Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

Luzes Ofuscadas

Laila Ayoub

Guardando o necessário anonimato e com as devidas adaptações, o relato que publicamos é real: a trajetória de uma muçulmana que não deixou que o véu se transformasse em algemas

Ser mulher é difícil em qualquer cultura. Ainda. Mas torna-se ainda mais difícil, quando se trata de ser mulher em uma comunidade islâmica que imigrou para um país ocidental.
Esse é o caso de Nura, jovem nascida no Brasil, cuja família veio do Marrocos. Todos são muçulmanos sunitas, mas com uma mentalidade considerada ortodoxa pela jovem que, desde pequena, conviveu com os valores ocidentais que recebia da mídia, dos vizinhos, do meio em que sempre viveu.
Nura também chegou a conhecer valores orientais, de várias formas. Esses, entretanto, não foram totalmente incorporados. Podem ser atribuídas razões as mais diversas para tal, dentre as quais a violência física que sofria desde pequena, justificada como forma de "disciplinamento", "para seu próprio bem", segundo o pai, e ainda a rigidez das normas que lhe eram impostas e cobradas, porém nunca explicadas, como o fato de ter de usar chador num país tropical (costume a que ela raramente obedeceu).
Contudo, Nura admirava muito a dança, a arquitetura, a poesia de muitas das histórias que seus avós contavam, os docinhos açucarados e o pão, as paisagens que os pais mostravam em fotografias... O Oriente e a cultura árabe eram algo tão incorporado que sentia como se traísse a si mesma ao ter raiva dos preceitos da religião. Era uma grande contradição para a menina que chegara a preferir não se questionar tanto e aceitar passivamente como tantas de suas amigas faziam. Elas sofriam menos, pensava ela.
Conforme a infância ia se afastando, os questionamentos de Nura começavam a ficar cada vez mais inquietantes e, o que é pior, a serem ouvidos e a incomodar. Nem todos aqueles docinhos apagavam a mágoa que a jovem criava por não poder conversar normalmente com outros rapazes, por ser marginalizada por muitos colegas de escola e de bairro, por ser condenada aos serviços domésticos e subestimada por não passar de uma "mulherzinha" - pior que ignorada por ser mulher era ser desrespeitada por ser jovem. Nura odiava o rótulo de "exótico" atribuído a tudo que advinha do Oriente, sobretudo ao que pertencia à cultura de seus pais e que, de certa forma, também era sua.
O que mais a magoava era ter de constantemente estar brigando para continuar estudando. Seus pais - e sobretudo os amigos deles - consideravam desnecessário uma menina estudar. Sem perspectivas de vida, as mulheres de sua cultura estavam fadadas à "escola do lar", porque era inútil adquirir uma sólida formação intelectual, se o que lhes seria cobrado era a subserviência e os atos mecânicos de limpeza da casa e cuidados com a prole. Mas tudo isso, pensava ingenuamente Nura, era questão de tempo para fazê-los ver que não se tratava de algo inútil. Perseverante, nunca desistira de abrir-lhes os olhos. Isto é, até o dia, em que se deparou no espelho com a imagem desiludida de uma jovem tirada da escola, prestes a se casar com um rapaz do qual não gostava e cercada de pressões por todos os lados. Não era a primeira que isso acontecia e nem todos eram questionadores o suficiente para discordar de tal situação. Contudo, a revolta da jovem advinha do fato de ter descoberto que pouquíssimo daquilo que vinha acontecendo consigo estava fundamentado na religião e que quase todos os amigos de seu pai não apenas consideravam inútil sua educação, como perigosa.
Mas ela criava esperanças e sonhava ocupar um importante cargo de chefia num lugar quase que estritamente de homens. E queria fazer Medicina. E então vinha novamente a crise de consciência: não podia amar esse mundo, sofrendo tanto por sua causa. Nura não compreendia por que tinha de lutar tanto para continuar estudando. Como os árabes, cuja cultura florescia e iluminava o restante do mundo na Idade Média, pode condenar suas mulheres ao fogo e obscuridão eternos? Com ou sem resposta não iria se resignar. Também ela era fogo, era luz para iluminar toda aquela obscuridão.
Tentou aproximar-se de sua mãe que não ficou imediatamente comovida, embora não fosse a primeira queixa de Nura. Mas a ouviu, como tantas outras vezes. Contou que também tivera sonhos quando jovem, mas foram passageiros. "Logo as pessoas se acostumam", dissera-lhe a mãe. Inútil. Nura não se acostumaria. Contou a ela que escolhera seu nome porque estava numa situação difícil, casada há certo tempo mas sem filhos, sem dinheiro, mudando-se de país e com um bebê que nasceria em breve. Assim, quando a menina nasceu (o que não agradou muito ao pai que queria um primogênito) deu-lhe este nome: luz. Sim, Nura, em árabe, significava luz. E ela de fato representava uma espécie de chama que iluminava e flamejava de ansiedade, de vontade de viver.
A mãe sentia o potencial a filha, mas não podia concordar. Embora não fosse o que se pode chamar de realizada, fora-lhe ensinado que era assim que seria. A felicidade não deve ser almejada pela mulher, há sempre um limite. Claro que não usaram estas palavras, sequer chegaram a pronunciar algo nesse sentido. Tal norma fora-lhe ensinada com outros exemplos, atos cotidianos, castigos. Provavelmente, por isso a lição estivesse tão marcada naquela mulher. E a mãe de Nura chegou a insinuar que a menina queria continuar a estudar para conviver com algum homem em especial.
O contato masculino sempre fora um problema nesta cultura. Em todos os lugares homens e mulheres eram separados, não havia manifestações públicas de afeto entre casais. O único lugar em que Nura via os dois sexos juntos, fossem unidos ou competindo, era de fato a escola. A relação com garotos era tida como desonra na grande maioria dos casos, ensinaram-lhe seus pais. E como forma de intimidamento, relembravam diariamente a história de sua prima que recebera, como castigo pela "desonra", a morte, provocada pelos próprios familiares. Ela iria esperar até o dia do Juízo Final para receber o verdadeiro castigo de Deus, eles diziam. Nura recebia um tapa na boca toda vez que questionava se os responsáveis pelo assassinato não queriam igualar-se a Deus ao antecipar o castigo.
Daquela vez sua mãe não a agrediu. Talvez porque já não fizesse mais efeito, bem sabia. Ou mesmo por já estar cansada. Mas, provavelmente, porque Nura perguntou-lhe se estava feliz com sua vida e amava aquele homem que tanto a maltratava.
O que a isso sucedeu os leitores já devem imaginar, posto que a história das mulheres vem, com pouquíssimas mudanças, se repetindo geração após geração. O que não devem imaginar, entretanto, é que a mãe resolveu enfrentar seu pai, o restante da família e da comunidade. Fugiu com a filha para outra cidade, onde trabalhou para sustentá-las e onde a menina terminou o Ensino Médio e começou a faculdade de Medicina. Apanhou do marido, sofreu ameaças da família mas dessa vez, ao menos, sentia que o esforço traria frutos. E trouxe: Nura, seu motivo de sofrimento e luta por tantos anos, conseguiu se formar e realizar seu sonho: é chefe de departamento do hospital em que trabalha.
A história de Nura tornou-se conhecida para muitas outras jovens, por mais que os pais tentassem escondê-la. Acabou transformando-se numa espécie de lenda, conto de fadas moderno. Mas foi dessa forma que a luz de Nura conseguiu iluminar uma série de outras vidas. Finalmente, teve uma filha, mas por opção própria, com a pessoa que queria e no momento em que considerava mais oportuno. Poderia ter dado à filha um nome que lembrasse sofrimento, mas preferiu chamá-la Vitória. Em português mesmo.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar