Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religiosidade Popular
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Ano internacional do "TRABALHO voluntário é MÃO DUPLA: o voluntário DOA e RECEBE" ONGs Os militantes da humanidade Milhares de organizações no mundo todo testemunham a criatividade da solidariedade Edison Barbieri Em todo o mundo a economia dá sinais de melhora. Com o impulso dado pelos avanços tecnológicos nas comunicações, o desenvolvimento mundial pretende prometer-nos uma prosperidade sem fim e segundo seus defensores, beneficiará inclusive os povos mais pobres do planeta. Em Seattle (1999) muitas ONGs (Organizações não Governamentais), que protestaram fortemente contra o apoio da Organização Mundial do Comércio às formas atuais da globalização, foram apresentadas por alguns órgãos da mídia desinformada como militantes de um novo gênero, que se mobilizam em torno de causas menores ou de minorias, como a preservação do mico-leão, das baleias e a defesa de populações indígenas. No entanto, o embate em Seattle foi apenas a parte visível de uma antiga guerra entre as ONGs e os poderes estabelecidos. Luta nobre Há cerca de trinta anos, as ONGs começaram a aumentar e se estruturar, trabalhando contra três males inextricavelmente ligados: pobreza, superpopulação e degradação ambiental. O crescimento demográfico provoca freqüentemente o desmatamento e o empobrecimento dos solos - portanto, o aumento da pobreza. Esta última expulsa pessoas de suas terras para outras onde a situação se repete. Por fim, a destruição do meio ambiente pelas multinacionais pode acelerar cada vez mais o avanço da miséria e a exclusão de muitos. Já faz tempo que as ONGs e as organizações de base concentram-se nessas prioridades e incitam os governos a segui-las. A militância atual não denota mudança de objetivo. mostra que cada vez mais pessoas compreendem que alguns de seus problemas comuns podem ter a mesma causa: a globalização. As instituições econômicas e financeiras internacionais há muito tempo são o principal alvo. Mas o renovado rigor das críticas reflete uma melhor coordenação das ONGs ante a rapidez das transformações econômicas e a passividade das autoridades políticas. Mas o verdadeiro problema é saber se esses atores da sociedade civil, supondo-se que encontrem aliados resolutos no seio dos governos, estarão à altura dos extraordinários desafios globais de nossa época. Ninguém saberá dizê-lo, mas uma sondagem geral do cenário não-governamental mundial pode fornecer alguns indícios. O desenvolvimento, a ajuda humanitária, os refugiados, os direitos humanos e a democratização e preservação do meio ambiente são as principais preocupações das ONGs internacionais (ONGIs). Desde 1995, foram registradas 20 mil dessas instituições com filiais em mais de 123 países, além de 5 mil ONGs sediadas em algum país do Norte, porém desenvolvendo atividades no exterior. Apesar de serem quatro vezes mais numerosas do que em 1970, as ONGIs parecem despreparadas perante as urgências humanitárias. Em 1995, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) dos 60 bilhões de dólares de ajuda aos países pobres, apenas 10 bilhões transitaram por essas organizações. Entretanto elas tornaram-se importantes agentes. Pressionam organizações e conferências internacionais com sucesso crescente. Do protocolo de Montreal (1987), que controla as emissões de CFCs (clorofluorcarbono) da Rio 92 sobre desenvolvimento à Conferência de Beijing sobre a mulher (1995), contribuíram para manter na linha de frente a preocupação com temas como meio ambiente, direitos humanos e pobreza. Pobres organizados Mas a etapa mais marcante de sua história é sem dúvida a proliferação nos países em desenvolvimento. Nos últimos anos, jovens dotados de uma sólida educação e competentes têm aproveitado a ajuda estrangeira para fundar associações. Às vezes criam ramificações locais de ONGIs, porém freqüentemente definem seu próprio programa, inclusive para combater a repressão política. Esse processo de criação quase sempre apóia-se na parceria entre dois tipos de ONG: as associações de base e as ONGs de apoio. As primeiras, administradas por pessoal local, trabalham pelo desenvolvimento de sua própria comunidade. Algumas -como grupos de mulheres- surgiram recentemente. Outras, porém, tiveram origem em organizações comunitárias como as estruturas de microcréditos, que funcionam há séculos. Certamente existem vários milhares de grupos de base na África, na Ásia e na América Latina. Ante a crise ambiental e o crescimento da pobreza nos anos 80, essas associações, às vezes apoiadas por iniciativas individuais, constituíram-se em redes. Em Oranji, no Paquistão, uma delas conseguiu abastecer de água potável e criar centros de saneamento para 100 mil pessoas. Na retaguarda, cerca de 50 mil ONGs de apoio, bastante profissionalizadas, canalizam a ajuda internacional para a base. Na Bolívia, por exemplo, várias delas uniram-se para propagar as tecnologias da energia solar. Outras organizações combatem a corrupção e defendem os direitos humanos. Em Maharashtra (Índia), um centro anticorrupção mantido por uma rede de organizações de base obteve a destituição de 40 arrecadadores de impostos. Esse gênero de militância política já chegou as Nações Unidas, conseguindo muitas vezes marcar presença, inclusive, em instâncias internacionais. O recuo da autocracia também levou à criação de ONGs especializadas em processos democráticos, que supervisionam, por exemplo, a constituição de chapas eleitorais e a apuração de votos. Elas conseguiram eleger alguns de seus líderes para cargos políticos locais. Variedade Inúmeras ONGs que militam por importantes mudanças políticas na área da educação, saúde, meio ambiente e eqüidade social, não promovem necessariamente manifestações públicas. Uma ONG brasileira propõe, por exemplo, a instituição de um número de telefone para que os cidadãos gratuitamente denunciem a ocorrência de problemas ambientais. Nem sempre há fronteiras nítidas entre as ONGs e as autoridades. Na Índia, o Integrated Child Development Service desenvolve suas campanhas também por intermédio de órgãos dos governos locais e federal. Poderosos agentes da sociedade civil emergem também no bloco dos antigos países comunistas. A maioria das cerca de 75 mil ONGs daquela região foi criada ou ressuscitada após 1989 pelo afluxo de ajuda estrangeira. Muitas delas tomaram a seu cargo serviços sociais que o Estado não pode mais prestar, mas poucas tem raízes na vida local - as organizações locais, como as cooperativas, deixaram más recordações. Entre as mais inovadoras, algumas foram criadas para fazer face à crise ambiental. Originalmente, constituíam movimentos de oposição e continuam a desafiar os governos. Muitas delas atuam junto a sistemas de microcrédito. Os países ricos não ficam para atrás. Nos Estados Unidos, 70% das associações têm menos de 30 anos. Os movimentos surgidos do desenvolvimento da internet, são ainda recente. Esse breve retrospecto mostra o quanto é difícil balizar o cenário mundial de tais associações, tão complexo quanto vasto, tão dinâmico quanto promissor. Existem inclusive redes internacionais e ONG nacionais cuja ação pretende estimular a economia e o comércio. Elas mostram que o combate à globalização irresponsável não passa forçosamente pelo ódio ao lucro. O mundo associativo representa bem mais que uma coleção de ONGs: reflete a capacidade dos cidadãos de se unirem para melhorar a vida pública. Muito se fala da internet e de sua contribuição ao fortalecimento da sociedade civil. Sem dúvida, ela freqüentemente permitiu mobilizar indivíduos do mundo inteiro. Mas milhões de pessoas não têm acesso sequer ao telefone, muito menos ao computador. E se tivessem, bem mais facilmente encontrariam na rede anúncios de refrigerantes do que instruções para purificar a água. Na verdade, o papel do mundo virtual na regulação da globalização dependerá antes de tudo dos vínculos humanos estabelecidos. |
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