Revista "MUNDO e MISSÃO"
Política
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por Costanzo Donegana
O prof. Birnbaum descobre as raízes da política americana na experiência dos primeiros colonos ingleses puritanos que foram para o novo mundo, recusando o velho mundo "não só por causa de seu tradicionalismo esclerotizado, e sim pela sua pecaminosidade, considerada invencível. A comunidade puritana no novo mundo queria ser um novo começo, uma Igreja mais autêntica, e identificava a nova nação como uma nação de redimidos[....] A redenção - frisa o prof. Birnbaum - ficou um tema central da política americana, alimentando-a com um rigoroso absolutismo e justificando, por uma finalidade mais alta, escolhas também bárbaras e abjetas". A dificuldade atual da política americana é antiga: contrastantes projetos de redenção dividem a nação. A conquista do continente e a submissão dos indígenas americanos, a expulsão dos dominadores coloniais europeus foram acompanhadas pela ampliação sem limites da fronteira da recém-nascida nação". E nosso autor conclui, atualizando: "A extensão da soberania moral americana ao resto do mundo invocada pelo presidente George W. Bush, a recusa de seu governo de se sentir ligado às decisões de outras nações e povos, de organismos internacionais que fogem a seu controle, não são absolutamente novos". "A política exterior americana foi e permanece a maneira de levar em frente a política interna com outros meios" e, por isso, as decisões na política exterior nunca foram totalmente coerentes e racionais, dependendo dos acordos e das mudanças dos equilíbrios entre as forças internas. E falta, na consciência coletiva, a percepção disso. Mas existe uma constante, precisa o prof. Birnbaum: "a idéia de que a nação seja como uma Igreja, uma espécie de comunidade 'santificada'", porque foi incorporado o conceito puritano de nação com uma missão a realizar. "O sentimento de separação e superioridade religiosa dos puritanos foi transferido à nação. As outras Igrejas, de qualquer maneira, conseguiram fundir suas tradições, apesar de todas suas diversidades, no reconhecimento da primazia da nação americana."
Nosso autor faz uma leitura dos principais momentos da história americana à luz dessa idéia. Vamos dar só alguns exemplos. A expansão do império comercial americano no século 19 foi acompanhada por uma intensa atividade missionária dos protestantes americanos no mundo todo, que visava à criação de um império espiritual, isto é, a oferta de verdades autênticas e de uma moralidade mais elevada. Durante o período da Guerra Fria, "a 'nação-Igreja' perseguiu o pecado na forma dos Estados comunistas, dos movimentos de libertação nacional e dos neutralistas". Ao lado dos "tolerantes", que eram abertos à análise histórica, nacional, regional e social das condições que explicavam o sucesso dos comunistas, havia os rigoristas, que afirmavam que "o desafio histórico consistia na luta do bem absoluto contra o mal absoluto. Sendo o comunismo monolítico, seus regimes teriam entendido só a linguagem da força e todos os meios para combatê-lo ou miná-lo na base eram justificados". O prof. Birnbaum chega aos últimos acontecimentos: "Quando se verificou o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, a economia tinha começado a diminuir o crescimento[...]. Numa situação de crescente preocupação econômica, o ataque desorientou uma nação que chegou a crer na própria invulnerabilidade. O choque conseguinte, a brutalidade moral e a vulgaridade intelectual da resposta da administração Bush e, sobretudo, o narcisismo histórico das elites e da opinião pública, escureceram a racionalidade e reflexividade americanas. A "Igreja" americana comportou-se como uma seita sitiada". Mas, nem todos nos Estados Unidos estão de acordo com esta política imperialista e "a extrema ansiedade do governo e de seus servidores ideológicos no mundo acadêmico e nos mídia, visando desautorizar a dissensão, antes que se difunda, revela uma forte insegurança". "A campanha militar contra Bin Laden no Afeganistão foi um fracasso total[...] e agora, apontar o objetivo sobre o Iraque é, em parte, uma obsessão familiar dos Bush e, em parte, uma manobra de diversão: uma vitória sobre um inimigo visível deve ser obtida antes da campanha presidencial de 2004." O prof. Birnbaum conclui abrindo para uma possível alternativa. "No protestantismo americano existe um tema constante: o 'pequeno resto', a pequena turma de fiéis que acreditam na redenção, apesar do esquecimento, do laxismo e da corrupção na Igreja mais ampla[....] Muitos cientistas formularam críticas sistemáticas à recusa do Protocolo de Kyoto a respeito do ambiente, por parte do governo. Cientistas e especialistas em estratégia militar uniram-se para apontar os perigos dos novos programas nucleares do Pentágono. As Igrejas alertaram sobre a desproporção na resposta ao terrorismo. Defensores das liberdades civis dirigiram-se aos tribunais para se opor às violações constitucionais do governo a respeito do tratamento reservado aos estrangeiros e aos prisioneiros capturados no Afeganistão e aos detidos na base de Guantánamo." Essas vozes são sinal de algo diferente que pode mudar a linha oficial da política americana, que carece de "uma convincente renovação do projeto internacionalista dos Estados Unidos frente à fome, à pobreza, à guerra e ao totalitarismo[...]Uma violenta reação moral à retórica adolescente do presidente ("Ou estão conosco ou contra nós") é evidente entre as pessoas com formação superior. Talvez, uma nova política de renascença moral, que tire sua força da tradição do movimento abolicionista e da campanha contra a guerra do Vietnã, poderá conquistar uma parte mais ampla da nação". |
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