Revista "MUNDO e MISSÃO"

Política

 

por Costanzo Donegana

eralmente, as análises feitas sobre as posições americanas em âmbito internacional limitam-se à esfera da política. Original, neste contexto, é o estudo de Norman Birnbaum, professor emérito do Departamento de Estudos Jurídicos da Georgetown University de Washington, publicado na revista italiana "Aggiornamenti Sociali" (setembro-outubro de 2002, pp.653-664), que apresenta uma leitura religiosa daquela realidade. Ele começa dizendo que "nenhum país ocidental continua a ser religioso como os Estados Unidos. Porém, grande parte de nossa religiosidade é superficial, ritualizada e estereotipada, sem luminosidade e paixão interior e, sem dúvida, sem generosidade moral. De outro lado, boa parte do esforço enfrentado por essa nação para garantir a cidadania e a dignidade a todos seus membros provém de uma visão social cristã, reforçada pelo judaísmo assimilado pelos calvinistas americanos ou elaborado pelos próprios judeus".

O prof. Birnbaum descobre as raízes da política americana na experiência dos primeiros colonos ingleses puritanos que foram para o novo mundo, recusando o velho mundo "não só por causa de seu tradicionalismo esclerotizado, e sim pela sua pecaminosidade, considerada invencível. A comunidade puritana no novo mundo queria ser um novo começo, uma Igreja mais autêntica, e identificava a nova nação como uma nação de redimidos[....] A redenção - frisa o prof. Birnbaum - ficou um tema central da política americana, alimentando-a com um rigoroso absolutismo e justificando, por uma finalidade mais alta, escolhas também bárbaras e abjetas".

A dificuldade atual da política americana é antiga: contrastantes projetos de redenção dividem a nação. A conquista do continente e a submissão dos indígenas americanos, a expulsão dos dominadores coloniais europeus foram acompanhadas pela ampliação sem limites da fronteira da recém-nascida nação". E nosso autor conclui, atualizando: "A extensão da soberania moral americana ao resto do mundo invocada pelo presidente George W. Bush, a recusa de seu governo de se sentir ligado às decisões de outras nações e povos, de organismos internacionais que fogem a seu controle, não são absolutamente novos".

"A política exterior americana foi e permanece a maneira de levar em frente a política interna com outros meios" e, por isso, as decisões na política exterior nunca foram totalmente coerentes e racionais, dependendo dos acordos e das mudanças dos equilíbrios entre as forças internas. E falta, na consciência coletiva, a percepção disso.

Mas existe uma constante, precisa o prof. Birnbaum: "a idéia de que a nação seja como uma Igreja, uma espécie de comunidade 'santificada'", porque foi incorporado o conceito puritano de nação com uma missão a realizar. "O sentimento de separação e superioridade religiosa dos puritanos foi transferido à nação. As outras Igrejas, de qualquer maneira, conseguiram fundir suas tradições, apesar de todas suas diversidades, no reconhecimento da primazia da nação americana."


Da esquerda para a direita: Tony Blair (Inglaterra), George W. Bush (EUA), Jacques Chirac (França) e Koffi Annan (ONU)

Nosso autor faz uma leitura dos principais momentos da história americana à luz dessa idéia. Vamos dar só alguns exemplos. A expansão do império comercial americano no século 19 foi acompanhada por uma intensa atividade missionária dos protestantes americanos no mundo todo, que visava à criação de um império espiritual, isto é, a oferta de verdades autênticas e de uma moralidade mais elevada.

Durante o período da Guerra Fria, "a 'nação-Igreja' perseguiu o pecado na forma dos Estados comunistas, dos movimentos de libertação nacional e dos neutralistas". Ao lado dos "tolerantes", que eram abertos à análise histórica, nacional, regional e social das condições que explicavam o sucesso dos comunistas, havia os rigoristas, que afirmavam que "o desafio histórico consistia na luta do bem absoluto contra o mal absoluto. Sendo o comunismo monolítico, seus regimes teriam entendido só a linguagem da força e todos os meios para combatê-lo ou miná-lo na base eram justificados".

O prof. Birnbaum chega aos últimos acontecimentos: "Quando se verificou o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, a economia tinha começado a diminuir o crescimento[...]. Numa situação de crescente preocupação econômica, o ataque desorientou uma nação que chegou a crer na própria invulnerabilidade. O choque conseguinte, a brutalidade moral e a vulgaridade intelectual da resposta da administração Bush e, sobretudo, o narcisismo histórico das elites e da opinião pública, escureceram a racionalidade e reflexividade americanas. A "Igreja" americana comportou-se como uma seita sitiada".

Mas, nem todos nos Estados Unidos estão de acordo com esta política imperialista e "a extrema ansiedade do governo e de seus servidores ideológicos no mundo acadêmico e nos mídia, visando desautorizar a dissensão, antes que se difunda, revela uma forte insegurança".

"A campanha militar contra Bin Laden no Afeganistão foi um fracasso total[...] e agora, apontar o objetivo sobre o Iraque é, em parte, uma obsessão familiar dos Bush e, em parte, uma manobra de diversão: uma vitória sobre um inimigo visível deve ser obtida antes da campanha presidencial de 2004."

O prof. Birnbaum conclui abrindo para uma possível alternativa. "No protestantismo americano existe um tema constante: o 'pequeno resto', a pequena turma de fiéis que acreditam na redenção, apesar do esquecimento, do laxismo e da corrupção na Igreja mais ampla[....] Muitos cientistas formularam críticas sistemáticas à recusa do Protocolo de Kyoto a respeito do ambiente, por parte do governo. Cientistas e especialistas em estratégia militar uniram-se para apontar os perigos dos novos programas nucleares do Pentágono. As Igrejas alertaram sobre a desproporção na resposta ao terrorismo. Defensores das liberdades civis dirigiram-se aos tribunais para se opor às violações constitucionais do governo a respeito do tratamento reservado aos estrangeiros e aos prisioneiros capturados no Afeganistão e aos detidos na base de Guantánamo."

Essas vozes são sinal de algo diferente que pode mudar a linha oficial da política americana, que carece de "uma convincente renovação do projeto internacionalista dos Estados Unidos frente à fome, à pobreza, à guerra e ao totalitarismo[...]Uma violenta reação moral à retórica adolescente do presidente ("Ou estão conosco ou contra nós") é evidente entre as pessoas com formação superior. Talvez, uma nova política de renascença moral, que tire sua força da tradição do movimento abolicionista e da campanha contra a guerra do Vietnã, poderá conquistar uma parte mais ampla da nação".

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