Revista "MUNDO e MISSÃO"
Política
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HAITI violento Marco Bello Voltam os fantasmas do passado num dos países mais pobres do mundo O povo é nervoso. Aqui a vida tornou-se impossível, não só porque os salários, quando há, são baixos (o salário mínimo por dia corresponde a R$ 3,30) e os produtos básicos aumentam, mas porque chegam cada vez mais pessoas do campo, que incham as favelas da capital, Porto Príncipe, até fazê-las estourar. A cidade, há quarenta anos, tinha 500 mil habitantes, agora supera os dois milhões. As infraestruturas não existem mais, as estradas estão em pedaços e os esgotos parecem não existir, também no centro da cidade. Os transportes são caóticos e, para se locomover, demora-se horas. As escolas são insuficientes e o hospital central universitário está sempre superlotado: praticamente é um centro aonde se vai para morrer. Mas para o povo das periferias não existe outra alternativa. Bandos criminosos Tudo isso faz parte, há anos, do panorama da grande capital caribenha, embora hoje pareça que tudo tenha piorado e o medo da violência domine sempre mais. "É a única lei que ficou", comenta um jornalista. Os bairros da cidade, das favelas às zonas populares que chegam até o centro, são dominados por bandos de gângsters, chamados les Chimers (as quimeras), um nome na boca de todos. São criminosos organizados, a serviço dos partidos políticos. "São agitadores profissionais da rua - explica um professor universitário - distribuem armas de guerra a adolescentes de 14-15 anos, recrutados nas favelas. Enviam-nos ao-deus-dará. Organizam manifestações violentas: queimam pneus, lançam pedras e disparam". São pagos para isso. Seus líderes fazem declarações em favor do partido Fanmi Lavalas (Família Lavalas, Fl) do presidente Aristide, mas também a oposição tem bandos criminosos a seu serviço. Quando não têm um trabalho sob encomenda, eles mesmos se entregam ao assalto e ao roubo. Agora, até uma pequena loja ou um simples bar tem seus guardas armados de fuzis. Todos os que têm uma atividade procuram pelo menos uma pistola para autodefesa: "É uma violência mantida pelo poder - continua o professor -, uma organização bem montada nos bairros populares, sem uma oposição aberta. Em poucas horas estão em grau de bloquear toda a cidade". Aristide "A paz na cabeça, a paz na barriga": é o slogan que aparece nos outdoors nos cruzamentos estratégicos. Em primeiro plano, domina um enorme retrato do rosto do presidente, Jean-Bertrand Aristide, que parece dizer: "Estamos aqui para dar a todos paz e comida". O ex-padre salesiano foi eleito presidente pela segunda vez no dia 21 de maio de 2000. O Fl obteve a quase totalidade dos deputados e senadores, embora os observadores internacionais tenham-no acusado de graves fraudes. Com a vitória, Aristide conseguiu fugir do controle sobre a gestão duvidosa do muito dinheiro da Fundação Aristide (fundada e administrada por ele mesmo). Embora a credibilidade de Aristide esteja diminuindo, a Convergência democrática (Cd), que reúne os partidos de oposição, tem pouco apoio popular: "São freqüentadores de embaixadas - comenta o mesmo professor - fazem lobby internacional e assim Estados Unidos, França e Canadá estão do seu lado". Estes países conseguiram congelar os financiamentos do Banco Mundial e do Banco Interamericano de desenvolvimento, com conseqüências muito pesadas para o povo do Haiti. A política do país caribenho é estranha: no novo governo de Aristide há ex-representantes da ditadura dos Duvalier e personagens implicados no sangrento golpe de estado que, em 1991, depuseram o próprio Aristide e decapitaram o movimento popular, eliminando 5 mil pessoas em três anos. Mas, também na oposição, repete-se a mesma aliança espúria da maioria governamental, com o acordo entre partidos democráticos e setores duvalieristas (Cd). "Viver tornou-se difícil demais, estamos continuamente em perigo", confidencia um comerciante. Assim, muitos procuram ir embora. Alguns atravessam a fronteira com a República Dominicana e vão engrossar as fileiras dos cortadores de cana. Outros tentam o caminho do mar com barcos primitivos, sendo regularmente trazidos de volta pela polícia marítima dos Estados Unidos. Muitos intelectuais também deixam o país por razões de segurança ou em procura de uma vida melhor. Entre eles, serpenteia o fantasma do partido único: "Estamos voltando ao modelo tradicional do totalitarismo e poder autoritário - diz o professor -. Também na cúpula da polícia Aristide colocou seus homens. Criou um governo aberto aos setores duvalieristas e golpistas. Conseguiu um parlamento totalmente submisso". Educar os jovens Porém, a coisa que o povo sente imediatamente na própria pele é a utilização da violência para manter o poder: "Ressurgem práticas que lembram o duvalierismo: les Chimers são uma reprodução dos Tontons Macoutes (milícia de repressão da ditadura dos Duvalier, n.d.r.) - continua o professor. Têm muitos traços em comum: apego ao líder, prática da violência, controle capilar nos bairros". Interessante que Aristide sofreu perseguição nos anos 91 e 94 por parte dos Macoutes, até atentados à vida. "Estamos numa situação ainda pior do que durante os anos do golpe de estado - comenta, desanimada, uma jornalista -. Naquela época, lutávamos por algo, pelo retorno da democracia; hoje não há esperanças. Nestes anos poderia ter ido embora, mas preferi engajar-me aqui. Hoje, se pudesse, partiria logo. Na época da ditadura, tudo era controlado, conhecíamos a força do regime e, sobretudo, sabíamos nossos limites. Hoje, não se sabe mais o que se pode fazer ou não. Por pouco dinheiro você é eliminado". Nesse contexto, a Igreja está procurando exercer um papel de mediação entre governo e oposição, embora sem grandes resultados pela falta de uma plataforma comum para o diálogo. Na crise de valores que gera a violência, ela procura ir à raiz do problema, investindo na educação dos jovens, para preservá-los desse fenômeno. Ela conta com eles na construção de uma sociedade nova. Fonte: Avvenire |
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