Revista "MUNDO e MISSÃO"
Política
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por Edson Martins
Experimente você, leitor, fazer uma opção pelo otimismo por um dia para ver o que acontece. Procure olhar para o lado e para dentro de você mesmo para perceber o quanto já cresceu como ser humano; faça o mesmo exercício, reconhecendo os progressos dos seus amigos e vizinhos também. Tente parabenizar alguém que devolveu um troco errado ou sorrir positivamente para aquele que, na loucura do trânsito, permitiu que um outro carro entrasse à sua frente. Ouse se emocionar com moradores de rua que conversam alegremente e repartem um lanche, aliviando sua fome. Essas atitudes, repletas de humanidade, estão em baixa. Ao realizar o exercício acima proposto, provavelmente o leitor seria acusado de conformista, por ter se contentado com tão pouco, bajulador, por ter reconhecido pequenos progressos em seus amigos, ingênuo, por valorizar a devolução de um troco errado, e insensível, por não se apiedar da fome e da condição dos moradores de rua. Onde mais percebemos esse tipo de atitude diante do mundo e da vida? Principalmente no grande circuito dos meios de comunicação e nos redutos urbanos, marcados pelo individualismo e artificialismo. Em termos mais concretos, trata-se de significativos setores da sociedade, de médio ou alto índice de escolaridade que, dentro da mais explícita perspectiva burguesa, optaram por "desencantar o mundo", acreditando ser ele uma materialidade a ser racionalmente dominada, para que a sobrevivência seja a mais adequada possível. Importante ressaltar que muitos desses adeptos de tal perspectiva burguesa não percebem que o fazem e dizem ser "antiburgueses" ferrenhos. Nesta visão de mundo, o social explica-se sempre por estruturas e sistemas inacessíveis. Trata-se de um universo centrado na técnica, na ideologia e no burocrático. Os autoproclamados "realistas" enchem-se de razão ao fazer dessa sua verdade uma realidade única, definitiva. Por conta disso, vamos vivendo em um mundo em que boa parte dos ditos cidadãos conscientes e esclarecidos cultivam um ceticismo perverso, incapaz de reconhecer o que foge aos seus modelos. Esse raciocínio acabou por se transformar em uma armadilha para desumanizar o mundo e conservá-lo do jeito que está. O que estas pessoas não conseguem enxergar é que o mundo real, vivo, concreto, humano acaba constituindo suas próprias mudanças e que muitas pessoas, não tão influentes ou públicas, estão realizando verdadeiras transformações onde vivem e que essas transformações, a princípio locais, estão começando a criar resultados mais amplos e palpáveis. Quem não se lembra das enormes repercussões provocadas pela barbaridade com que foi assassinado o índio Galdino em Brasília? Do massacre da Candelária, do Carandiru, de Eldorado de Carajás? Quem não se lembra do verdadeiro estrondo que causou a morte de Chico Mendes ou, mais recentemente de Tim Lopes?
Em um passado não longínquo, o assassinato de índios, meninos de rua, detentos, sem-terra, líderes sociais e jornalistas eram banalizados, sendo, quase sempre, as vítimas tratadas, inclusive pela população, como culpadas. No mundo do Estado a situação não é diferente. Basta fazermos um exercício de memória e perceberemos a quantidade de políticos e pessoas ilustres que hoje estão no ostracismo, decadentes, esquecidos. Isso tudo por obra de uma silenciosa e eficaz reação da sociedade, que cada vez mais os repele. A verdade é que a sociedade está mudando, como aliás sempre esteve, e essa mudança é para melhor, se considerarmos como ideal o caminho da liberdade, da participação, da autonomia e da felicidade. Não é preciso muito esforço para percebermos a quantidade de associações, grupos, Igrejas, ONGs, sindicatos e outras formas de organização social que se multiplicam com inserção política e social jamais vista. Aos pessimistas, que alegarão que muitas dessas organizações não são sérias, eu peço mais algumas linhas de boa vontade, focando nesse breve momento aquelas que são, e certamente constituem a maioria. Essas organizações sociais diferenciam-se daquelas criadas pelos burocratas desencantados e individualistas porque, normalmente, nascem de necessidades imediatas da população. As pessoas que, normalmente, fazem parte dessas organizações não têm o objetivo de deter o poder da nação ou mudar os rumos da civilização ocidental. São, na verdade, homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e idosos, negros, índios, muçulmanos, cristãos, umbandistas, judeus e hindus, entre outros, que só querem viver de forma mais feliz, respeitando a si próprios para que possam conviver com o outro. Vejamos a luta dos índios, por exemplo. Na imensa maioria dos casos, querem a garantia da reprodução de sua etnia, do direito a continuarem existindo como humanos e não como animais, por isso querem mais do que terra. Quando lutam por ela, não querem apenas o solo e sim o território, com sua história e tradições. A luta pela terra também não é diferente. Mais do que defender ou atacar o capitalismo, aquelas pessoas querem o direito de continuar existindo como comunidades camponesas, pois esta condição mantida significa a perpetuação de uma série de práticas culturais e simbólicas. A força de tais movimentos está no fato de que nascem nas necessidades imediatas, mas as têm em um sentido profundo, simbólico, emocional, muito diferente do racionalismo, materialismo e da falsa consciência de um modelo de cidadão urbano que temos criado e privilegiado. É fundamental não esquecermos que a condição mais concreta da humanidade está em tudo o que o mundo dito esclarecido (e desencantado) considera distante, alheio, alienado, ou seja, tudo o que faz da vida, vida. Esse exercício da organização social, a partir da base local, está crescendo em todo mundo e formando verdadeiras redes de participação. Apesar de todas as tentativas de aferir ideologias, percebamos o caráter genuíno de inúmeras organizações que estiveram presentes no Fórum Social Mundial, por exemplo, bem como suas inter-relações. Parte significativa dos grupos em questão tem em comum não uma ideologia, e sim uma questão de fundo cultural, em uma realidade paradoxalmente cada vez mais multicultural: a luta pela identidade. Diferem os métodos e os princípios, mas o pressuposto básico para a vida desses grupos é o mesmo: reconhecer-se e lutar pela sua perpetuação como grupo, da forma mais profunda, encantada e complexa possível. Antes que tal perspectiva seja chamada de "despolitizada", considero importante uma atenção ao conceito de política. É preciso que o tiremos do monopólio dessa ação do universo da ideologia, dos partidos e do Estado e o percebamos como movimento em rede. Hoje, as diferentes organizações sociais, sem nenhuma engenharia política ou social, dialogam entre si e constituem verdadeiras redes de cidadania, partindo sempre da perspectiva da identidade cultural. É esse conceito de movimento social que quero aqui evidenciar. Ele está fora do partido, fora do Estado, fora da universidade e dos belos debates acadêmicos, mas está em todos os lugares: está na sociedade, na cultura, na vida efetiva das pessoas. À medida em que essas organizações lutam pela sua identidade e mobilizam "seu pedaço", acabam, numa esfera mais ampliada, constituindo-se de forma sólida e multifacetada como movimento social. São, hoje, legítimos e efetivos parâmetros imediatos e comunitários a partir do poder local, neste caso, efetivamente popular. Não há, na atualidade, meio mais eficaz de lutar pela cidadania do que fortalecendo os poderes locais, assim como não há como calcar efetivamente o exercício do poder político, na concepção mais nobre do termo, senão o colocarmos no âmbito do fortalecimento das identidades e no diálogo ético entre todas elas. Por tais evidências é que fundamento meu profundo otimismo nos caminhos que nossa sociedade vem trilhando, apesar de todas suas mazelas. Mais do que nunca é preciso fazer da ação comunitária e do otimismo nossa maior forma de rebeldia, revolucionária e encantadoramente pacífica. Edson Martins é cientista social,
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