Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Cristianismo
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por Hélio Pedroso
Rowan Williams, 51 anos, casado, com dois filhos, originário de Galles e, portanto, o primeiro arcebispo de Canterbury que não tem sangue da elite inglesa. Com uma barba branca que lhe confere um aspecto sério e ao mesmo tempo amável, é conhecido mais pela sua fama de professor, por ter ensinado teologia em Oxford e Cambridge, baluartes da cultura inglesa. Aos 36 anos, o mais jovem dos catedráticos já era um mestre renomado; hoje, sua fama é mundial, sobretudo por seus muitos livros de teologia, espiritualidade e moral.
Atraído particularmente pela espiritualidade, Rowan Williams a estudou profundamente a partir do Novo Testamento, abrangendo todos os mestres da espiritualidade cristã, desde os Padres da Igreja primitiva latina e oriental até os doutores dos últimos séculos, sem deixar de lado Martinho Lutero, que iniciou a divisão da Igreja entre católicos e protestantes e outras denominações. Autor de vários livros sobre teologia cristológica e trinitária, aprofundou-se nas diversas correntes teológicas não somente anglicanas, mas também em teólogos católicos, como Karl Rahner, Edward Schillebeeckx e outros. Dotado, também, de uma vasta cultura leiga, ele pode circular entre literatura, medicina, arte e música. É membro da Academia Inglesa desde 1990. Assim que sua nomeação se tornou oficial, em julho do ano passado, o futuro arcebispo chamou a atenção pela firme tomada de posição sobre acontecimentos ingleses e mundiais. Assinou uma declaração da Pax Cristi contra a intervenção americana e inglesa no Iraque, repetida também no dia de sua posse como primaz da Inglaterra. Suscitou a reação da Disney, por ter acusado em seu livro a multinacional de transformar crianças em jovens consumistas. O novo arcebispo tomou posse da sede de Canterbury em um momento em que a Igreja anglicana passa por uma profunda crise e enfrenta divisões internas nas questões de sexualidade, do segundo matrimônio, dos divorciados. Sua indicação para arcebispo primaz causou alarme entre os conservadores que, por exemplo, se posicionam contra a ordenação de homossexuais com base em fundamentos bíblicos. Os liberais esperam, em Williams, um arcebispo crítico e menos moralista. Os tradicionalistas parecem aceitar bem o fato de ter como líder um profundo conhecedor da doutrina cristã. Nessa situação de profundos contrastes, sua gestão de primaz não será certamente tranqüila. Os católicos também parecem aceitar, com certo entusiasmo, a escolha de Williams, pelos muitos pontos de união que tem a com a tradição católica. Como ele mesmo afirma, sua vida de oração teve forte influência de dois abades beneditinos e de uma monja carmelita. Compartilha a atitude da Igreja católica a respeito do aborto e do uso de embriões humanos para pesquisa científica. A autoridade de arcebispo primaz de Canterbury não é comparável à autoridade de um papa, pois suas decisões e escolhas não têm valor de lei, mas devem passar, primeiramente, pelo crivo do sínodo geral. Contudo sua liderança será de enorme importância nos próximos anos. NOVA MANEIRA DE SER PRIMAZ DA INGLATERRA A Igreja da Inglaterra foi fundada, em 507, por Santo Agostinho, monge enviado pelo papa Gregório para converter os habitantes da ilha, os anglos, e que se tornou o primeiro bispo de Canterbury. Em 1176, iniciou-se a construção da catedral, uma verdadeira obra monumental em pedra, transportada da Normandia, França. Em 1184, a catedral já estava terminada, sendo uma das maiores igrejas do mundo, obra prima do gótico inglês. Ali acontece a sagração dos primazes da Inglaterra. Devido a divergências entre Henrique VIII e o papa, em 1534, o rei criou a Igreja anglicana, uma igreja nacional, separada de Roma, que inclui em seu conteúdo doutrinário elementos luteranos e calvinistas. Desde então, bispos e arcebispos são nomeados pela monarquia e dependem somente da autoridade real e não mais de Roma. Este processo de nomeação, praticamente, limita a liberdade de ação dos arcebispos que, por deferência ou obséquio, ficam dependentes da política do governo e da monarquia. Atualmente, esse processo está sendo questionado, mas ainda perdura.
A nomeação de Rowan Williams seguiu a mesma praxe. Seu nome foi incluído numa lista de prelados que foi reduzida a dois nomes e apresentada ao primeiro ministro, Tony Blair. Este o escolheu e o apresentou à rainha Elisabeth que aprovou e confirmou Williams como arcebispo primaz da Igreja anglicana da Inglaterra. Apesar dessa tradição centenária, o atual arcebispo mostrou que se julga independente nessa situação histórica. Ao começar seu mandato, iniciou o discurso da posse sem as tradicionais saudações à rainha, príncipes, primeiro ministro e autoridades em geral. Um fato que poderia parecer, pelo mínimo, uma falta de fair play ou de etiqueta, mas o arcebispo é uma pessoa que visa à essência das coisas, atento mais para o tema da sua pregação sobre o capítulo do Evangelho muito significativo e até contundente na oportunidade: "Eu te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos humildes". Em seu discurso, os humildes eram os pobres, os marginalizados, os oprimidos. Falou ainda de um programa de ação que considera urgente para a Igreja atual: partilhar o pão da vida e testemunhar, sem medo, a presença de Deus. Todos são seus filhos e a verdadeira liberdade consiste em se abandonar a Ele. A busca da verdade deve caracterizar a vida do cristão e chegar à convicção de que todos, especialmente os pequenos, os pobres, os abandonados e marginalizados são filhos de Deus. O arcebispo sabe que a Igreja anglicana, assim como outras Igrejas cristãs, passam por momentos de crise, de abandono da juventude, de desistências e crises de identidade, especialmente no clero. Ele tocou no problema, esclarecendo seu ponto de vista muito importante: |
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