Revista "MUNDO e MISSÃO

Religião - Hindúismo

Milhões de peregrinos no rio sagrado

Alberto Garuti

Mais de 50 milhões de pessoas em Allahabad, Índia, para o Kumbh Mela ( festival do vaso)

A mitologia explica o Kumbh Mela

De acordo com a mitologia hindu, os deuses e os demônios combateram um dia para a posse de um vaso que continha o amrit, néctar ou bebida sagrada. Vishnu, a divindade que sustenta o universo, teria roubado o vaso (kumbh) dos demônios, levando-o para o céu. Durante a luta, quatro gotas da bebida divina teriam caído na terra, em quatro lugares diferentes da Índia. Esses lugares, onde o divino encontrara o humano, são considerados lugares sagrados.

Um grande festival (mela) é celebrado nesses lugares, a cada doze anos, justamente para celebrar o contato da substância divina com a terra. Neste ano, o festival está sendo celebrado em Allahabad, que é considerado o mais importante dos quatro, pois lá se encontra a confluência dos dois rios sagrados Ganges e Yamuna e onde um terceiro, o Saraswati, um rio invisível em cuja existência os hindus acreditam, entra diretamente do céu na confluência dos dois rios anteriores.

Purificação total

O objetivo dos peregrinos é o banho na confluência desses rios: para eles, isso lava as culpas das pessoas, compensando até uma vida inteira de comportamentos pecaminosos e oferece a chance de uma existência mais nobre e em melhores condições na próxima reencarnação. É verdade que, todos os dias do ano, chegam peregrinos para se banharem nas águas dos rios sagrados e que para muitos, em qualquer dia, se consegue a purificação desejada. Contudo, segundo alguns hindus ortodoxos, fazer isso no tempo do Kumbh Mela e no dia da lua nova, dá maior garantia de ter suas culpas lavadas e até pode garantir a salvação total, isto é, a liberdade de novas reencarnações depois da morte.

Kumbh Mela é a maior das peregrinações indianas e a maior reunião de pessoas que uma confissão religiosa jamais conseguiu realizar no mundo inteiro. Milhões de peregrinos de todos os rincões da Índia e até do exterior, falando diferentes línguas, dos mais variados costumes e culturas, encontram-se para o santo mergulho nos rios sagrados.

Uma cidade de tendas

Durante o Kumbh Mela, uma cidade de tendas é erigida pelo governo e, por mais de um mês, ela hospeda milhões de devotos. O festival, se não é limitado só aos indianos, também não é freqüentado só pelos hindus. Muitas pessoas, adeptas de todas as religiões e de todas as partes do mundo, participam dos festejos.

O festival começou dia 9 de janeiro e terminou em 21 de fevereiro deste ano 2001. Os dias mais aconselhados para os banhos foram 14, 24 e 29 de janeiro e 8 e 21 de fevereiro.

A cidade de tendas (kumbh nagar), em 24 de janeiro, hospedou (conforme noticiou a imprensa) de 20 a 30 milhões de pessoas: era o dia mais propício para a purificação, em vista da lua nova de janeiro, quando o poder purificador das águas é maior.

Um lugar de destaque foi o das tendas dos sadhu, ou ascetas, homens santos, que recebem os fiéis. Há vários tipos de sadhu: yogi, saniasi, mahatma, swami, baba. Nós os conhecemos, pelo nome genérico de guru, palavra que vem da língua sânscrita, formada pelas duas palavras gu (luz) e ru (escuridão). Guru, portanto, é aquele que oferece a luz da inteligência na escuridão da ignorância. Esses gurus - ou sadhus - ocupam um lugar central no meio da multidão dos peregrinos que participa do festival: lêem e explicam os antigos textos sagrados, dão conselhos sobre como enfrentar as dificuldades da vida, são exemplos de ascese e mortificação.

A cerimônia do banho

O banho purificador nas águas dos rios sagrados é um dos poucos momentos em que as diferenças e as barreiras, que caracterizam a sociedade indiana, desaparecem: lado a lado no rio, podem se encontram os brâmanes, membros das castas mais altas, e os párias ou intocáveis, isto é, os sem casta.

A cerimônia do banho, nos dias de maior afluência de pessoas, segue um ritual determinado. Na frente, vão os sadhu, divididos por categorias. A primeira é a dos nagas, uma das seitas mais respeitadas dos sadhus, que andam nus e cobertos de cinza. Terminado o banho ritual dos sadhus, todos os outros podem entrar, indianos de todas as partes do país e de todas as castas e estrangeiros.

Mais de vinte mil policiais estavam presentes no dia 24 de janeiro, pois tinham sido anunciadas desordens e atentados terroristas, especialmente por parte dos muçulmanos. Nada disso aconteceu e a polícia não teve dificuldade nenhuma em manter a ordem.
Os serviços de informação tinham sido informatizados para atender os peregrinos de todas as proveniências, para facilitar e agilizar todo tipo de comunicação com eles.

Turismo e maconha

Alguns aspectos negativos dessa festa religiosa vieram à tona. O primeiro é o grande consumo de maconha, apoiado também por alguns sadhus que afirmam sua influência na experiência mística. Outro é a intromissão do comercial no religioso e a exploração da festa pelas companhias de turismo.

Este ano, por exemplo, os sadhus protestaram justamente por causa da comercialização que teria feito a festa perder seu caráter sagrado. Em particular, protestaram contra a agência britânica de turismo Cox and Kings por ter aberto tendas "cinco estrelas" para seus clientes e por ter-lhes oferecido bebidas alcoólicas. O fato não foi comprovado, a magistratura não tomou nenhuma decisão e a "cidade de tendas" da Cox continua. Mas a influência das companhias de turismo é bem limitada.

A quase total maioria desse povo chega aos milhões, sem que nenhum convite seja feito. O Kumbh Mela não é anunciado através de nenhuma propaganda: trata-se de algo natural, bem enraizado no coração de tantos hindus.

Afluência de peregrinos à cidade sagrada de Allahabad, na festa de Kumbh Mela
ANO
Peregrinos
1954
6 milhões
1966
7 milhões
1977
10 milhões
1989
15 milhões
2001
30 milhões

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