Revista "MUNDO e MISSÃO"
Política
Setembro de 2006 - Edição
n.º 2
Ela situou o Brasil entre os primeiros na lista. Vejamos: uma fonte da nossa imprensa noticiou, em julho, que 2.900 políticos brasileiros, entre ex-governadores, prefeitos e ex-prefeitos, magistrados e demais gestores públicos estão “inelegíveis” para as próximas eleições. No entanto, um simples recurso na Justiça Comum já basta para que eles possam concorrer a cargos públicos no próximo pleito. Pesquisa DataFolha, de 16 e 17 de março, avaliou como ruim/péssima a imagem do Congresso para 41% dos eleitores. Outro informe concluiu que 22% dos parlamentares da esfera federal, suspeitos de terem cometido delitos, estão sob investigação federal.
“O Poder corrompe (Lord Acton) Eis uma mini-amostragem do que acontece pelo mundo: ÁSIA: O ex-ditador Suharto da Indonésia foi acusado de receber entre US$ 15 bilhões e US$ 35 bilhões durante os 31 anos em que ficou no poder (1967-1998). EUROPA: Mário Chiesa, com cargo administrativo no Partido Socialista Italiano, recebia propinas de uma companhia de limpeza de Milão. Mais de 15 bilhões de liras teriam sido arrestadas em contas bancárias, imóveis e títulos públicos de sua propriedade. A propina exigida por cada contrato celebrado seria utilizada para o financiamento de suas ambições políticas e de seu Partido. (A descoberta das fraudes deu origem à Operação Mãos Limpas, em 1992). AMÉRICA: A Enron, empresa norte-americana de energia, pertencia ao establishment ianque, distribuindo fundos, favores e louvores. Seu dono, Kenneth Lay, amigo íntimo de George W. Bush há mais de vinte anos, forneceu-lhe (por meio da empresa) mais de 2 milhões de dólares. Conselheiro quando o atual presidente era governador do Texas, desempenhou papel fundamental na elaboração da política energética do novo governo. ÁFRICA: O líder da União Africana, o presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, declarou, em fevereiro de 2006, que a corrupção custa à África cerca de 25% da renda total da região. “O saque às riquezas do continente priva a região de US$ 148 bilhões ao ano”. Ele disse que as indústrias como as do petróleo e do gás são as mais atingidas e acusou o Ocidente de cumplicidade, ao permitir que os ganhos com corrupção sejam mantidos em bancos fora da África. (BBC-Brasil – 17/02/06) Afinal, o que é ética? “A ética é daquelas
coisas que todo mundo (Valis, Álvaro L.M. O que é Ética?, 7a ed. Ed. Brasiliense, 1993, p. 7)
É possível a ética na política? Amoralização da política recoloca uma antiga problemática: a relação entre o público e o privado. Foram os gregos na antiguidade que inventaram o espaço da política enquanto expressão da vontade coletiva, isto é, enquanto esfera da ação humana que submete a vontade arbitrária e privada do poder pessoal do governante às instituições públicas. [...] Com Maquiavel a política atinge a maioridade e é concebida enquanto esfera autônoma da vida social. A política deixa de ser pensada a partir da ética e da religião [...] e identifica-se com o espaço do poder, enquanto atividade na qual se assenta a existência coletiva e que tem prioridade sobre as demais esferas da vida humana. [...]
Para Maquiavel a política deve se preocupar com as coisas como são, em toda sua crueza, e não com as coisas como deveriam ser, com todo o moralismo que lhe é subjacente. Isto teve um preço. Não por acaso seu nome virou adjetivo de coisa má. [...] Ele nada mais fez do que demonstrar a hipocrisia da moral da sua época, isto é, mostrar como, por trás de uma moralidade que justificava a dominação dos senhores feudais e da senhora feudal, a Igreja Católica, a política era cruel e friamente praticada através de meios nada cristãos: traições, assassinatos, guerras etc. Ética na Política? Da sagrada ingenuidade dos céticos ao realismo maquiavélico – Antonio Ozaí da Silva – Docente na UEM e doutorando na Faculdade de Educação da USP (Revista Espaço Acadêmico n.º15) Ética e serviço
Portanto, o poder só é “poder serviço” quando for partilhado (Jo 13, 4-17). Só dessa forma conseguiremos consolidar mecanismos e organizações que irão garantir política com ética e a superação da desigualdade e da exclusão social. Luiz Dietrich – coordenador
da Dimensão
Sob este aspecto, um político cristão não pode deixar de fazer constantemente referência aos princípios que a doutrina social da Igreja desenvolveu ao longo do tempo. Tais princípios, como se sabe, não constituem uma “ideologia” nem um “programa político”, mas oferecem as linhas fundamentais para uma compreensão do homem e da sociedade à luz da lei ética universal presente no coração de cada homem e aprofundada pela revelação evangélica. (cf. Sollicitudo rei socialis, 41)
Eles podem deter o poder, m as raramente assumem todas as responsabilidades que daí decorrem. [...] O ideal mesmo, para sermos coerentes, seria poder dispor de uma classe política entendida como missão e não como establishment profissional como muitas vezes ocorre. [...] Se os princípios da moralidade individual não se encarnam nos homens, os princípios éticos da sociedade correm o risco de se esgotarem, perdendo a política aquela base de consenso autêntico, fundado sobre os princípios, sem a qual pode existir automatismo, mas não auto-determinação.
PAULO ROBERTO DE ALMEIDA Rodrigo Andreotti Musetti –
mestre em Ética pública e as eleições
A seu respeito, o papa João Paulo II declarou: “...Ofereço-vos o apoio especial de um Patrono: o santo mártir Tomás Morus. A sua figura é verdadeiramente exemplar para todo o que é chamado a servir o homem e a sociedade no âmbito civil e político. O testemunho eloqüente dado por ele é muito atual num momento histórico que apresenta desafios cruciais para a consciência de quem tem responsabilidades diretas na gestão da vida pública. Como estadista, ele colocava-se sempre ao serviço da pessoa, especialmente quando débil e pobre; as honras e as riquezas não o fascinaram, guiado como era por um elevado sentido da equidade. Sobretudo, ele nunca desceu a compromissos com a própria consciência, preferindo o sacrifício supremo a desobedecer à sua voz. Invocai-o, segui-o, imitai-o! A sua intercessão não deixará de obter-vos, mesmo nas situações mais árduas, fortaleza, bom humor, paciência e perseverança”. Homilia no Jubileu dos Governantes A sociedade civil contra a corrupção na África Os países africanos ocupam os últimos lugares na classificação da Transparência Internacional. Mas, se os governos são lentos em conter a corrupção, existem muitos grupos e associações locais empenhados na batalha contra este fenômeno. Na Nigéria, um dos países mais corruptos, atuam as ONGs Integrity e a Media Rights Agenda, juntamente com a participação de grupos religiosos, promovendo a liberdade de imprensa e as denúncias de corrupção.
Em Serra Leoa, a National Accountancy (Nag) luta pela transparência na gestão do dinheiro público e contra a corrupção, através de campanhas informativas, projetos educativos e pesquisas. Forum Civil é uma das ONGs anti-corrupção mais ativas em toda a África. Nasceu no Senegal, em 1993, e adquiriu credibilidade internacional. Em 2000, deu vida a uma coalizão formada por movimentos de mulheres e de jovens, por organizações pelos direitos humanos, por sindicatos de trabalhadores e organizações religiosas, contribuindo fortemente no monitoramento contra a corrupção. (Nigrizia – 02/2006) Não se pode transformar a eleição numa espécie de corruptódromo. [...]. Não se trata, com isso, de temer um debate sobre ética pública. Mas os grandes problemas sobre esse tema no Brasil derivam da falência do atual sistema político e não apenas do planejamento de meia dúzia de indivíduos. A corrupção no Estado brasileiro é sistêmica. Para que baixemos a taxa de ilegalidade, proveito pessoal em cargos públicos e até mesmo de corrupção, temos que prosseguir no caminho do desenvolvimento, das reformas, da educação, do crescimento econômico e no aprofundamento do controle da sociedade sobre o Estado”. (Tarso Genro – ISTO É – ed. n.º 1918 – pág. n.º 10) PARA REFLETIR Alguns políticos
justificam seus atos e privilégios com o seguinte argumento: –
É legal! Veja os depoimentos de alguns leitores sobre este assunto Envie para a redação
a síntese das discussões e/ou dos estudos realizados a partir
da leitura de “Em debate”. |
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