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Irmandade: devoção histórica
de homens e mulheres pretos
Maria José de Deus
Com quase três séculos de existência, a Irmandade
do Rosário dos Homens Pretos é uma referência para
movimentos de consciência negra, porque apresenta uma tradição
religiosa que remonta aos tempos dos primeiros escravos
Erguida em estilo colonial, no centro de São Paulo, a igreja do
Rosário chama a atenção por preservar uma história
de fé e resistência, marcada pela presença da Irmandade
de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
A entidade, criada em 1711 para abrigar a religiosidade do povo negro,
impedido de freqüentar as mesmas igrejas dos senhores, resiste à
urbanização, mantendo em seu calendário uma devoção
secular a Nossa Senhora do Rosário. São realizadas procissões,
novenas e rezas do terço, despertando o interesse dos que transitam
pelas proximidades das avenidas São João e Rio Branco.
Instalada no Largo do Paiçandu, a Irmandade sofreu as agruras de
ver sua primeira igreja, na Praça Antônio Prado, construída
em 1725 com a arrecadação de doações e esforço
dos malungos (irmãos), ser demolida para dar lugar a projetos de
urbanização da Província.
Os negros conseguiram manter relativo patrimônio ao redor dessa
igreja: casas simples serviram para atividades religiosas, acolhimento
dos alforriados e a administração da Irmandade, composta
de diretoria e mesários.
Hoje, esse estilo permanece nas dependências da igreja que, por
ser capela, está sob a jurisdição da paróquia
de Santa Ifigênia e responsabilidade do capelão Lázaro
Fernandes.
No subsolo fica a mesa administrativa, onde os irmãos se encontram
para a celebração da missa de domingo, para confraternização
e para a distribuição mensal de cerca de 150 cestas básicas.
Eles vivem esses momentos agradáveis e de decisões em meio
a recordações, mantidas num acervo de pinturas, ilustrações,
fotografias, imagens e documentos que trazem à lembrança
os primeiros irmãos. "Eu me emociono e sinto um grande amor
por tudo isso aqui", revela Cleofano de Barros, há 50 anos
na Irmandade.
A eleição da diretoria é anual para os cargos de
juiz provedor, secretário, tesoureiro e procurador, que exercem
atividades administrativas e pastorais na comunidade, incentivando a formação
da juventude, de equipes de música e de liturgia. Nessa ocasião,
também são eleitos os festeiros, o rei e a rainha, que juntos
com o juiz e a juíza organizam, durante o ano, com o apoio das
irmãs e dos irmãos, as festas de Nossa Senhora do Rosário
e são Benedito.
"A Irmandade conseguiu agregar um número considerável
de afro-brasileiros. Somos cerca de 220 membros", diz o juiz provedor
Marcelo Antonio Saraiva, 32 anos.
Os irmãos recebem pesquisadores, religiosos e pessoas de outros
Estados e até do exterior, interessados em conhecer e estudar as
razões de tanta longevidade e que ficam deslumbrados com o interior
da igreja, que apresenta uma variedade de detalhes na pinturas das paredes,
nas vestimentas e adornos dos santos, nas luzes do altar-mor que refletem
entre lustres, candelabros e flores.
"Só a devoção a Nossa Senhora foi capaz de manter-nos
unidos, com a Irmandade aproximando-se dos 300 anos, e trazendo com a
religiosidade, a conscientização capaz de forjar o surgimento
de outros movimentos negros", esclarece a advogada e ex-deputada
estadual, Theodosina Rosário Ribeiro, que já foi juíza,
é mesária, e ainda faz parte da equipe litúrgica.
Tradições e festejos
A festa de Nossa Senhora do Rosário era conhecida como da Oraga,
que quer dizer padroeira. Essa designação foi usada até
o Concílio Vaticano II, quando as missas eram rezadas em latim
e a ladainha cantada.
"Há alguns anos, os festejos se estendiam até à
noite, mas com a cidade de São Paulo cada dia mais violenta, preferimos
realizar a celebração durante o dia", revela Jonas
Gregório Lucas, mestre de cerimônia. Há 40 anos na
Irmandade, Jonas acrescenta que ainda são conservadas tradições
nas festas e posse dos irmãos e irmãs, quando os homens
usam a opa, uma vestimenta sobre os ombros e as mulheres, fita azul sobre
vestidos pretos ou brancos.
No primeiro domingo de outubro, quando é realizada a festa do Rosário,
a igreja vive momentos de esplendor com missa solene, coroação
de Nossa Senhora, almoço para a comunidade e irmandades de São
Paulo, Santos e Rio de Janeiro. Nesse dia, o povo sai em procissão
pelas ruas do centro, cantando e acompanhando a banda de música,
as crianças vestem-se de anjos, cumprindo as promessas dos pais,
os irmãos e irmãs carregam os andores, o rei e a rainha
as coroas, lembrança dos reisados e congadas.
"Sinto muito alegria em ser a madrinha e responsável em levar
o estandarte de Nossa Senhora", conta Lucy Mineiro, que neste ano
passará a incumbência para outra irmã, já que
foi escolhida para ser a rainha.
Origens do rosário
A devoção a Nossa Senhora do Rosário tem sua origem
entre os dominicanos, por volta de 1200. São Domingos, inspirado
pela Virgem Maria, deu ao rosário sua forma atual. Isto pode ser
comprovado em episódios revelados em sua iconografia. A primeira
irmandade do rosário foi instituída por eles em Colônia
(Alemanha). Logo a devoção se propagou, sendo levada também
por missionários portugueses ao Congo.
No Brasil, ela foi adotada por senhores e escravos, sendo que no caso
dos negros, ela tinha o objetivo de aliviar-lhes os sofrimentos infligidos
pelos brancos. Os escravos recolhiam as sementes de um capim, cujas contas
são grossas, denominadas "lágrimas de Nossa Senhora",
e montavam terços para rezar.
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