| A Congada: da religião e folclore
Maria José de Deus
Dança com característica africana, a Congada mescla elementos
religiosos e históricos, resistindo ao tempo graças à
devoção passada de geração em geração
pelo povo caiçara
Ao som da marimba, e na luz do sol ardente que cintila sobre o mar azul
de Ilhabela, cidade turística do litoral norte de São Paulo,
acontece a Festa de São Benedito, cujo ponto alto é a Congada.
Teatro de origem bantu, a homenagem ao padroeiro do povo negro, é
também realizada no interior de São Paulo e Minas Gerais.
Em Ilhabela, ela apresenta certas peculiaridades, e é exibida todo
o ano no terceiro domingo de maio.
"Esta é uma manifestação religiosa e folclórica
muito importante para a Ilha, e só existe pelas promessas dos congueiros
e seus familiares, que vão passando a devoção de
geração em geração. Contudo, está sendo
necessário realizar um trabalho de conscientização
entre crianças e jovens nas escolas", revela Iracema França
Lopes Correia, pesquisadora do folclore da cidade, e autora do livro A
Congada de Ilhabela na Festa de São Benedito.
A encenação nas ruas chama a atenção de turistas
e estudiosos para a riqueza religiosa, cultural e histórica. "Há
50 anos, vinha gente de todas as imediações para participar
da festa, e a Congada chegava a ter cerca de 100 integrantes", relembra
Lecy Nair de Oliveira Santos, 64 anos, que prepara comida na Ucharia,
palavra que significa "despensa da casa real", e designa o local
onde é servido o almoço durante os dias dos festejos para
os congueiros e convidados. Desde os cinco anos, Lecy acompanhava a avó,
e recorda que o avô, obedecendo a um costume antigo, doava animais
e alimentos para o almoço. "Hoje, os meus filhos e netos não
demonstram interesse pela tradição", lamenta. Naquele
tempo, a Irmandade de São Benedito era responsável pela
organização de novenas, tríduos, procissões,
missas e quermesses. Hoje, as celebrações na igreja ficam
por conta do padre José Brahmakulam Chacho, missionário
indiano que conta com a ajuda dos paroquianos.
Ainda que alguns pensem que daqui alguns anos tudo possa acabar, em vista
do desinteresse e da influência de outros meios culturais, os sinais
ainda são animadores. São Benedito é também
responsável pela miscigenação e renovação
dos congueiros. Dos cerca 45 participantes atuais, 90% são gente
jovem e crianças de até 3 anos de idade, afro-descendentes,
caiçaras e brancos.
Por exigência e fidelidade, eles só dançam na cidade.
"Não apresentamos fora daqui, porque acreditamos que a Congada
perde suas características originais, e pode até acabar
como aconteceu com a de São Sebastião exibida fora da Festa
de São Benedito", explica José Ribeiro dos Santos (Zé
de Alício), que aos 67 anos dança como se estivesse com
10. Junto com Benedito Hipólito de Carvalho ( Dito), 70 anos, que
faz o papel do rei, ele é exemplo para os mais jovens.
"Meu avô era italiano e minha avó negra, ambos trabalhavam
intensamente durante a festa. Além do cumprimento da promessa de
meus pais, emociono-me participando da missa, da procissão, vendo
a imagem de São Benedito e a devoção dos mais velhos,
principalmente do Zé de Alício e do Dito", revela Gilmar
Gomes Pinna Jr, 17 anos. Ele é morador da Ilha, prepara-se para
o vestibular de publicidade, freqüentando cursinho em São
Paulo, e não deixa de participar da Congada como fidalgo.
Confraternização
A festa começa sempre na sexta-feira com o levantamento do mastro
em frente à igreja de Nossa Senhora d'Ajuda, padroeira da cidade.
Nessa tarde há repique de sinos, são soltos fogos, e é
servida a consertada, uma bebida caiçara à base de pinga,
açúcar, canela e cravo socados.
Além de incorporar referências sobre a guerra entre mouros
e cristãos, o enredo apresenta o desentendimento entre os dois
grupos que desejam homenagear São Benedito. O embaixador mouro
e pagão com seus congos de baixo, declara guerra ao rei cristão
e seus fidalgos, também chamados de congos de cima ou vassalos.
O desenrolar dos acontecimentos, durante os bailes, é marcado pelos
ritmos da marimba e atabaques, e pela beleza das danças, executadas
com virtuosismo pelos congueiros, que ainda mostram habilidade com espadas,
e na declamação de embaixadas - versos falados diante do
rei em louvor ao santo.
A narrativa carregada de lirismo nas falas e melodias, soa como uma reza,
um louvor e, às vezes, como um lamento dirigidos também
à Virgem Maria e ao Menino Jesus.
No sábado, os fidalgos com trajes de cetim azul, tendo à
frente o rei e a rainha se dirigem à igreja para buscar o andor
de São Benedito. Carregam-no pelas ruas do centro em procissão,
fazendo a meia lua e entoando: "Senhora Sant'Ana, Santa Luzia (2x).
Dai-me o louvor a Virgem Maria. Hoje é nosso dia" (2x). Eles
são acompanhados de longe pelos congos de baixo que vestidos de
cetim rosa também executam passos de dança em direção
ao cortejo. Logo a seguir, começa o primeiro baile, chamado de
Macambá, uma cantiga dos congos de baixo em preparação
para a guerra. O segundo baile é o Alvoroço ou Jardim das
Flores, marcado pelo ritmo intenso dos instrumentos, determinando o ápice
do conflito. No domingo, há o desfecho no terceiro e último
baile, também chamado de São Mateus. O personagem é
preso, se identifica como filho desaparecido do rei, e eles fazem as pazes.
"Isto acaba acontecendo na vida real com muitos congueiros que por
algum motivo não se falavam. Durante e no final da festa, todos
se abraçam comovidos como numa irmandade", observa Rosângela
Aparecida Lacativo Pinna, mãe de Gilmar e de Baepi Lacativa Pinna,
8 anos que interpreta o cacique do rei.
Original da Ilha
Segundo os congueiros, somente na Congada de Ilhabela é utilizada
a ma-rimba, instrumento de percussão confeccionado com madeira
de lei, e seis cuias, originárias de uma planta nativa encontrada
nos quintais de algumas casas da cidade. As cuias são acopladas
entre tábuas em formato de hexágono, resultando num som
original, que marca a ação durante os bailes.
Embaixadas
Soberano rei de Congo,
vai-se o dia, vem-se a noite
resplandece a clara luz.
Devemos dar louvor
à gloriosa Santa Cruz.
Vai-se a noite, vem-se o dia
resplandece a clara luz,
também brilha Sant'Ana
com sua filha Maria.
Soberano Rei de Congo,
São Benedito lá no céu
é um santo verdadeiro.
No reino de sua glória,
de Deus ele foi cozinheiro.
Sendo ele cozinheiro,
porque foi merecedor
dos pães que dava
aos pobres na cesta
tornou-se flor.
As flores eram brilhantes
mais lindas que a luz do sol.
Mas brilha São Benedito
no seu império maior.
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