Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Budismo

TAILÂNDIA: Monges budistas e corrupção

Alberto Garuti

O budismo é, praticamente, a religião de Estado da Tailândia. Difícil encontrar um tailandês que não seja budista. Mas é justamente nesse ambiente que vêm surgindo fortes suspeitas
e graves acusações de corrupção

A Tailândia assumiu este nome somente em 1939. Antes se chamava Sião. O novo nome quer dizer "terra dos homens livres". Foi o único país da Ásia que, nos tempos modernos, conservou sempre sua independência e nunca entrou em guerras. Também foi o único país do sudeste asiático que não foi colonizado pelos europeus e que não deixou suas tradições serem diluídas pelas ocidentais.
Ser tai significa ser budista: somente os estrangeiros podem ter outra religião. A maioria dos católicos desse país, com efeito, é de origem vietnamita, chinesa ou vem das tribos das montanhas, que são de outras etnias.
O budismo na Tailândia aproxima-se, em muitos aspectos, do cristianismo, pelo profundo sentimento de dedicação ao próximo e por ter dado início a muitas obras sociais. A doutrina tradicional foi reinterpretada por Buddhadasa, morto em 1994, numa ótica moderna. A reencarnação, por exemplo, já não é entendida como uma série de novos nascimentos, mas como uma revitalização da pessoa, um amadurecimento no decorrer da vida atual. A salvação já não é entendida como conseqüência de certos ritos executados ou das ofertas feitas aos monges, mas da conversão da pessoa e da anulação do egoísmo de cada um.
A religião ocupa todos os espaços da vida na Tailândia: o monge é visto em toda parte. Há cerca de 30 mil mosteiros no país e mais de meio milhão entre monges e noviços. A condição de monge pode ser temporária e, de fato, o é em muitos casos: muitas pessoas, ao atingirem 21 anos de idade, passam por essa experiência.
Os fiéis fazem questão de oferecer alimento aos monges e muitos monges sobrevivem aceitando apenas o alimento dos fiéis, o que aproxima muito o budismo do povo. Os monges estão sempre presentes nas funções públicas para benzer novos ambientes e atividades; participam dos enterros e se tornam conselheiros das pessoas em todas as suas dificuldades.
Os monges, ou bonzos, têm um lugar especial na sociedade tailandesa, são estimados e reverenciados, independentemente de sua vida ou grau de instrução. Todos podem ser monges, mesmo por alguns dias. Porém, enquanto o forem, devem seguir o regulamento rígido do mosteiro. Nos aeroportos, nas salas de embarque, é possível encontrar algumas cadeiras vazias com o letreiro "Reservado aos monges", para evitar que alguma mulher vá sentar-se perto de um bonzo.
Podemos dizer que cultura tailandesa e budismo praticamente se confundem.

Críticas e acusações contra alguns monges

Mas, ultimamente, a situação entre monges, governo e povo tem-se complicado bastante. No dia 29 de maio, em Bangcoc, capital do país, a polícia dispersou 50 mil manifestantes que se reuniram diante do templo Dhammakaya, em apoio aos monges lá residentes. Sobre esses monges pendem graves acusações como ter acumulado bens pessoais avaliados em mais de um bilhão de dólares, frutos das ofertas dos fiéis, durante mais de 30 anos. Os monges desse templo formariam uma seita que tem ramificações no mundo inteiro e que, ultimamente, andaria espalhando histórias de milagres para aumentar a arrecadação. O inquérito policial em andamento contra os monges provocou um profundo exame de consciência em todo o budismo tailandês.

Pequeno rebanho, grande sinal

Em termos numéricos, os católicos tailandês são uma minoria insignificante: pouco mais de 200 mil,representando 0,43% da população. Apesar de ser um pequeno rebanho, sem perspectivas de aumentar, visto o profundo enraizamento do budismo na cultura do país, não deixa de ser um verdadeiro fermento na massa. Por exemplo, 1989, a Conferência episcopal fundou a Sociedade Missionária das Missões Exteriores, cujos membros, sacerdotes ou leigos, são exlusivamente missionários além-fronteiras. O primeiro envio foi em 1993, para o Camboja.

O mal-estar no budismo tailandês

Não é só entre os monges do templo Dhammakaya que se vive essa situação de mal-estar. Ela é característica, hoje, de todo o budismo tailandês. É difícil dizer como se chegou a esse ponto e como sair dele. Muitas foram as causas que contribuíram para criar essa situação:

· a interferência do governo, que exerce um controle violento e agressivo sobre tudo o que se refere à religião. Os monges aprenderam a não reagir, por medo; deixaram de ter contato com os habitantes das aldeias e vivem controlados pelos ricos e os políticos;
· a hierarquia dos monges não se atualizou, manteve as mulheres sempre marginalizadas, não tomou posição sobre graves problemas e preferiu ficar calada;
· os monges, incapazes de pensar por eles mesmos e de agir de maneira responsável, tornaram-se executores de ordens dos poderosos;
· um sistema educacional ultrapassado, que remonta ao começo do século; os monges dirigentes têm medo de toda novidade que eles não possam controlar;
· o apego ao dinheiro que está levando a uma corrupção generalizada; ainda que alguns continuem seguindo os princípios do budismo quanto ao desapego dos bens materiais, muitos já possuem polpudas contas em bancos.

Com essas premissas, não causam surpresa as acusações de corrupção contra os monges. Aliás, numa situação como a da Tailândia, toda e qualquer religião descambaria para o conservadorismo, a observância puramente exterior e a perda de seus verdadeiros ideais.

Tailândia

· Superfície: 513.000 km2
· População: 59.000.000
· Taxa de Alfabetização: 93%
· Esperança de Vida: 68 anos
· Capital: Bangcoc (6,5 milhões)
· Língua: Tai
· Forma do Governo: monarquia constitucional
· Religiões: Budismo: 94% - Islamismo: 4% - Animismo: 1% - Cristianismo: 1% (os católicos são 0,43%)

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