Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Espiritismo

Novembro de 2007 - Edição n.º 14
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 117

aceitável que a existência humana, tão rica e complexa, desapareça no nada quando a pessoa morre? Este é o questionamento que a humanidade se põe desde seu aparecimento na terra.

Ao longo dos tempos, quase todas as culturas, inclusive as mais primitivas, criaram ações e sacrifícios para responder à inquietante incógnita: existe algum tipo de vida depois da morte? E, ainda, se continuarmos a existir, como será essa existência? Poderemos ter contato com os vivos?

Nos túmulos, até nos mais antigos, encontramos evidentes sinais de crença na sobrevivência: armas, utensílios, alimentos e desenhos. São sinais de que aí estava sepultado alguém que não era um simples animal, destinado a desaparecer no pó dos séculos, mas alguém que teria uma sobrevida ou um prolongamento de sua vida terrena.

Encontramos também indícios de rituais que nos indicam que o desaparecimento total das pessoas não era aceito, pela maioria dos demais, seja qual fosse a civilização e a religião. Conforme essa crença, os povos antigos, salvo raras exceções, criaram lugares próprios para o sepultamento e os rituais da morte, elementos que sinalizam para uma continuidade de relacionamento entre os que já se foram e os vivos. Outras culturas admitiam formas de sobrevivência pessoal, como a reencarnação e conseqüentes rituais de comunicação com os mortos. Aliás, esta crença tornou-se tão universal que se formaram, ao longo dos séculos, religiões ou pseudo-religiões que cultuam especificamente esse diálogo direto ou através de médiuns, necromantes ou intermediários entre vivos e finados, como acreditam os espíritas de várias denominações.

No Brasil, a crença de que é possível falar com os falecidos e que, portanto, os mortos podem se comunicar com os familiares, seria partilhada por mais de 40 milhões de pessoas, segundo dados da Federação Espírita Brasileira. Embora nem todas essas pessoas se declarem espíritas praticantes, procuram um dos dez mil centros espíritas, espalhados pelo país, para tentar contatar os finados ou imaginar que estejam conversando com os seus falecidos. Na rica, progressista e materialista América do Norte, uma recente pesquisa mostra que 51% dos cidadãos acreditam na sobrevivência dos espíritos e 27% crêem na reencarnação. Ao longo dos dois últimos séculos, destacados médiuns diziam ter o poder de pôr em contato os falecidos com seus parentes vivos. Entre eles, lembramos Chico Xavier (1910 – 2002), que se tornou uma referência nacional na mediunidade, um intermediário entre mortos e vivos.

Isto é uma realidade possível ou uma maneira de se consolar, psiquicamente, pela perda de um ente querido? É realmente possível um diálogo com os falecidos?

Bíblia, um dos mais antigos relatos da história e da religião de um povo, constituído ao longo dos séculos e que teve contatos com culturas e religiões de outros grupos humanos, revela-nos as contradições no campo da comunicação com os mortos. Enquanto a autoridade, os profetas e a religião condenavam a comunicação com o além, o povo era propenso a acreditar e a manter a comunicação com os seus finados.

A exigência de manter a fé num Deus vivo e ciumento, fez surgir uma legislação dura, que admitia até a pena de morte (por apedrejamento) aos que se desviavam da lei, em vista de consultar os mortos. Tais “contatos” eram considerados abominações diante de Javé, mas o povo recorria a essas práticas com certa facilidade e freqüência.

Reiteradas vezes a Bíblia condena tal invocação. Eis alguns exemplos:

Qualquer homem ou mulher que invocar os espíritos dos mortos ou praticar a feitiçaria deverá ser morto a pedradas. Essas pessoas são responsáveis pela própria morte (Lv 19,31 e 20,27; Ex 22,18).


As práticas de hipotético contato com os mortos permanecem até os dia hoje

Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará entre vós quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por tais abominações o Senhor teu Deus desalojará essas nações diante de ti. Perfeito serás para com o Senhor teu Deus (Dt 18,9-14).

Entretanto, há casos de contradição entre vida e crença religiosa, como o episódio que narra o diálogo entre o rei Saul e o sacerdote Samuel, já falecido:

Samuel tinha morrido.... Quando viu o acampamento dos filisteus, Saul teve medo e começou a tremer. Consultou a Javé, porém Javé não lhe respondeu, nem por sonhos, nem pela sorte, nem pelos profetas.

Então Saul disse a seus servos: “Procurem uma necromante, para que eu faça uma consulta”.

Os servos responderam: “Há uma necromante em Endor”. Saul se disfarçou, vestiu roupa de outro, e à noite, acompanhado de dois homens, foi encontrar-se com a mulher.

Saul disse a ela: “Quero que você me adivinhe o futuro, evocando os mortos. Faça aparecer a pessoa que eu lhe disser...”.


Samuel aparece para Saul após contato com a necromante

A mulher perguntou: “Quem você quer que eu chame?”.

Saul respondeu: “Chame Samuel”.

Quando a mulher viu Samuel aparecer, deu um grito e falou para Saul:

“Por que você me enganou? Você é Saul!”.

O rei a tranqüilizou: “Não tenha medo. O que você está vendo?”.

A mulher respondeu: “Vejo um espírito subindo da terra”.

Saul perguntou: “Qual é a aparência dele?”.

A mulher respondeu: “É a de um ancião que sobe, vestido com um manto”. Então Saul compreendeu que era Samuel, e se prostrou com o rosto por terra.

Samuel perguntou a Saul: “Por que você me chamou, perturbando o meu descanso?”.

Saul respondeu: “É que estou em situação desesperadora: - os filisteus estão guerreando contra mim.

Deus se afastou de mim e não me responde mais, nem pelos profetas, nem por sonhos. Por isso, eu vim chamar você, para que me diga o que devo fazer” (1Sm 28,3-15).

assim chamada “comunicação com os mortos” é muito mais praticada do que se possa imaginar. As pessoas parecem procurar uma ajuda psicológica para enfrentar o dia-a-dia, embora isso não se encontre nos terreiros e nem nas centros espíritas...


Allan Kardec

Para os espíritas das diferentes tendências, a comunicação com os mortos é um verdadeiro diálogo que pode ser psicografado, transmitido pelo médium em transe, ou em mesas dançantes ou, ainda, através de outra modalidade própria de cada casa espírita. Alguns sustentam que, nesta Era da Informática, é até possível usar aparelhos eletrônicos...

Entre os mais famosos médiuns dos últimos dois séculos, citamos o francês Allan Kardec, cujo nome de batismo era Hippolyte Léon Rivail Denizard, nascido no dia 3 de outubro de 1804 e falecido em 31 de março de 1869. Ele elaborou a doutrina espírita, que inclui a comunicação entre mortos e vivos, através da mediunidade. Deixou muitas obras, escritas por ele mesmo ou psicografadas, ou seja, atribuídas a espíritos.

A doutrina kardecista atrai milhões de adeptos em busca de consolo pela perda de entes queridos e na possibilidade de se comunicar futuramente com eles.


Chico Xavier

O mesmo Allan Kardec, porém, sugeriu que não existe a certeza de tais contatos, uma vez que as mensagens, na maioria das vezes, são banais e irreais; entretanto, elas aliviam a tensão da separação:

“Um fato que a observação tem demonstrado, e os próprios espíritos confirmam, é o de que os espíritos inferiores usurpam, com freqüência, nomes conhecidos e respeitados. Quem pode, assim, garantir que os que dizem ter sido, por exemplo, Sócrates, Júlio César, Carlos Magno, Fenelon, Napoleão, Washington, etc., tenham de fato animado essas personalidades?

Tal dúvida persiste até entre alguns fervorosos adeptos da doutrina espírita, os quais admitem a intervenção e a manifestação de falsos espíritos, porém se perguntam:

- como pode ser comprovada a sua verdadeira identidade?”. Mais conhecido pelo povo brasileiro, porém, é Francisco Cândido Xavier, conhecido como Chico Xavier, nascido em Pedro Leopoldo-MG, no dia 2 de abril de 1910 e falecido em Uberaba, no dia 30 de junho de 2002.

Muito procurado pela sua mediunidade e curas mediúnicas, é lembrado também pelas inúmeras obras de assistência aos pobres. Teve grande influência na expansão do movimento espírita no Brasil, considerando-se orientado por um espírito-guia de nome Emanuel. Teria psicografado muitas obras atribuídas a falecidos autores da literatura mundial.

 

ara o pensador espírita francês Léon Denis, “as almas dos mortos não são entidades vagas, indefinidas, como alguns acreditam, pois, atingindo as altas camadas da hierarquia espiritual, elas se convertem em poderes notáveis, em centros de atividades e de vidas capazes de exercer uma ação sobre a humanidade terrestre. Pela sugestão magnética, podem influir sobre aqueles que escolheram,... É dessa forma que os invisíveis se envolvem nos atos dos vivos, para a concretização do bem e o cumprimento da justiça eterna.”

(O mundo invisível e a guerra, 1995)

uem morreu pertence a uma outra natureza, intangível pela nossa razão e menos ainda pelos nossos sentidos. Quando os fenômenos não ocorrem naturalmente, seus seguidores recorrem à fraude, para não desanimar a assistência... Curiosamente, quando falam de cientistas que estudam tais fenômenos referem-se tão somente aos seguidores de doutrinas espíritas, não abrindo espaço para os que contestam tais fenômenos.

(Evaldo d’Assumpção, médico, no jornal Estado de Minas, 11/09/1995)


Joana d'Arc e o arcanjo São Miguel

Não existe nada a esse respeito nas "Confissões"

 

ugênio Lara, membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita, de Santos, escreveu:

“Camponesa simples, analfabeta, criada dentro dos princípios do catolicismo, Joana d’Arc (1412 – 1431) começou a ouvir vozes e ter visões a partir dos 12 anos de idade. Na primeira visão, viu uma grande luz e em seguida a aparição de santos.

O arcanjo São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida foram as entidades que lhe revelaram uma missão:

- a de libertar os franceses do jugo inglês.”

(A mediunidade social, 2003)

 

ambém Santo Agostinho, em seu livro “De Cura Pro Mortuis” (“Tratado dos Mortos”), afirma que os espíritos de luz de pessoas falecidas podem trazer conhecimentos para nós. Alíás, ele recebeu mensagens de sua mãe já falecida, Santa Mônica, como lemos em sua grande obra, “Confissões.”

(José R. Chaves, Portal do Espírito)
(Não existe nada a esse respeito nas “Confissões”, n.d.r.)

 

 

 

cientista francês Charles Richet (1850 – 1935), após vinte anos de experiências espíritas, tornou-se crítico das práticas mediúnicas porque “jamais os espíritos desencarnados puderam provar que sabem alguma coisa e nenhuma descoberta científica foi indicada... Em nenhuma sessão, pude ter uma revelação científica, nenhuma ajuda à ciência veio desses pseudo-espíritos... A tentativa de se pôr em contato com os mortos é uma alucinação produzida pela sugestão do ambiente das sessões espíritas, num recinto carregado de sugestão hipnótica.”

(Tratado de Metapsíquica, 1923)

o livro Espiritismo Dialético (1932), o espírita argentino Manuel S. Porteiro (1881–1936) escreveu:

- “Desde os séculos mais antigos, os mortos têm chamado a atenção dos vivos e já era hora de a ciência dar-se por advertida. Por absurdos ou inverossímeis que pareçam os fenômenos espíritas, não deixam, no entanto, de serem certos e naturais como toda outra manifestação da natureza e o espírito que a anima”.

 

e os mortos ‘falam’, que nos revelem algo de útil através dos seus instrumentos mediúnicos para solucionar graves problemas da humanidade como câncer, fome e outras desgraças.”

(Edivino A. S. Friderichs, Onde os espíritos abaixam, 1977)

e é verdade que o Espiritismo seja tomado num sentido religioso por uma multidão, aliás muito respeitável, de almas simples, não quer dizer isso que ele seja religioso, mas tão somente que as conclusões rigorosamente experimentais e, portanto, científicas, a que conduzem as investigações medianímicas, têm a virtude de reconfortar grande número de almas atormentadas pela dúvida.”

(Ernesto Bozzano, Metapsíquica Humana, 1980)

E você, o que pensa sobre o assunto?

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