong agora é reflexo do que acontece na China. Para muitas pessoas, a China parece imóvel, monolítica e, de certa forma, isso é exato. Mas, ao mesmo tempo, estão acontecendo mudanças rápidas, irreversíveis, de grande importância. No ano passado, a maior parte da população chinesa trabalhava ainda nos arrozais, mas, ao mesmo tempo, as cidades litorâneas e as províncias do Sul estavam descobrindo o comércio e o capitalismo em sua forma mais selvagem. "O socialismo com características chinesas" deveria ser o caminho ideal para a China, mas essa mesma teoria levou ao fechamento das empresas estatais não competitivas, dando origem a um grande número de desempregados. Cada vez mais pessoas agora têm acesso a um estilo de vida de classe média; mas o fosso entre os antigos lavradores e os novos empresários não pára de aumentar.

A visita do presidente Clinton

Durante sua visita à China, em quatro ocasiões, o presidente Clinton falou ao vivo à população chinesa, através do rádio e da televisão. Encontrou os estudantes da universidade de Pequim, teve um debate público com o presidente Jang Zemin e contestou as declarações oficiais que diziam que a repressão da praça Tiananmen tinha sido correta.
Esses encontros semearam idéias que podem levar a uma mudança: a idéia, por exemplo, que um líder político pode ser contestado publicamente, que isso não destrói o governo mas faz com que se torne mais responsável.
Mas tudo parou aí. Essas intervenções não tiveram grande difusão na imprensa e ninguém se atreveu a contestar as autoridades. Aparentemente, tudo continuou como antes.

A China e a Igreja hoje

Como as tensões na China afetam a Igreja católica e as outras Igrejas cristãs hoje?
Há sinais positivos que dão a impressão de que a Igreja goze de maior respeito e liberdade hoje, em relação a alguns anos atrás:

· os jesuítas americanos receberam a permissão de lecionar na universidade de Pequim;
· em algumas províncias, os religiosos podem exercer livremente seu ministérios e os leigos podem praticar sem medo;
· alguns seminaristas foram enviados à Europa e aos Estados Unidos para completar seus estudos;
· os missionários estrangeiros em Hong Kong agora conseguiram o visto de residência permanente.
· Mas há também sinais negativos:
· as autoridades de Cantão, perto de Hong Kong, tomaram medidas repressivas contra o responsável de uma Igreja protestante cujos fiéis estavam aumentando demais;
· em algumas províncias, o clero católico, bispos e padres, especialmente da Igreja não oficial, continua sendo preso e mantido em prisão;
· o cardeal Ignatius Kung, exilado nos Estados Unidos, teve seu passaporte confiscado, quando fez seu pedido de renovação.

Assim dom Joseph Zen, bispo coadjutor de Hong Kong, resume a situação: "Em nosso relacionamento com a China, continua havendo muita incerteza. Às vezes, parece haver mais liberdade, às vezes menos, sem explicação aparente. A experiência do passado mostra que na China as coisas caminham dois passos para a frente e um para trás. Pode-se dizer que no momento a situação é relativamente normal".

Tradução e adaptação da revista Tripod, do Holy Spirit Centre, Hong Kong.

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