Revista "MUNDO e MISSÃO"

Política

omeça agora, em "Mundo e Missão", uma série de artigos sobre a Rússia. O país sofreu, nos últimos anos, profundas transformações: a antiga URSS deu origem a muitos países independentes, o maior e o mais importante dos quais, no cenário político e econômico, é a Rússia. Falaremos do povo russo, dos desafios que a Rússia encontra para resolver uma série de problemas que a queda da URSS deixou em suspenso e, de maneira particular, de como esse país vive seu problema religioso, dando particular destaque à situação da Igreja católica e das dificuldades que encontra, especialmente em seu relacionamento com a Igreja ortodoxa.

A VIDA NA RÚSSIA APÓS A QUEDA DO COMUNISMO

"De que nos serve a liberdade se não temos pão?" É um dos refrões que mais se ouvem, hoje, na boca do povo e que, praticamente, substituiu os bordões que periodicamente eram lançados pelo Partido comunista. "Nós queremos uma economia de mercado, mas não aceitamos que ela mude algo do que os comunistas fizeram no campo social. Ainda não estamos preparados para aceitar uma sociedade democrática e de livre mercado e não o seremos por diversas gerações ainda", escreve o economista Ivan Scuro.

Foram muitas as tentativas feitas para levantar a Rússia da situação caótica em que precipitara após a queda repentina do regime comunista e foram muitos os fracassos. A economia sofreu em maneira particular. O país não estava preparado e não tinha o mínimo de estruturas para passar, de um dia para outro, do regime socialista ao de economia de mercado. "Hoje não é fácil achar trabalho na Rússia: é preciso inventá-lo", diz frei Corrado Trabucchi, franciscano, que se encontra no país desde 1991. "Acontece que o homem russo - continua o frade - tem, hoje, dificuldade para inventar, pois, durante muitos anos, foi acostumado a receber tudo já pronto do governo, até os apartamentos, que eram feitos todos da mesma forma".

Setenta anos de governo soviético tornaram o homem sem interesses e ideais. Hoje é preciso percorrer o caminho inverso. Mas, como?

BEBIDAS E MÁFIA

Um estrangeiro que sai do hotel às oito da manhã e anda pelas ruas da capital encontra muitas pessoas, homens e mulheres, jovens e velhos, bebendo sua garrafa de cerveja, no melhor dos casos, ou de vodka, no pior. Vem espontânea a pergunta: "O que explica esse fenômeno? Como pode uma nação ter esperança de reconstruir sua estrutura socioeconômica a partir dessas premissas"?

Um relatório da Academia de Ciências Médicas de Moscou mostra que muitas doenças da infância são resultados de alterações da saúde já presentes em adultos, nascidos e crescidos sob o regime soviético, quando a alimentação já era insuficiente e o alcoolismo tomava conta das pessoas.

Hoje, essa praga continua e aumenta. Calcula-se que o russo bebe em média três garrafas de vodka de meio litro, por semana. Uma das conseqüências é que um casal em três sofre de alguma forma de esterilidade.

Nessa situação, aumenta cada vez mais o número de pessoas que, para sobreviver, deixa de procurar um trabalho honesto e prefere escolher formas mais fáceis de ganhar dinheiro, explorando os outros, desde a prostituição até a criminalidade organizada.

Não são poucos os novos mafiosos e são facilmente reconhecíveis: carrões importados do ano, terno, óculos escuros, celular. Os que enriqueceram honestamente tentam se confundir com o povo simples e não querem aparecer; os mafiosos querem que todo mundo saiba a que classe social eles pertencem.

É como se quisessem dizer: "Você sabe quem eu sou, como ganhei meu dinheiro. Saiba também que sou todo-poderoso, invencível, que não pode me fazer nada e que não lhe resta nada a fazer a não ser ter medo de mim".

De outro lado, que incentivo podem ter as pessoas para trabalhar (quando encontram trabalho), por 10 ou 15 dólares ao mês?

A DROGA

Mulovka é uma cidadezinha nos subúrbios de Moscou. Ali, numa assembléia de pais, é lançado o alarme: 9 menores em 10 usam drogas. Uma dose de heroína custa menos que uma garrafa de vodka.

O abuso de álcool e de droga na capital russa é também a causa da instabilidade das famílias. A dependência leva à perda do trabalho e, por conseguinte, à destruição de muitos jovens núcleos familiares. Em Moscou, mais de 20% dos homens divorciados e mais de 30% das mulheres têm menos de 30 anos.

Outro dado impressionante: a falta de amor ao próprio país na maior parte dos jovens. Conforme uma pesquisa do canal de TV Ntv, mais da metade dos jovens que vivem em Moscou e que têm entre 15 a 17 anos, preferiria ter nascido em outro país. Os dados da Comissão Central de Estatística revelam que o número dos drogados aproxima-se dos 3 milhões. Isso favorece o aparecimento de outras doenças, em primeiro lugar a Aids e a hepatite.


Batismo e primeira comunhão de uma criança

Conforme declarações do primeiro ministro Mikhail Kasjanov, se a situação não mudar, o número de portadores do vírus da Aids poderá atingir um milhão, em 2005. Segundo o ministro, a grande difusão da droga, especialmente entre os jovens, põe em risco a saúde da próxima geração.

Ele sublinhou também que a dependência das drogas tende a difundir-se das grandes cidades ao interior do país. Já atingiu a Sibéria, a região do extremo oriente e especialmente as regiões próximas da Chechênia, onde, por causa da guerra, o uso é muito difundido, especialmente entre os militares. No ano passado a polícia seqüestrou mais de 50 toneladas de drogas de vários tipos, mas isso não representa nem a metade de tudo aquilo que hoje se encontra em circulação.

Uma entrevista com o ministro da saúde,
Jurij Scevcenko

Muitos, especialmente os comunistas, dizem que na União Soviética as coisas iam melhor, especialmente no que diz respeito à saúde.

Scevcenko: Eu sei que dizem isso. Acontece que a Rússia entrou agora numa fase que a maior parte dos países mais desenvolvidos já superou faz tempo. Durante o regime soviético, o alto índice de natalidade era explicado pelas famílias numerosas, tradicionais, especialmente nas regiões da Ásia central, onde não era difícil encontrar casais com 10-15 filhos. Mas a mortalidade infantil também era muito alta, só que era proibido falar. Agora, as famílias da Rússia têm 1 ou 2 filhos e as Repúblicas da Ásia central tornaram-se independentes e os dados que elas fornecem não entram nas estatísticas russas.

A respeito do alcoolismo: o problema era maior no período soviético. Há alguma esperança para o futuro?

Scevcenko: Certamente. Não podemos perder as esperanças. Nos últimos dois anos, a vida média dos homens aumentou de 58 para 61 anos, em Moscou até 63. Diminuiu também o índice de mortalidade, de 15 para 13,5 por mil. Combatemos com sucesso várias doenças. As vacinas contra a poliomielite, ministradas regularmente a 99% das crianças, já deram seus resultados.

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