Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiosidade Popular

Considerações sobre o perfil religioso
da metrópole de São Paulo

No dia 8 de dezembro de 2003, a Folha de São Paulo publicou algumas considerações sobre o perfil das religiões da capital paulistana, dando uma visão mais adequada da realidade religiosa da megalópole. As considerações partem dos números do censo 2000, mas, para entender a causa da “migração” entre as várias religiões, foi considerada uma pesquisa, publicada na Internet, elaborada pelo professor da Escola de Sociologia e Política, Ronaldo de Almeida, e alunos de Centro de Estudo da Metrópole.

por Ernesto Arosio

AS TRANSFORMAÇÕES SOCIOPOLÍTICAS

os últimos decênios, o Brasil passou por profundas transformações sociopolíticas e religiosas. Entre as várias causas, colocam-se as correntes de migrantes do norte para o sul, com o inchaço dos grandes centros urbanos e, conseqüentemente, o crescimento das favelas. Isso se repercutiu em todos os campos da vida individual e social e também no campo religioso, gerando mudanças que, à primeira vista, podem parecer até uma recusa da religião tradicional, a católica, para outras expressões religiosas. Fenômeno puramente religioso ou fenômeno social e religioso?

O ambiente novo e a falta de um conhecimento profundo da religião tradicional provocaram deslocamentos massivos de uma forma religiosa para outras. Esse deslocamento é definitivo ou temporário? Pelo censo de 2000, realizado no território nacional, os católicos declarados eram 73,7%, os evangélicos, 15,4% e os sem religião, 7,3%. Em 1990, os católicos eram 83%, os evangélicos, 6,6% e os sem religião, 4,73%. O catolicismo, como grupo, está se debilitando na sociedade brasileira e não é mais o eixo da organização social e mentor da ética.

Cresce uma busca mais emotiva da fé e da religião, seja nos evangélicos pentecostais como na renovação carismática católica. Aumentam também os que se declaram sem religião que, não necessariamente, são pessoas que negam a religião, mas que, talvez, não se encontram nas religiões constituídas ou possuem o sentimento de algo superior com o qual, da sua maneira, se relacionam livremente. A inclusão na categoria “sem religião” deveria ser melhor indagada.

A MIGRAÇÃO ENTRE AS RELIGIÕES

Outro fator, que aparece claramente nas pesquisas, é a mobilidade entre as religiões. No estudo do Cem – Centro de Estudos da Metrópole – sugere-se que, nos últimos anos, uma entre três pessoas já mudou de religião. Isso pode revelar que a religião se tornou um bem de consumo, emotivo, que interessa em determinado momento e não em outros.

Não é mais uma crença em princípios superiores, profundamente arraigados nos homens, conferindo-lhes uma estabilidade de comportamento ético e moral. Quem mais fornece fiéis que migram para os evangélicos e aos “sem religião” é o catolicismo, embora permaneça ainda a religião de três quartos dos brasileiros. Isto tem reflexos na vida individual, social, política e cultural, até hoje, imbuída de catolicismo, e se repercute em nível nacional: o país se tornou multirreligioso.

Os que permanecem fiéis a sua religião tradicional – catolicismo – estão tomando maior consciência de uma religiosidade mais viva e profunda, não se limitando aos rituais tradicionais que marcavam a cultura familiar brasileira até agora: batismo e casamento, missa de sétimo dia, de formatura, bênçãos em acontecimentos civis ou símbolos nacionais. Se a Igreja perde batizados, geralmente não praticantes, reconquista, embora em mínima parte, fiéis de outras religiões e carismáticos, especialmente nesses últimos anos.

GRUPOS SOCIAIS E RELIGIOSIDADE

Para melhor entender o fenômeno da migração religiosa e para descobrir as causas mais profundas, o Centro de Estudo Metropolitano subdividiu as realidades sociais do contexto da metrópole paulista que, não somente perdeu a homogeneidade, mas se tornou cosmopolita.

PENTECOSTAIS

Uma análise desses quadros permite realçar algumas considerações. Os pentecostais crescem entre as camadas socialmente mais vulneráveis, isto é, nas periferias e favelas, e diminuem onde há melhoria de padrão de vida. Entre eles, pela situação econômica precária que os rodeia, se desenvolve uma forte corrente de solidariedade em favor da valorização dos membros da comunidade, da amizade e interajuda. Outro fato significante é que eles se chamam “irmãos na fé” e esta irmandade espiritual pode se tornar mais forte, transformando-se num parentesco de sangue pelos freqüentes casamentos na mesma comunidade.

Onde existem estas comunidades pentecostais forma-se também uma rede de proteção contra a marginalização e o crime através de atividades culturais, educativas e de lazer. A Assembléia de Deus, a Igreja evangélica com maior número de adeptos no Brasil, dos quais 400 mil na cidade de São Paulo, propaga-se e estrutura-se sobre uma rede familiar de fiéis. Possui tradições fortes como os trajes modestos e cabelos compridos para as mulheres, a proibição de bebidas alcoólicas e a família, com bíblia na mão, freqüenta, unida, os cultos dominicais.

Em algumas regiões de São Paulo, o crescimento deste tipo de evangelismo foi superior a 30%, entre 1991 e 2000. O ramo do neopentecostalismo mais recente prega, ao contrário, a “teologia da prosperidade” assumindo, praticamente, o neoliberalismo dominante na sociedade moderna. A finalidade dessas Igrejas é a busca do bem-estar terreno, sem preocupações com o além. O abençoado por Deus é o bem-sucedido materialmente nesta vida. O exemplo inovador dessas Igrejas é a Igreja Universal do Reino de Deus que age movida por um forte modelo de marketing.

A implantação dos grandes templos e sua imponência nas vias principais da cidade, longe das áreas pobres e perto de lugares de grandes movimentos de massas é somente estratégia de marketing. Apesar da grande publicidade, ocupa somente o terceiro lugar na classificação das Igrejas pentecostais no Brasil.

CATOLICISMO

As paróquias católicas, historicamente situadas no centro dos bairros, têm, nos lugares pobres como favelas e periferias, centros comunitários que servem para a prática religiosa e social da comunidade, lugares de cultos, centros de assistência social, mas não têm uma presença estável e continuada de sacerdotes e ministros.

Nos anos 70, nesses lugares, foi muito forte, a presença das comunidades de base, as Cebs, produto da Teologia da Libertação, muito politizadas, que se fortificaram em lugares de emergência social e assustaram fiéis e hierarquia, criando uma separação virtual na Igreja paulista. A Renovação Carismática Católica de hoje é uma forma de despolitizar a religião e se contrapor à expansão da religiosidade neopentecostal ou carismática dos evangélicos.

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