Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiosidade Popular

Jeito diferente

João Munari

Homens e mulheres unem-se em associação para interpretar o
carisma missionário - dos combonianos - de forma original,
conforme os apelos da história

Encontrei-as, pela primeira vez, numa aldeia indígena, a dos amondava, no Estado de Rondônia. Mara e Cristina viviam numa casinha ao lado das malocas dos índios. Tudo muito simples. Nenhum conforto e nada de especial, a não ser a cama (os índios dormem em redes), o vaso sanitário, um chuveiro de água fria e o fogão. Só a cruz de São Francisco, pendurada na parede, dizia que estavam lá por algum motivo especial.

Não sei se os índios achavam tudo aquilo esquisito ou expressão da sociedade de consumo tão típica do mundo dos brancos. Do crucifixo, diziam que era Tupanangá, o deus da natureza, bondoso e generoso, que cuida de cada um dos seus filhos. Tive a impressão de que tudo estava perfeitamente integrado ao ambiente simples do lugar e, como a aldeia, carinhosamente abraçado por uma floresta exuberante e encantadora.

Mara é enfermeira, Cristina professora. Escolheram a causa indígena a partir de conversas que tiveram com um grupo de amigos do qual, aos poucos, nasceu a associação à que hoje pertencem, a dos Leigos Missionários Combonianos.

Missão e saúde - Mara é natural de São José dos Campos/SP. Para ela,estar com os índios foi uma maneira concreta de aprofundar os ideais e o espírito de um grande missionário do século passado, Daniel Comboni, que,na curta vida de 50 anos, só teve uma grande paixão: a África e os africanos. Mara ficou fascinada por ele.

Padre Cleonir Grando, provincial dos combonianos com Cristina, à sua esquerda e Mara, à sua direita, leigas combonianas na aldeia Amondava e ao lado menina índia com colares contra o espírito do mal e invasores da terra

No início da experiência na aldeia, estava apreensiva e assustada. Agora, agradece. Acha que aprendeu muito. Os índios ensinaram-lhe a valorizar as pequenas coisas, o amor pela vida, o cuidado pelas coisas da natureza. "Para eles, a vida é sagrada. A terra é mãe, as árvores, a lua ... tudo é sagrado.

Nesse sentido, eles nos evangelizam. Quando saem para caçar, somente matam o suficiente para comer. Aproveitam tudo, inclusive os ossos e os dentes da caça para a confecção de artesanato. É maravilhoso tudo isso!", explica. Ela faz um trabalho preventivo: o levantamento do peso das crianças, a entrega de medicamentos, a preparação da merenda para quem estuda.

Descobri que a fartura que a natureza oferece: o babaçu, a folha de mandioca e tantas plantas que podem ser usadas também com finalidade terapêutica. "Na aldeia, diante das necessidades, muitas vezes tenho que agir como médica e isso é muito difícil. Por outro lado, os indígenas são muito frágeis em relação às doenças dos brancos. Se um fica gripado, logo toda a tribo estará gripada".

Missão e educação - Enquanto Mara cuida de mulheres e crianças - sempre há alguma na porta do pequeno ambulatório que abriu num quartinho da casa -, Cristina investe na educação. Coordena uma escolinha que tem turno para crianças, para mulheres e até para os homens. Sempre tem alguma coisa a fazer. Ensina a ler e escrever, mas com freqüência inverte os papéis, colocando-se com prazer na escola das crianças, para aprender a língua deles. É um mundo fantástico que descobre a cada palavra e que comunica em cada frase que ensina.

"As crianças, os jovens e as mulheres estão presentes todo o tempo em nossa maloca. Sentem gosto e alegria por nos ensinar a língua deles. Sabem que sempre morei na cidade e, por isso,encontro dificuldades em morar no mato. Falo do calor, dos insetos e das outras coisas às quais não estou acostumada.

Eles se preocupam com isso. Quando fiquei doente, eIes deram grande atenção. As crianças ajudaram a limpar a escola. A Juavé assumiu a coordenação das aulas. Sempre que saem para caçar, dividem um pedaço da carne conosco. Tudo isso é muito bonito e nos ajuda em nossa vida missionária".

Sobre a maneira de se aproximar de um mundo tão diferente já tem a receita, que faz questão de passar aos outros membros do grupo, quando "os encontra. É lição que brota da vida. "Cuidei de chegar sem grandes expectativas: de mãos vazias e coração aberto, consciente de que chegava e pisava em lugar sagrado. Assim, procuro manter uma atitude de silêncio e escuta. A aldeia, o povo amondava é um outro mundo. É preciso ter muito respeito".

O grupo - E a primeira e mais significativa experiência deste grupo de leigos (são 6 ao todo) que escolheram ser missionários sem entrar nas estruturas tradicionais e sem fazer disso um compromisso para toda a vida. Prestam um serviço temporário - um mínimo de 3 anos - e, depois, se não quiserem renová-lo, voltam para a vida de antes.

Mara e Cristina já estão imaginando o que farão depois que terminar o compromisso na aldeia. Pode ser que voltem para suas casas, que constituam família, mas uma coisa elas sabem: a vida não será mais a mesma. Carregarão os ensinamentos dos índios para sempre.

O sonho maior do grupo, inclusive o de Valdeci, que o coordena a partir de Belo Horizonte/MG, é abrir uma comunidade na África. Antes ou depois, sabe que o fará. Sente que o carisma de Comboni puxa particularmente nessa direção. Por enquanto, está preocu-pado em fortalecer o grupo, dar-lhe uma estrutura consistente, fazê-lo crescer em cons-ciência e engajamento. Cuida também de grupos de apoio, de gente que simpatiza com a proposta, mas não pode partir. O trabalho que os Leigos Missionários fazem depende muito do apoio deles.

Esperam o dia em que batam à porta casais dispostos a assumir uma proposta a dois, ou até mesmo como família. Não sabem ainda como será, mas já estão abertos a essa possibilidade e acreditam que será mais um passo no fortalecimento da proposta que, para eles, está na fase inicial.

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