Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religiosidade Popular
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Ano internacional do Voluntário Virgínia Yunes já colaborou diversas vezes com "MUNDO e MISSÃO", sua fotos já ilustraram muitas matérias. Hoje, ela nos fala de sua experiência como voluntária leiga em terras africanas, um verdadeiro testemunho de paixão Patrizia Bergamaschi Na missão M.M.: De onde surgiu o desejo de ser voluntária na África? Como foram os primeiros passos? Virgínia: Desde pequena, aprendi a sentir, através do testemunho de meus pais, a religião como uma experiência concreta e doada aos mais necessitados. Pode-se dizer que meu primeiro e grande passo foi quando acompanhava minha mãe ao seu voluntariado em uma favela e passava meus domingos brincando com as crianças que lá viviam, Alguns anos depois, conheci um padre do Pime que me motivou a me engajar e participar dos encontros missionários. Naquele momento já sentia concretemente em mim o desejo de realizar experiências como voluntária em outros lugares e, especialmente, na África. Mas, por que lá ?... eu também me perguntava isto e, para ser sincera, também não entendia, assim como não entendo, porque tantas vezes meu coração resolve pulsar mais para um lado do que para outro, Apenas sei que, quando escutava os padres contando sobre suas missões na África, algo em mim se sensibilizava, se impressionava, se admirava, Era como recitar em mim o salmo de Isaías: "Tu me seduziste e eu me deixei seduzir ". M.M.: Quando você foi, quanto tempo passou e o que fazia? Virgínia: Desembarquei pela primeira vez na Guiné-Bissau, costa oeste do continente, em maio de 1998, desejando conhecer de perto o trabalho dos missionários. No quarto dia, fui para Suzana visitar um padre brasileiro, amigo desde o seminário: ia para passar o fim de semana, quando, no domingo, escutou-se no rádio que as fronteiras estavam fechadas e os militares tinham tomado a cidade numa tentativa de golpe de Estado. Fiquei apreensiva sem saber ao certo o que estava acontecendo, até que a situação começou a se delinear: a chegada de um navio trazendo soldados, tanques de guerras e uma série de armamentos pesados trazia a triste certeza do que estava ocorrendo. Era o início de uma guerra. Durante 3 meses fiquei refugiada no norte do país na missão
do Pime. Nesse tempo, ajudava naquilo que podia: no início nos
organizamos para socorrer as pessoas que fugiam da capital (Bissau) onde
acontecia a guerra, transportandoas para o interior do pais, dando refúgio,
primeiros socorros, alimentação. Depois, junto com a comunidade,
aproveitamos as mangas da época e confeccionamos quilos de doce
(marmelada) para enviar aos refugiados. Também nunca deixava de
acompanhar os missionários nos seus afazeres diários, na
preparação da missa, nas novenas improvisadas pela guerra.
Não podia fazer muito, pois existia a limitação da
língua local. M.M.: Houve alguma preparação? Virgínia: A preparação veio sendo feita desde que estou na Pastoral Missionária, onde realizei várias experiências de voluntariado na minha comunidade, em pequenas missões que fazíamos no interior. Trabalhei com meninos de rua em Salvador-BA e passei um ano em Mazagão (Amapá), como missionária leiga. M.M.: O que um voluntário leigo pode fazer, sabendo que seu tempo de permanência naquele lugar é breve? Virgínia: A brevidade do tempo delineia, já por si, um caráter especial do que seja uma missão por parte de um voluntário e faz-nos refletir sobre alguns aspectos. Por um lado, grandes pretensões, grandes projetos, grandes mudanças não podem ser o nosso fundamento ou motivação primordial. O padres do Pime sempre foram muito sábios ao ensinar-me que um missionário precisa se preocupar em "jogar sementes". Se germinarem e crescerem já não é responsabilidade ou mérito próprio... mas, é claro, de nosso Deus. Hoje, depois deste caminho percorrido e de algumas "deslizadas", vejo como este pensamento é fundamental. Ou seja, isto não significa "largar de mão" ou não se entregar da melhor forma que se pode; significa sim, saber fazer tudo o que se pode e o que se deve, mas também saber lidar com o que não se pode. Acredito que saber lidar com o que não se pode deve ser um "capítulo" importante a ser tratado com todo aquele que quer se dedicar ao voluntariado. Esta preparação evita frustrações ou, pior ainda, nos desarma da tendência de sermos tantas vezes "super-homens ou super-mulheres" que, entre outras coisas, terminam por dar um falso testemunho cristão. Por outro lado, quando nos engajamos da melhor forma que podemos e à medida que vamos sentindo a realidade onde estamos, muitas vezes, queremos e criamos projetos de ação. Este fato por si só é bastante compreensível. No entanto, justamente pela brevidade da estada, é muito importante saber entender que eles precisam continuar vivendo sem você. Dar continuidade ao trabalho que você vinha realizando torna-se, por vezes, bastante duro. Neste sentido, toma-se essencial estar consciente dá necessidade de formar líderes locais, ou então, entender, antes de partir para a missão, que seu papel lá é se engajar no trabalho que outros missionários estão realizando. M.M.: Conte como foi sua experiência humana? Virgínia: Forte em todos os sentidos. Compartilhar de uma realidade tão distinta da sua é uma escola diária. É como se nesse momento, seus valores, seu modo de vida, suas metas e certezas se misturassem como numa brincadeira de ficção e você sentisse mudar seu centro. Esse processo, eu o chamaria de reencontro: é uma experiência bastante dura, implica sofrimento, sem dizer que, muitas vezes, começa quando você já está de volta à sua vida habitual. O sofrimento foi também um palco de batalhas internas. Estar lado a lado dele, senti-lo no outro e, tantas vezes, nada mais poder fazer do que dar a simples presença é algo constrangedor e angustiante. Entretanto, posso afirmar, que se, por um lado, o mistério deste sofrer humano me levava a um poço de questionamentos e de desentendimentos, foi justamente nele que me deparei com a humanidade de Deus. Ora, o que significa isso? Para mim, nada mais do que a visibilidade, a transparência do toque de Deus em momentos, em encontros, em situações onde o sentido parecia se esvair. Acredito que é justamente Nele que o sentido retoma e, com Ele, a possibilidade de nos sentir, apesar dos pesares, felizes. M.M.: E do ponto de vista religioso? Você se sentiu evangelizando? Virgínia: É o amor a Cristo que me faz sair de mim e me doar, me preocupar com os mais necessitados, que me faz ter esperança de que, mesmo não percebendo a mudança, a semente está plantada e Ele fará germinar, fará crescer e dar frutos. Sozinhos não podemos nada; ao contrário: o homem cada vez dá mais provas da sua pequenez. M.M.: O que você recomendaria para alguém que quisesse ser voluntário no exterior? Virgínia: É importante que essa pessoa tenha tido antes algum tipo de experiência no próprio país, seja onde for, apenas para aprender a lidar com outra realidade, a se inserir sem preconceitos, a aceitar os desafios com naturalidade e coragem, e até mesmo trabalhar com seus próprios sentimentos, como saudades e conforto. Digo isso porque sabe-se que no mesmo país e até mesmo na mesma cidade já é difícil, porém, é mais fácil telefonar e regressar. No exterior essas vantagens não existem. Se está decidido a partir, procure saber como é a realidade do lugar onde você ficará, admire sempre as maneiras do povo local e nunca compare com as nossas. Com essa abertura a chance de você aprender e crescer será maior. Tenha um coração desprendido e disponível, um coração que saiba escutar mais do que falar, um coração que vá ao encontro do outro, sem fronteiras, um coração sempre apaixonado por Deus. |
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