Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiosidade Popular

O aprendizado de Compostela

Lúcia A. de Oliveira Ribeiro

Cada passo no Caminho de Santiago é uma oportunidade para o peregrino se conhecer mais e se relacionar com os outros de forma mais fraterna e solidária. Cada passo é um exercício de reflexão consciente e de persistência

Percorri o caminho durante os meses de abril e maio de 1999. Movida pela fé, fui só, buscando um encontro com Deus. Caminhei durante 35 dias, desde Roncesvalles, próximo à fronteira com a França. Atravessei diferentes províncias no norte da Espanha, seguindo a direção leste-oeste, até chegar a Santiago de Compostela. Andei sobre os passos de reis, santos, comerciantes e outros peregrinos que, desde a Idade Média, seguem o mesmo percurso. Vi o registro de séculos de história em pontes, catedrais e outras obras de arte. Senti o vento, a chuva, os encantos e a força da natureza. Continuo caminhando, agora com mais fé. Quando penso como estou longe do que pretendo alcançar em minha trajetória de vida, procuro me lembrar de como parecia difícil caminhar quase 800 quilômetros até Santiago!

São Tiago de Compostela

Segundo a tradição, após a morte de Jesus, são Tiago saiu de Jerusalém e foi de barco até a Galícia, na Espanha. De volta à Palestina, foi morto e decapitado com uma espada, por ordem do rei. São Tiago foi o primeiro dos apóstolos a sofrer o martírio em nome da fé. Acreditam que seu corpo foi levado de volta à Galícia por discípulos. Alguns séculos após a invasão da península ibérica pelos muçulmanos, a tumba de são Tiago foi encontrada. Segundo a tradição, no início do século IX, luzes no céu chamaram a atenção de um eremita. No lugar indicado pelas luzes, foram encontrados os restos mortais do apóstolo e de dois de seus discípulos. Com a ajuda do rei, foi construída a primeira igreja no lugar que passou a ser chamado de Campus Stellae (Campo da Estrela), hoje Compostela.
O auge da peregrinação a Santiago aconteceu nos séculos XI e XII. Nessa época, peregrinos de toda a Europa se dirigiram a Compostela. As vias mais freqüentadas passaram a ser conhecidas como Caminhos de Santiago.
Com exceção dos caminhos desde Portugal e regiões da Espanha, todas as rotas terrestres, que partiam da Europa, convergiam para a França, passagem obrigatória para a Espanha. Quatro rotas principais conduziram os antigos peregrinos, desde a Europa central. A primeira rota passava por Tolosa e cruzava as montanhas dos Pirineus por Somport. As outras três rotas chegavam até a Espanha por Roncesvalles. Os ca-minhos de Somport e Roncesvalles convergiam em Puente la Reina, constituindo, a partir daí, um caminho só até San-tiago de Compostela. Esse trajeto é chamado de "caminho francês", seguido pela maior parte dos peregrinos contemporâneos.
Seguindo uma rota que é considerada patrimônio histórico cultural, peregrinos com crenças, culturas e diferentes histórias de vida caminham juntos, convivendo e trocando experiências. Muitos procuram resgatar valores essenciais para a vida e também se aproximar de Deus. Muitos procuram uma perspectiva mais ampla para a compreensão da realidade, além do imediatismo de uma visão de mundo baseada no consumo e na competição.

O encontro com Deus

Achei que ia caminhar só, com Deus, e encontrei Deus em muitas pessoas. Não me senti só. Fiquei sensibilizada pelos cuidados e o amor dos que trabalham nos albergues de peregrinos, os hospitaleiros. Na Idade Média, os peregrinos recebiam abrigo nos hospitais que davam assistência aos enfermos e também aos velhos, pobres e necessitados. Os hospitaleiros de hoje seguem uma tradição que vem desde a Idade Média, quando a Igreja e depois monarcas, nobres, cidades e particulares fundaram os hospitais. Na essência, receber o peregrino continua sendo um exercício de caridade.
A forma de relacionamento sincero e cooperativo, que todos praticamos no caminho, é um dos tesouros que encontramos: o espírito do caminho. Todos zelamos por esse espírito e nem sempre é fácil a convivência tão próxima entre pessoas tão diferentes. Muitas vezes, estamos diante do nosso egoísmo, cansaço e da não aceitação do outro.
No caminho, as diferenças são menos importantes diante do objetivo comum: chegar a Compostela. No caminho, sentimos que somos todos iguais. Os contatos são intensos. As pessoas tendem a se mostrar mais, a se abrir e se conhecer com mais facilidade. Caminhando, o peregrino deixa para trás hábitos e condicionamentos. Junto com o peso da bagagem que decide não carregar, o peregrino abandona idéias, sentimentos e formas que não servem mais. Nem sempre isso é fácil.
Desde que voltei de Santiago, tenho procurado viver de forma mais solidária e cooperativa, compartilhando abertamente meus sentimentos, atenta ao propósito inicial de cada movimento que faço. Tenho procurado valorizar, de forma prática, o trabalho com o objetivo de servir ao outro, com amor, além das re-gras do dinheiro. Continuo aprendendo como fazer escolhas conscientes, saindo da acomodação, para me expressar, cada vez mais, na direção do que acredito.
Essa é uma etapa nova da minha vivência cristã, um passo em direção a Deus e a um compromisso mais profundo com a fé católica. Estou percebendo melhor como a fé e a religião se expressam em ações que atendem às necessidades do ambiente em que vivemos. Caminhando, com a confiança de que cada passo é importante, em determinados momentos, estou diante de todos os meus fantasmas e conflitos não resolvidos. Muitas vezes, percebo que o caminho se abre com o ritmo dos meus passos. Sei que o caminho é tão importante quanto o objetivo a ser alcançado.
Isso eu aprendi indo a Santiago de Compostela.

A autora escreveu: "Histórias de uma peregrina - Santiago de Compostela e outros caminhos".
Telefone para contato: (0xx) 11 211-3199

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