Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Espiritismo

O ESPIRITISMO

Alberto Garuti


As irmãs Fox

A palavra Espiritismo, ou Doutrina Espírita, foi criada pelo professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, em meados do século passado, para designar os princípios que regem as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invísivel, a partir dos estudos de manifestações, ou de fenômenos que a ciência não explicava, mas que se repetiam ou ocorriam em várias partes do mundo.

As origens do espiritismo

Os fenômenos ocorridos na cidade de Hydesville, no estado de Nova Yorque, EUA, marcam o início do estudo dessas manifestações. O pastor protestante John Fox, sua esposa e suas duas filhas, Margarida e Catarina, estavam conversando sobre fenômenos de assombração. Catarina primeiro e depois Margarida ouviram seus dedos estalarem e tiveram a impressão de que isso fosse repetido por alguém. O medo se apoderou de todos. A senhora Fox perguntou: "É espírito? Se é espírito, bata duas vezes". Ouviram-se duas batidas. Não tendo outra explicação para o fenômeno, os presentes concluíram que se tratava de um espírito "desencarnado" que queria entrar em comunicação com eles.

Outros fenômenos, que aconteceram mais tarde, foram interpretados como novas manifestações da presença de espíritos. Entre esses fenômenos, salientamos o das mesas giratórias: as pessoas se colocavam em torno de uma mesa pondo suas mãos em cima delas: elas faziam perguntas aos espíritos e a mesa respondia com golpes e movimentos determinados.


Casa da família na cidade de Hydesville

Outras pessoas, fora dos Estados Unidos, começaram a interessar-se por esses fenômenos. Uma dessas foi o professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail que fez várias pesquisas e também chegou à conclusão de que a única explicação possível fosse a atuação dos espíritos. Não apenas isso, mas ele pensou também que era a pessoa escolhida pelos próprios espíritos para escrever e codificar, sob a inspiração dos mesmos, a doutrina espírita. Assim, começou a escrever seu primeiro livro, O livro dos espíritos, que contém mais de mil perguntas que fez aos espíritos e as respostas que eles lhe deram. Seguiram-se outras obras, como O livro dos médiuns e O Evangelho segundo o espiritismo. Rivail tinha a convicção de ser a reencarnação de um druida, isto é, de um sacerdote dos antigos gauleses, chamado Allan Kardec, e sob esse pseudônimo escreveu todas as suas obras.

Atualmente, ele é pouco conhecido na França, mas o Espiritismo é difundido em outros países, especialmente no Brasil.

Grande influência no espiritismo brasileiro exerceu também o médium Chico Xavier, com seus livros, que também venderam milhões de exemplares e que foram, segundo ele, psicografados, isto é, escritos pelos espíritos através de sua mão.

Fundamentos da doutrina espírita

A doutrina espírita formou-se a partir da experiência dos médiuns e inspirou-se nas afirmações que foram atribuídas aos espíritos.

Deus é visto como criador, é a inteligência suprema, autor de tudo o que existe, os espíritos e a realidade material. É eterno, imutável, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom.


O famoso médium brasileiro Chico Xavier

No homem há, segundo os espíritas, três elementos:

o corpo, semelhante ao dos animais e animado pelo mesmo espírito vital;

a alma, isto é, o espírito encarnado no corpo; o corpo acaba sendo portanto, conforme a visão dos espíritas, "o alambique no qual o espírito tem que entrar para se purificar";

o laço que une a alma ao corpo e que se chama de peris-pírito, que seria uma espécie de invólucro semi-material. A morte destrói o corpo, mas não o perispírito, que acompanha a alma. O perispírito é invisível, mas pode tornar-se visível quando os espíritos se comunicam e aparecem. O perispírito seria o resultado da condensação de energia e é chamado também de corpo fluídico. Ele guarda a memória de vidas anteriores, seria o "arquivo" do espírito.

Com a morte, perde-se a parte mais grosseira das três, isto é, o corpo.

A realidade última não é a que se vê, a visível, e sim a invisível.

Tudo o que Deus criou evolui para chegar à perfeição, os espíritos também.

As almas foram criadas simples e ignorantes. Enveredam, contudo, por caminhos diferentes, umas pelos caminhos do bem, outras pelos caminhos do mal, conforme sua liberdade de arbítrio.

Passando por diversas encarnações, o espírito alcança um nível cada vez mais superior, livre de impurezas. Em cada encarnação, o espírito salda as dívidas que acumulou por causa de suas culpas nas vidas anteriores.

O carma explica as sucessivas reencarnações. Carma é um conceito do hinduísmo que significa: "o conjunto das ações do homens e suas conseqüências". Pelo carma, a alma reencarna sucessivamente até se purificar completamente. É pelo amor e a caridade que acontece essa purificação.

O lugar da purificação pode ser a terra ou outros mundos no universo. A terra é um dos mundos mais atrasados, se comparado com outros. Na terra, o invólucro da alma, o corpo, é um dos mais pesados e grosseiros. A medida que o espírito se purifica, encarna em mundos mais elevados, onde as características do corpo se aproximam mais do perispírito. Enquanto o hinduísmo admite que a reencarnação pode dar-se também num animal, segundo os espíritas, só é possível reencarnar na espécie humana.

Os espíritos desencarnados não ocupam lugares determinados, mas estão por toda parte, isso quer dizer que podem estar também ao nosso lado, ver-nos e conviver conosco.

O sofrimento pode ser explicado pela lei do carma, isto é, pela necessidade pessoal de purificação. Através do carma, cada espírito faz sua evolução para uma vida moralmente superior.


Obras assistenciais conduzidas pela comunidade espírita

Atividades espíritas

O lugar principal onde os espíritas agem é o centro: ali se desenrolam as sessões. De acordo com sua doutrina e suas crenças, em algumas delas, os médiuns recebem os espíritos. Em outras praticase a desobsessão, que tem por finalidade convencer um espírito que se desligue de uma pessoa que sofre por causa dele.

Com muita freqüência, aplicam-se passes nas sessões, para substituir fluidos negativos por positivos. Há também momentos de atividades culturais e de estudo, em que se proferem palestras para um maior conhecimento da doutrina espírita e de seus rituais.

A prece é um elemento que está sempre nas atividades dos centros.

Fora dos centros, os espíritas praticam atividades assistenciais e caritativas: existem também hospitais e colégios espíritas. Com efeito, Allan Kardec, em seu terceiro livro da codoficação, "O Evangelho segundo o espiritismo", inspirou-se nos ensinamentos morais de Jesus Cristo. Podemos dizer que, para os espíritas, o homem de bem é aquele que pratica a lei da justiça e da caridade.

Espirito e cristianismo

Segundo o que ensina Kardec, "o papel de Jesus não foi simplesmente o de um legislador moralista, sem outra autoridade que a sua palavra. Ele veio cumprir as profecias que haviam anunciado o seu advento. Sua autoridade decorria da natureza excepcional do seu espírito e da natureza divina de sua missão. Ele veio ensinar aos homens que a verdadeira vida não está na terra, mas no Reino dos Céus; ensinar-lhes o caminho que conduz até lá, os meios de se reconciliarem com Deus e os advertir sobre a marcha das coisas futuras, para o cumprimento dos destinos humanos" (O Evangelho segundo o espiritismo).

O espiritismo não reconhece a divindade de Jesus na sua identidade com Deus mas, como afirma Allan Kardec, "Jesus é filho de Deus como todas as criaturas. Ele o chama de Pai, como nos ensinou a chamá-lo de nosso Pai. Ele é o Filho muito amado de Deus porque, tendo chegado à perfeição que se aproxima de Deus, possuía toda a sua confiança e toda a sua afeição. Ele mesmo se diz Filho unigênito, não porque seja o único que tenha chegado a esse grau, mas porque só ele era predestinado para essa missão na Terra" (Obras Póstumas).

Portanto, Jesus Cristo não passaria de um espírito muito evoluído através de suas sucessivas reencarnações. Deus enviou o espírito de Jesus à terra não para que se purificasse, mas para que ensinasse aos homens deste planeta pouco evoluído o caminho do bem e do amor.

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