Revista "MUNDO e MISSÃO"

Política

Vida difícil para as minorias

Costanzo Donegana

O Paquistão, onde vigora a lei islâmica, antes amigo do Taleban, teve que trair os antigos aliados e agora se encontra numa situação difícil

Desde que nasceu como Estado independente (1947), o Paquistão quase nunca teve vida tranqüila: nas relações exteriores, tem problemas com a Índia com a qual trava combates periódicos pela impossível definição das fronteiras na Caxemira, e ainda não se esqueceu da guerra fracassada pelo Paquistão Oriental, que se tornou Bangladesh (1971); em seu interior, uma série de golpes militares e destituições de primeiros-ministros. O golpe militar de 1999 está, portanto, na linha da política tradicional do país: o general Parvez Musharraf respondeu à tentativa de destituição do primeiro ministro Nawaz Sharif, tomando o poder e aposentando o próprio Sharif.

No discurso de posse, Musharraf exibiu um islamismo moderado, tranqüilizando as minorias: “O islã ensina a tolerância e não o ódio, a fraternidade universal e não a inimizade, o progresso e não o sectarismo”. Palavras incomuns na boca do chefe de um estado islâmico, que acenderam muita esperança nos cristãos. Porém, até agora as promessas foram bem pouco concretizadas.

Estado islâmico

O Paquistão nasceu em 1947, depois da independência indiana, para responder à exigência dos muçulmanos que queriam um próprio Estado autônomo, que resultou composto de maneira artificial de duas partes, ocidental e oriental, a oeste e leste da Índia, distantes dois mil quilômetros. Essa divisão territorial foi acompanhada por um enorme êxodo dos dois lados: sete milhões de muçulmanos deixaram a Índia e dez milhões de hindus migraram para este país. Apesar de a população da nova nação ser quase totalmente muçulmana (97%), o Paquistão não nasceu como um Estado islâmico. A vontade do seu fundador, Muhammad Ali Jinnah, estava clara: ele queria um Estado leigo. Só que, progressivamente, o país tornou-se um Estado islâmico, embora nem todos os próprios muçulmanos estejam de acordo.
Sob os governos de Ali Bhutto (1970-77) e do general Zia-ul-Haq (1997-88), a nação deu os passos mais decisivos rumo à islamização, que não é só um problema religioso, mas também cultural. Para o paquistanês muçulmano, é difícil entender como alguém fora da fé muçulmana e da cultura a ela ligada não seja um cidadão de segunda classe. Isso vale para todas as minorias existentes no país: cristãos, hindus, ahamadis (comunidade islâmica considerada herética). A eles, devem ser acrescentadas as mulheres, sem direitos, como geralmente em toda sociedade islâmica.

O primeiro golpe contra a comunidade cristã veio em 1973, quando Ali Bhutto nacionalizou as escolas secundárias particulares em língua urdu (o idioma do país), nas quais a maioria dos cristãos pobres era educada pela Igreja. O estudo do islamismo tornou-se obrigatório, os alunos cristãos estão sendo discriminados e prejudicou-se a integração entre muçulmanos e cristãos antes existente naquelas escolas.

Sharia

Em 1991, foi aprovada pelo parlamento a sharia, a lei islâmica. As duas atuações mais significativas são a lei sobre o depoimento e sobre a blasfêmia. No tribunal, o testemunho de uma mulher vale a metade daquele de um homem, porque a mulher é meio homem. O testemunho de um não-muçulmano não é aceito. Quem ofende com palavras ou atos o profeta Maomé ou o livro sagrado do Alcorão pode ser condenado à pena de morte ou à prisão perpétua. Antes da promulgação dessas leis, o número de casos de blasfêmia era quase insignificante. Depois, as acusações contra os cristãos aumentaram de maneira assustadora; as leis foram aproveitadas para ajustar contas, tomar posse de propriedades de cristãos, solapar seu emprego, etc. Nenhum advogado cristão pode comparecer à corte da sharia e só um juiz muçulmano pode presidir o interrogatório.

Foi nesse contexto que ocorreu o trágico suicídio (sobre o qual há quem duvide) de dom John Joseph, bispo de Faisalabad, incansável defensor dos direitos humanos, na noite de 6 de maio de 1998, na frente do tribunal que havia condenado à morte, por blasfêmia, um jovem. O bispo tinha procurado em vão um advogado para defender o acusado e havia escrito, alguns dias antes: “Ficarei muito feliz, se, nesta missão de romper as barreiras, nosso Senhor aceitar o sacrifício de meu sangue pelo bem de seu povo”. Como primeiro fruto, a condenação do jovem foi suspensa.

Resistência das minorias

A tentativa do governo, em 1992, de incluir na carteira de identidade nacional a especificação da religião do portador fracassou pela fortíssima reação pública, liderada pelos cristãos, aos quais se uniram todas as minorias, a Comissão Paquistanesa de Direitos Humanos e os partidos de oposição.

“O islã ensina a
tolerância e não
o ódio, a fraternidade universal e não
a inimizade,
o progresso e não
o sectarismo”

Outro sucesso das minorias foi a histórica revogação da lei eleitoral que as obrigava a votar só em candidatos do próprio grupo para um número limitado de cadeiras (10 nas 217 da Assembléia Nacional). Em julho deste ano, por decisão da Corte Suprema, os paquistaneses das minorias votaram com os muçulmanos nas eleições locais.

Do ponto de vista sóciocultural, os cristãos ocupam, com exceções insignificantes, os lugares inferiores da escala social: a eles são reservados os trabalhos mais humildes (limpeza urbana, trabalhos nos fornos ou como semiescravos de proprietários de terra). A raiz disso está no sistema de castas do hinduísmo, vigente anteriormente, mas que ainda faz sentir suas conseqüências: os cristãos vêm da periferia da sociedade hindu, quase todos dos sem-casta (dalit). Eles não têm praticamente quase nenhum acesso aos estudos universitários e a cargos políticos de alto nível.
Dentro dessa situação muito pesada, a Igreja católica e outras Igrejas cristãs, embora sejam numericamente limitadas, não têm medo de defender seus direitos, junto com as outras minorias e as associações de mulheres, mas o fazem praticando a não-violência absoluta, na fidelidade ao Evangelho.

Paquistão

• Superfície: 796.095 km2
• População: 156,5 milhões
• Capital: Islamabad
• Língua: undu (oficial),
punjabi, sindi e inglês
• Governo:
República Parlamentarista
Ditadura Militar
• Religiões:
islamismo: 95%
cristianismo: 2%,
hinduísmo: 1,8%
outras: 1,2%
• Mortalidade Infantil: 74%

Seria errado pensar que todos os muçulmanos no Paquistão são violentos e intolerantes; entre eles há várias posições e muitos, sobretudo na vida concreta do dia-a-dia, vivendo juntos com os cristãos, abrem-se e mudam a mentalidade. Nas grandes cidades, há grupos de diálogo islamo-cristão, onde se aprofunda o conhecimento mútuo e se enfrentam os problemas sociais, religiosos e étnicos comuns. Os muçulmanos extremistas são poucos, cerca 1%, embora sua pressão sobre o governo e a sociedade seja forte e as violências cometidas (mortes, destruição de lugares de culto, conversões forçadas) sejam contínuas. A Mais grave foi a chacina de 15 cristãos numa igreja, no dia 28 de outubro.

Reviravolta

Até os atentados terroristas contra os Estados Unidos, o Paquistão era aliado do Taleban do Afeganistão e seus serviços secretos tinham contribuído para formar e treinar o exército taleban. De fato, a existência de um Estado muçulmano amigo às suas costas servia como retaguarda para protegê-lo em caso de conflito com a Índia. O Paquistão sofria sanções econômicas, por parte do Ocidente, pelo armamento nuclear que ia acumulando em competição com a Índia.
Nas últimas semanas, tudo mudou: os Estados Unidos e os ocidentais convenceram Musharraf, com meios políticos e com ajudas econômicas, a trair os talebans. Mas a virada repentina pode desequilibrar o carro paquistanês: os partidos islâmicos e os extremistas, enfurecidos pelos ataques americanos contra o Afeganistão, poderiam derrbar o governo, acendendo um fósforo no barril de pólvora daquela região.

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