Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiões Gerais

Com a cor da manga madura

Ernesto Arosio

Cristianismo, budismo, hinduísmo e islamismo são religiões que apontam para a salvação do homem. Essa se realiza plenamente após a morte, mas é atingida e conquistada aqui durante a vida e, geralmente, através da superação da materialidade da vida terrena
ou da obtenção da perfeição

A perfeição no budismo

A salvação no budismo realiza-se através da superação total da materialidade da vida, na purificação do espírito até o extinção total - nirvana - dos desejos, paixões e vontade de viver do homem. Quem chegar a este ponto de anulação dos impulsos da vida é considerado arhat, isto é, digno de entrar no nirvana que é o desaparecimento do corpo material e também do carma isto é, escapa do ciclo das reencarnações ao qual o não perfeito está submetido até chegar à purificação total. Os arhats ou monges tornam-se assim o ideal da perfeição budista aqui na terra. Vestem-se de amarelo com leves nuanças diferentes conforme os países (cor palha na Tailândia, açafrão no Sri Lanka e coral no Tibete), porque um dos preceitos das regras dos monges budistas é que o monge sempre deve levar sua roupa. A cor da manga madura é o sinal da perfeição que se deseja conquistar ainda durante esta vida.
Para conseguir essa perfeição, os monges pedem esmola, vivem em pequenas comunidades, observam as 250 normas para os homens e as 500 para as monjas, ditadas ao longo dos séculos, a partir da grande comunidade fundada por Buda. Ficam obrigados a se purificar de todo desejo e paixão que implique um apego afetivo às coisas e às pessoas, tanto que, até os pais, tornam-se estranhos para os filhos monges.
Nesse desapego radical, fundam-se as quatro virtudes que devem distinguir o monge budista: a benevolência universal; a compaixão para todos os homens e seres viventes; a alegria pela glória e sucesso dos outros e o desapego e a impassibilidade diante dos acontecimentos desse mundo caduco. Além dessas virtudes, existem as perfeições ou os aspectos positivos que o monge deve conseguir e que podem variar nas definições, de um mosteiro para outro. Esses se resumem na doação, paciência, virilidade, paz interior, domínio dos sentidos e outros, conseguindo a libertação da materialidade, o que realiza a sabedoria interior. O dhammapada - ou regra dos monges budistas - descreve essa paz como "um lago profundo, completamente calmo e transparente... É assim que se tornam os sábios após ter ouvido a Lei... calma é a mente, calmas são as palavras, calma é a ação de quem, através do justo conhecimento, conseguiu a libertação interior... aquele cujo pensamento está totalmente ligado à perfeita iluminação, que se regozija por nada receber, na liberdade do desapego, que dominou todas as paixões, que está cheio de luz... Esses já conseguiram a libertação nesse mundo".

A perfeição no jainismo

Mais severa é a escolha dos monges jainistas, a segunda maior religião depois do budismo na Índia, fundada por Mahavira, no século V a.C.
A finalidade dos monges no jainismo é triunfar sobre o maior inimigo que é o próprio corpo: ele é a origem de todos os males, da impureza e do pecado que é o carma. Por isso, os monges jainistas passam por severos jejuns, praticam autopunições, recusam se proteger do frio, do calor e das intempéries seja por causa da autopurificação como para ser modelos de autodisciplina nas aldeias onde, como gurus, pregam com o exemplo e a prática, a não-violência, o respeito à natureza, o desapego do álcool e ao sexo.
Entre eles existem duas categorias: os vestidos de brancos - svetambara - e os que andam completamente nus - digambara. Além dessa ascese, praticam a filantropia e a compaixão levadas até o extremo. Em todas as atividades, os monges e as monjas jainis-tas procuram não prejudicar nenhum ser vivo seja ele pessoa, inseto ou fio de erva. Evitam também qualquer ato que comporte morte de algo vivo, evitando assim a agricultura e condenando a criação de animais para matar. São geralmente solitários, solteiros, silenciosos, meditativos, incontaminados, não têm relações com o outro sexo e exaltam o domínio sobre as forças do carma. Tidos como santões, (as clássicas figuras do penitente ou asceta indiano), esse monges não aceitam nenhum deus pessoal, mas somente a vida moral e ascética por si mesma a cuja perfeição chegam através de práticas de ioga.

A perfeição na Índia

A salvação do hindu é, como nas outras religiões orientais, perder-se no ser universal, o Absoluto - o Braham - onde todos os seres individuais - atman - se fundem e desaparecem.
A busca da perfeição de um hindu, aqui na terra, dá ênfase mais à meditação, acompanhada porém de atos de autodomínio das próprias paixões, que leva a formas de negação da materialidade do corpo. Não existem confrarias; contudo, podem se reunir nos ashram ao redor de um guru. Geralmente o místico hindu é um solitário ou vive solitariamente. O máximo da perfeição é chegar, através da meditação, ao conhecimento profundo, místico, do Absoluto em que o indivíduo perde a sua identidade para se tornar, já nesta vida, um Braham. Clássica é a definição da perfeição hindu: eu sou o Braham, eu sou o Absoluto.
Quando alguém consegue chegar a essa experiência, é considerado iluminado, porque recebeu a iluminação interior, e torna-se asceta, desapegado dos vínculos terrenos, das ações humanas, vivendo só na atmosfera do eterno.
A Índia é povoada desses ascetas de longa barba branca, com uma candura ou inocência no olhar, a testa marcada com as cinza de Siva e um pedaço de pano envolvendo seu corpo. Vivem de esmola, viajam de uma aldeia a outra, de um santuário para outro e são tidos como grandes san-tões, além do bem e do mal, porque já teriam conseguido a perfeição nessa vida, que será porém realizada plenamente após a morte. Os maiores desses santões podem ter um santuário construído sobre sua tumba.
Todos podem chegar a esse estágio de contemplação, mesmo desde a infância, mas o momento mais oportuno é quando os homens já cumpriram as obrigações fundamentais da existência. Para os de casta superior, essas seriam: ter sido discípulo dedicado aos estudos de livros sagrados ou vedas, ter sido um chefe de família que cumpriu seus deveres familiares e econômicos; ter meditado no silêncio, na solidão, nos santuários ou nos bosques e, ainda, quando estiver livre de todo vínculo com o mundo e poder assim ser o anunciador do Absoluto entre os homens.
Um antigo texto sintetiza os deveres desses ascetas-sannyãsins : "esmolar na aldeia próxima, não roubar, ser puro, abster-se da negligência, das relações carnais, da ira, ter compaixão e paciência com todos os seres, ser obediente ao seu guru e verdadeiro". Eis os mandamentos para conseguir a perfeição na terra e perder-se, após a morte, no Absoluto.

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