Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Cristianismo

Ortodoxos e católicos na Rússia

Aparecem sinais positivos, mas ainda há muito para resolvermos

por José Caffulli

Dia 10 de março de 2003. Um lacônico comunicado da imprensa vaticana e do representante do patriarcado russo davam a notícia de um encontro reservado em Genebra entre o card. Walter Kasper e o metropolita Kiril de Smolensk, representante do patriarca de Moscou, Alex II.

Nesse encontro, foi feita uma análise das relações - que pioraram entre as duas Igrejas -, a partir de documentos sobre o proselitismo na Rússia, redigidos no ano passado. Uma verdadeira lista negra com nomes de institutos e congregações católicas presentes na Rússia em resposta a outro documento do Vaticano que protestava contra a expulsão do bispo polaco Jerzy Mazur e outros missionários, acusados de proselitismo entre os ortodoxos russos, e sobre a decisão de João Paulo II de criar quatro dioceses na Rússia.

Após um ano, as relações ecumênicas e diplomáticas entre as Igrejas católica e ortodoxa estão no seu nível mais baixo. A partir de janeiro, houve alguns sinais de distensão, como a correspondência regular entre Alex II e João Paulo II, um convite do patriarca de reatar as relações entre as duas Igrejas no Natal passado. As nomeações de novo Núncio Apostólico em Moscou, dom Mennini e do novo bispo de Irkusk, o bielo-russo dom Cyril Klimowicz, ajudaram a aliviar, em parte, a tensão, mas não diminuíram os contrastes entre as duas Igrejas.

Aliás, fontes internas da Rússia confirmam que as relações continuam tensas e para os católicos russos não mudou em nada a desconfiança recíproca. As leis que regulam o status da religião na Rússia, privilegiam somente as Igrejas ortodoxas e não as outras confissões cristãs e, em nível eclesial, não há espaço para uma colaboração entre ortodoxos e outros cristãos, excetuado em âmbito de pessoas.

Qual o futuro?

Quem nos ajuda a entender a situação atual na Rússia entre as duas Igrejas, é o prof. Enrico Morini, catedrático de História da Igreja ortodoxa. "É difícil" - ele diz - "fazer uma avaliação da situação atual e, portanto, não é possível dizer se as relações estão melhorando ou piorando. Certamente o Espírito sopra onde quer, e a esperança é que se retome o diálogo". O professor Enrico, porém, se demonstra moderadamente pessimista.

"O aspeto positivo é que está se tentando retomar um diálogo entre católicos e ortodoxos, embora este continue difícil. O cerne da situação, porém, não foi ainda tocado. Inicialmente, temos duas concepções de proselitismo: para os ortodoxos, proselitismo tem uma acepção ampla, para os católicos é mais restrita, razão de onde vem as incompreensões. Acontece que, depois de setenta anos de ateísmo e comunismo, os jovens estão interessados em religião e no catolicismo, que se apresenta com um forte dinamismo e exerce uma grande atração.

O fato que se acolham jovens que, espontaneamente, escolhem a Igreja católica, para os católicos, não é proselitismo, mas uma questão pertinente à liberdade religiosa. Para os ortodoxos, ao contrário, viver o cristianismo na Rússia, significa automaticamente ser ortodoxo. Portanto, é um problema de matriz eclesiológica, mas se isso não for compreendido e superado, poderão se dados, somente, tímidos passos adiante. A situação, portanto, é delicada e pede paciência e confiança porque levanta mais problemas concretos.

Por exemplo, se um moço russo pedisse para se tornar católico, o que fazer? Eu chegaria a sugerir que, nessa situação, o sacerdote católico lhe fizesse conhecer todo o patrimônio católico, mas o convidaria a se batizar na Igreja ortodoxa. Seria um bom trabalho de testemunho, de troca pastoral que, enfim, poderia ajudar a resolver os conflitos. Sustento essa posição, mesmo sabendo que também os ortodoxos não têm a consciência totalmente limpa. Nas paróquias deles, presentes no Ocidente, quando um jovem não russo pede para se tornar ortodoxo, eles não o recusam".

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