Revista "MUNDO e MISSÃO"
Religião - Cristianismo
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A Igreja ortodoxa russa por Alberto Garuti Continuando a série de artigos sobre a Rússia, iniciada no último número, vamos tentar entender porquê, nos últimos dez anos, os ortodoxos russos parecem encontrar sempre novos motivos para criar uma barreira ao diálogo ecumênico. Em tempos de ecumenismo, em tese, não deveria ser difícil o diálogo com os ortodoxos russos: entre as várias confissões cristãs, são aqueles que menos se distanciaram dos católicos, embora tenham sido os primeiros a não reconhecerem a autoridade do papa. Praticamente, suas divergências com a nossa Igreja limitam-se a isso. Mas, se, na teoria, o diálogo com eles seria fácil, na prática nenhuma outra confissão criou tantas dificuldades e conflitos como os ortodoxos russos. A RÚSSIA E A IGREJA ORTODOXA A Igreja ortodoxa russa exerce muita influência, ainda hoje, sobre a mentalidade do povo, não só pelo número de pessoas que ela representa (145 milhões contra somente 600 mil católicos), mas também pela sua autoridade moral. As últimas pesquisas de opinião pública dizem que a Igreja ortodoxa é a única entidade em que os russos confiam hoje em dia. Ela, reconhecidamente, exerce um papel positivo na consolidação política e no restabelecimento moral do país. Mas, todo gigante tem seu calcanhar de Aquiles e a Igreja ortodoxa russa não é exceção. Obrigada a viver, durante quase um século, à sombra do regime comunista e sem possibilidade de se atualizar, ela vive agora diante do espectro de dois perigos: um interno e outro externo. O interno seria o de uma implosão, diante da diversidade de correntes nela presentes: da modernização ao integrismo, da abertura ao apego às antigas tradições, do progressismo ao fundamentalismo, correntes pelas quais ela se viu tomada de repente devido à brusca queda do regime comunista dez anos atrás e à abertura ao mundo ocidental.
Eles têm pouca experiência nesse ramo, pelo fato de, durante quase um século, só terem atuado unicamente como porta-voz do regime comunista. Seria o medo, portanto, de uma debandada do povo para as religiões dos missionários vindos de fora. Atualmente, a situação em relação à Igreja católica é de ruptura total e a causa é um fato concreto acontecido no ano de 2002. Mas, analisando mais a fundo, temos que reconhecer que este é só um pretexto, uma causa aparente. As causas verdadeiras, são as indicadas acima. O PROBLEMA DAS DIOCESES: CONFLITO ENTRE ROMA E MOSCOU Um fato, aparentemente pouco relevante, veio piorar as relações entre Moscou e o Vaticano. A Igreja católica na Rússia estava dividida em quatro administrações apostólicas: estruturas provisórias de uma igreja que está ainda no período de formação e de organização. À medida que uma Igreja se estrutura e se organiza, ela é transformada de administração apostólica em diocese, passa a ter um bispo que a preside, com poderes maiores e mais bem definidos. Passar de administração apostólica a diocese é o caminho normal de toda Igreja em formação, regulamentado pelo Direito canônico. Em 11 de fevereiro de 2002, João Paulo II transformava as quatro administrações apostólicas da Rússia em dioceses, um fato de rotina na procedura da Igreja em todas as partes do mundo. Inclusive o governo de Vladimir Putin, consultado pela Santa Sé, não viu problema algum na decisão do papa. Mas não foi assim que a Igreja Ortodoxa interpretou a atitude papal. A REAÇÃO DA IGREJA ORTODOXA Ela interpretou a criação das dioceses como um primeiro passo da Igreja católica para uma ulterior campanha de proselitismo na intenção de conquistar, em massa, fiéis para o próprio rebanho. Ela estaria reforçando suas estruturas para poder, em seguida, trabalhar melhor e com mais eficiência. Houve manifestações de ortodoxos desfilando pelas ruas de algumas cidades russas, clamando contra a invasão estrangeira nas terras da "santa Rússia". O arcebispo de Tachkent, metropolita da Ásia central, chegou a dizer, numa entrevista ao jornal Isvestia, que receber, na Rússia, João Paulo II seria a mesma coisa que receber e apertar a mão de Bin Laden na Casa Branca. Mas a animosidade com que se tratou a questão impediu, como sempre, de ver as coisas com clareza e de considerar que o fato não passava de uma decisão de rotina. Os próprios ortodoxos não refletiram a respeito do fato de eles próprios manterem dioceses no exterior, como acontece na Alemanha, Áustria, Bélgica, Inglaterra e Irlanda e em vários países da América Latina, com bispos e padres russos presentes e atuantes. A Igreja católica fez aquilo que a própria Igreja ortodoxa russa vem fazendo há muito tempo. EXPULSÃO DE BISPOS E PADRES As queixas da Igreja ortodoxa não pararam nisso. Ela começou a dar palpites em certos departamentos do governo para que fosse anulado o visto de permanência no território russo de alguns entre os padres e bispos católicos mais influentes:
Isso fez com que dom Joseph Werth, bispo de Novo sibirsk, revelasse em Genebra a existência de uma lista de novas expulsões que compreende uma dúzia de nomes de padres estrangeiros. O QUE HÁ POR TRÁS DISSO? É evidente, como já foi visto acima, que a ereção das quatro dioceses não passa de um pretexto. Por trás, além do medo do proselitismo, de que já falamos, existe também a vontade de exercer pressão sobre o Vaticano para que deixe de apoiar a Igreja greco-católica da Ucrânia. Trata-se de uma Igreja católica, que aceita o papa, mas que segue os mesmos ritos litúrgicos bizantino-eslavos dos ortodoxos. Durante a ditadura comunista, ela foi muito perseguida e seus edifícios de cultos foram destruídos ou entregues à Igreja ortodoxa. Agora os membros dessa Igreja, chamada de Uniata, estão conseguindo a própria independência, com apoio e reconhecimento total da Santa Sé. São esses os motivos que praticamente se opõem à visita de João Paulo II à Rússia. O próprio presidente Vladimir Putin já expressou seu enorme respeito pelo papa e declarou-se disposto a convidá-lo, a qualquer momento, para visitar o país, à condição que sejam resolvidas as pendências entre o Vaticano e o patriarcado ortodoxo russo. |
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