Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

IRÃ: Os estudantes contra a ditadura religiosa

Alberto Garuti

Os estudantes sempre foram o termômetro dos sentimentos do povo em relação aos seus governantes. Eles são sempre os primeiros a manifestar, quando algo não corre bem num país. Aconteceu também em Teerã, no mês de julho e, aparentemente, o governo ganhou. Mas, até quando?

Quando, em 1979, os aiatolás tomaram o poder no Irã, lançaram uma campanha para que as mulheres procriassem muitos filhos de Alá. A população, que era de 34 milhões na época da revolução islâmica, pulou para 66 milhões, hoje, sendo que 65% dela têm menos de 25 anos de idade, um recode no mundo inteiro. Esses jovens formam a população mais instruída do país de todos os tempos, pois o índice de alfabetização nunca foi tão alto, tendo passado de 59 para 82%, nos últimos vinte anos.

Os jovens no Irã

Mas não é fácil ter vinte anos no Irã, hoje: 40% dos jovens estão desempregados e para todos estão proibidas as diversões mais normais e corriqueiras em qualquer país. Reunir-se para tocar música ocidental, por exemplo, pode custar caro, até várias chicotadas; as moças devem cobrir totalmente seu corpo, da cabeça aos pés com o uniforme preto, chamado chador, não podem usar batom, maquiagem nem deixar aparecer uma mecha de seus cabelos. O próprio fato de uma moça ser encontrada num lugar público falando com um rapaz, já levanta suspeitas.
Essa juventude, reprimida mas intelectualmente preparada, está chegando em massa às faculdades, navega na Internet e consegue, clandestinamente, graças às fitas de vídeo, todos os filmes que a censura proíbe nas salas públicas. É uma juventude que vê, que sabe o que os jovens podem fazer em todas as partes do mundo e que não se deixa convencer facilmente pelo moralismo dos pregadores do regime.
O voto desses jovens, junto com o das mulheres, foi decisivo na eleição de Mohammad Khatami, o atual presidente da república iraniana, que se apresentou, no último pleito, como o candidato empenhado em dar um "rosto humano" à revolução islâmica do aiatolá Khomeini e que derrotou, com 70% dos votos, o candidato situacionista Ali Nateq-Nouri.
No mês de julho, a voz dos jovens se fez ouvir muito mais forte: os universitários desfilaram pelas ruas da capital, Teheran, gritando slogans contra o atual governo e pedindo mais liberdade. É verdade que essas manifestações estudantis, que podiam ser o estopim de uma revolução bem maior, foram logo "congeladas", pelas manifestações contrárias, organizadas pelo próprio governo e por uma repressão severa que fez milhares de presos.
Essas contra-manifestações tinham como objetivo provocar, ofender e desafiar os estudantes, fazer com que eles agredissem os que os insultavam, para aumentar ainda mais a situação de caos, o que justificaria a brutalidade da repressão policial que viria em seguida. Mas os estudantes, nos últimos dias, não saíram das faculdades e não responderam às provocações. Limitaram-se a acusar a ala dura do regime por ter tentado provocar toda desordem possível e, assim, ter um motivo para justificar a derrubada ou, pelo menos, o enfraquecimento do presidente Khatami, considerado fraco e incômodo para os conservadores. Para os estudantes, o presidente Khatami é a única chance para a sobrevida, no sistema islâmico, de um regime democrático. Os estudantes foram exortados a continuarem sua luta de protesto, mas somente através de meios pacíficos e legais.
O governo só conseguiu ganhar uma batalha. O tempo parece estar trabalhando a favor dos estudantes e de todos os insatisfeitos que, mais cedo ou mais tarde, irão ganhar sua guerra.

Os aiatolás: piores que o xá

Afinal, esta revolução estudantil que, por enquanto, foi só de uma elite e não assumida pelo povo, não é diferente da revolução de vinte anos atrás, quando o povo se levantou para derrubar a ditadura do xá. Afinal, em 1979, não foram os fundamentalistas que venceram e sim o povo, que queria participação e democracia. Conseguiu isso através dos aiatolás, porque estes eram a única força capaz de fazer frente à ditadura. Mas foi um movimento em si não muito diferente dos movimentos que derrubaram as ditaduras militares na América Latina ou o apartheid na África do Sul. Era o povo que queria maior liberdade.
Mas os clérigos xiitas apropriaram-se da revolução e, em nome do islã, passaram a governar, seguindo os mesmos princípios do governo que eles derrubaram. O povo está conscienti-zando-se e chegando à mesma situação de vinte anos atrás.
Não é só no Irã que o fundamentalismo islâmico está dando sinais de enfraquecimento: isso está acontecendo também em outros países. Na Argélia, o presidente recém-eleito, Abdelaziz Bouteflika, estipulou um acordo com a Frente Islâmica de Salvação (FIS); na Turquia, a facção fundamentalista que estava no poder sofreu uma derrota eleitoral no mês de abril; enfraquecidos estão também os fundamentalistas do Sudão e do Egito.

Os cristãos no IRÃ

Os cristãos no Irã seriam pouco mais de 150 mil, cerca de 0,2 % da população, calculada em 66 milhões de habitantes. Desses, 120 mil seriam armênios, morando quase nos confins entre os dois países. Os católicos seriam somente 13 mil.
Essas minorias não têm vida fácil e são discriminadas, não tendo os mesmos direitos que os muçulmanos. Por exemplo, em caso de acidente ou morte, o seguro paga cem vezes mais aos parentes da vítima muçulmana que aos da católica. Quando um cristão se converte ao islã, ele se torna o único herdeiro de todos os bens de sua família cristã. A discriminação no que diz respeito ao emprego é comum e constante: os muçulmanos são sempre favorecidos.

Os que se convertem do islã para o cristianismo estão sujeitos à prisão, tortura e execução simulada. A respeito disso, testemunha um pastor protestante: "Exerci meu ministério clandestino no meio de um grupo de muçulmanos convertidos. A polícia me proibiu de deixar a aldeia, durante cinco anos. Um dia, quatro policiais armados chegaram à minha casa: fizeram-me perguntas, vendaram-me os olhos e levaram-me, algemado, num carro particular, ao cárcere de Tabriz. Lá, me deram pontapés, acusaram-me de ser espião do mundo ocidental, de trabalhar contra o regime iraniano e me jogaram numa cela especial, subterrânea, sem janelas. Apresentaram-me uma lista de pastores, pedindo-me que escrevesse acusações ao lado de cada nome, mas eu escrevi só elogios. É muito arriscado receber Bíblias do exterior.
Uma lei de 1966 estabelece que um cristão que recebe dinheiro dos EUA, certamente, será espião e, portanto, pode ser condenado à morte".

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