| "QUEM VOS RECEBE A MIM RECEBE"
Sérgio Bradanini
Na parte final do grande discurso missionário (Mt 10,40-42), o
evangelista retoma uma dimensão apresentada anteriormente (10,9-10),
frisando, porém, uma nova perspectiva: a atitude dos destinatários
diante dos anunciadores do Evangelho. Naturalmente, podemos constatar
que aqui a comunhão de vida entre Mestre e discípulos alcança
seu ponto culminante. Acolher um mensageiro de Jesus significa acolher
o próprio Jesus e acolher a Jesus significa acolher o próprio
Deus Pai, origem e fonte de toda missão! O círculo está
finalmente completo e termina exatamente onde começou: no Pai.
Neste último texto, os termos acolher e recompensa, repetidos várias
vezes, chamam logo a nossa atenção. Antes de tudo, o termo
acolher deve ser compreendido como a atitude necessária por parte
de quem recebe uma visita. A pessoa acolhedora manifesta abertamente uma
disposição a estabelecer relações novas com
o visitante, em nível de reciprocidade. Aplicando essa atitude
ao âmbito da pregação do Evangelho, acolher significa
ter uma disponibilidade à escuta (Lc 10,16) e aceitar a mensagem
do Evangelho que os discípulos anunciam. Sem dúvida, com
esse termo, o evangelista dirige um apelo à sua comunidade para
que ela seja efetivamente um lugar de acolhida e de reciprocidade para
todos. A base e a fonte dessa dimensão eclesial é o amor
do Pai, o qual evidentemente "quer que todos os homens sejam salvos"
(1Tm. 2,4). Do outro lado, se o anúncio do Evangelho exige pobreza
de meios e muita coragem por parte dos discípulos, exige também
uma opção corajosa e plenamente livre dos destinatários.
E isso não é fácil.
Para iluminar esta situação crítica, pois - como
foi visto acima - o anúncio da Palavra provoca divisão na
humanidade, na família e no coração de cada um, o
evangelista utiliza três categorias existentes em sua comunidade:
profetas, justos e pequenos. Cada um, que pertence a essas categorias,
deve ser acolhido assim como ele é, sem mais nem menos, principalmente
levando em consideração a relação que cada
um vive com Jesus.
Segundo a tradição bíblica, profeta designa uma pessoa
inteiramente dedicada à Palavra de Deus: dela se alimenta e vive,
por ela é capaz de morrer. Para Mateus, todo pregador da Palavra
do Evangelho deve desempenhar a mesma função.
O termo justo, levando em consideração o contexto mais amplo
do Evangelho, chega a indicar para Mateus o escriba cristão, o
qual, mediante sua conduta e exemplo, ensina e transmite a justiça
expressa nas Escrituras (vontade de Deus).
Enfim, a expressão um desses pequeninos indica que qualquer membro
da comunidade eclesial pode e deve ser reconhecido na qualidade de discípulo
de Jesus. Não pode haver relações privilegiadas entre
os membros da comunidade e Jesus, pois todos encontram sua identidade
na pessoa do Mestre.
O termo recompensa, não indica um pagamento por algum serviço
prestado. É preciso lembrar que estamos no contexto de uma visita,
onde as relações são determinadas pela atitude de
gratuidade e de uma possível comunhão de vida na reciprocidade.
Um eventual contexto de relações econômicas está,
portanto, excluído, pelo simples fato de que a recompensa faz parte
da promessa divina, cujo conteúdo essencial é o dom da vida
eterna.
Um gesto tão simples, como oferecer um copo de água a qualquer
um dos membros da comunidade - pelo fato de ser discípulo - se
for realizado gratuitamente, leva ao encontro com o Pai.
Mateus 10,40-42
40 "Quem vos recebe, a mim recebe. E quem me recebe, recebe aquele
que me enviou.
41 Aquele que recebe um profeta, na qualidade de profeta, receberá
uma recompensa de profeta. Aquele que recebe um justo, na qualidade de
justo, receberá uma recompensa de justo.
42 Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca
a um destes pequeninos, porque é meu discípulo, em verdade
vos digo: não perderá sua recompensa".
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