Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Cristianismo
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Joshuah de Bragança Soares DE CONSTANTINOPLA A KIEV E MOSCOU Daí o dito famoso do monge Filoteu de Pskov ao príncipe Basílio: Duas Romas caíram; a terceira está
de pé e não haverá uma quarta. E assim Moscou
passou a considerar-se herdeira do Império bizantino como defensora
da religião cristã. No séc.16, Moscou tornou-se Patriarcado
de toda a nação, garantindo a unidade eclesiástica
e, por reflexo, a unidade política do vasto império. No
séc. 17, uma parte da Igreja se rebelou contra o czar e o patriarca,
repudiando as reformas litúrgicas que aboliam costumes russos e
obrigavam a um retorno à tradição dos gregos. Os
seguidores do velho ritual, chamados velhos crentes (starovieri),
ocasionaram um cisma que perdura até hoje. Perseguidos violentamente
pelo governo, os starovieri se deslocaram para regiões
distantes na Sibéria, para escapar à perseguição
do czar, que criam ser o anticristo. No séc. 19, um grupo deles
imigrou para o DA RÚSSIA A TODO OCIDENTE O Imperador Pedro, o Grande, suprimiu o patriarcado russo e reduziu a administração eclesiástica a um ministério de governo, chamado Santo Sínodo. Em 1918, com a abolição do Czarismo, a Igreja, no Concílio de Moscou, restaurou o Patriarcado, mas logo o governo bolchevista desencadeou uma violenta perseguição contra a Igreja, subjugando totalmente a hierarquia à ditadura comunista. Nessa época de fuzilamento em massa dos religiosos, um grande contingente de russos emigrou para a Europa, Estados Unidos, América Latina, Austrália e China, sendo que, na China, já existia uma cidade russa, Kharbin, e muitos russos em Xangai. A IGREJA RESISTE AO COMUNISMO Muitos dos bispos russos, pressionados a deixar a Rússia, constataram que não podiam manter-se em comunhão com a Igreja-Mãe, atrelada ao regime comunista. Por isso, reuniram-se em Constantinopla e formaram uma igreja autônoma ad tempus, até que se normalizassem as coisas na Rússia. Esta parte da Igreja no exílio chamou-se Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia, regida por um Sínodo Episcopal e ligada inicialmente ao Patriarcado de Constantinopla. Pouco depois, esta Igreja instalou-se na Sérvia, mas, hostilizada e ameaçada pelos comunistas, transferiu-se para os EUA, em 1950, recusando, sempre, todos os apelos do Patriarcado de Moscou para reatar a união com a URSS, pois era sabido que a Igreja na Rússia estava subjugada pelo comunismo. A separação foi radical e perdura ainda hoje, apesar de não existir mais a URSS. O comunismo fracassou, mas a discórdia que conseguiu, em parte, semear na Igreja ainda perdura, apesar dos esforços feitos para reatar a comunhão. DA RÚSSIA AO BRASIL O Brasil recebeu imigrantes russos depois da Revolução russa. Eles formaram colônias religiosamente bem assistidas nas grandes cidades:
- construíram em São Paulo a Catedral da Rua Tamandaré, a igreja da SS. Trindade na Vila Alpina (que neste ano de 2005 celebra o jubileu de 75 anos), e ainda outras igrejas, duas delas curiosamente consagradas ao mesmo título da Proteção da Mãe de Deus. Foram edificadas belas igrejas no Rio, Niterói, Porto Alegre e Goiás. Com exceção das igrejas do Rio e de Porto Alegre, atualmente obedecendo ao Patriarcado de Moscou, as demais estão vinculadas ao bispado de Los Angeles, a que pertence toda a América Latina, governada até setembro de 2005 pelo Bispo Alexander Mileant, falecido no dia 12 de setembro, ex-engenheiro da NASA, que soube pôr a Informática a serviço da Igreja, criando o portal, um dos mais completos sobre a Ortodoxia. As duas jurisdições principais russas que possuem igrejas no Brasil, estão, desde 2000, trabalhando zelosamente para restaurar a comunhão desfeita pelo bolchevismo. RUSSOS DA CHINA Depois da Segunda Guerra, os Aliados conseguiram trazer um grande número de russos para a Argentina e Brasil. A imigração aumentou, ainda mais, após a revolução comunista da China (1948), quando um novo contingente de russos chegou a esses dois países. Foi uma imigração contratada com o governo brasileiro, com dispensa especial das rígidas exigências imigratórias, graças à intermediação do Vaticano junto ao governo brasileiro, através dos sacerdotes russos católicos, os irmãos Roschko, dos jesuítas Felipe de Regis, Vasili Bourgeois e do jovem hieromonge Gury, de rito bizantino-eslavo, encarregados de prestar assistência aos russos vindos de Kharbin e Xangai. Os jesuítas fundaram uma paróquia russa dependente da Santa Sé e dois colégios: um para meninas, dirigido por freiras ursulinas, e outro para meninos, em Itu, depois em Santos e, finalmente, em São Paulo. Devido à forte nota de proselitismo da religião católica, dificilmente acreditar-se-ia que os jesuítas não pretendessem converter estes imigrantes para a igreja católica ou uniata. Pode-se garantir que não, pois a missão deles era manter os ortodoxos na sua plenitude, com a única intenção de cooperar para a convivência com os católicos e, principalmente, para levar os católicos a conhecer a Igreja ortodoxa, para assimilar a riqueza da doutrina cristã traduzida no culto ortodoxo. Seguramente, o zelo do clero ortodoxo em guardar inviolável a doutrina e o culto, resistiu a todo tipo de aproximação com o clero católico. Esta atitude já tinha ocorrido na França e nos Estados Unidos, onde o catolicismo se apresentava como Igreja superior, mas hoje esta atitude está mudando. A unidade que se busca, pode não ser perfeita, mas é a que parte do princípio que diz: Se são cristãos, não brigam; se brigam, não são cristãos. Hoje, o que se busca é a convivência sincera, evitando falsos compromissos, tanto mais que a Igreja Ortodoxa Russa fora da Rússia, que é a predominante no Brasil, ainda não reatou a comunhão com a Igreja-Mãe da Rússia e, o que é mais grave, condena e repudia os sacramentos da Igreja Católica, com base em certos abusos pós-concílio Vaticano II. O Catolicismo já usou este dogmatismo contra os ortodoxos na Europa, mas compreendeu o erro e o corrigiu. O debate franco sanará estas dificuldades e já está sanando, visto que, por força da boa vontade e de conhecimento mútuo, o Catolicismo tem aceitado, como nunca, a contribuição das Igrejas ortodoxas, quanto à função episcopal, infalibilidade papal, culto dos ícones, sacramentos, recitação do Ofício Divino e questões dogmáticas. |
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