Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiões Gerais

Atalhos para a salvação

Ernesto Arosio

O termo "salvação", embora ande um pouco em baixa na vida cotidiana do homem moderno, permanece arraigado no espírito humano. A preocupação com a salvação pode provocar sentimentos negativos, como medo e ansiedade pelo futuro, especialmente após a morte ou trazer sentimentos de segurança, paz e comunhão com as realidades espirituais.

A salvação ou tipo de salvação em que se acredita influencia a existência terrena, moldando-a e criando maneiras diferentes de viver o presente.
Nem todas as religiões têm o mesmo conceito ou dão o mesmo conteúdo à palavra salvação. Para o cristianismo, salvação é, após a ressurreição da carne, o encontro com Deus Pai e a conseguinte felicidade eterna, mas essa felicidade deve ser conseguida durante a vida terrena. Para o budismo e o hinduísmo, a salvação é romper o ciclo interminável das reencarnações, através de comportamentos adequados durante a reencarnação atual, para se perder no nirvana.
Enquanto para algumas religiões, a salvação é um sair da história desse mundo (cristianismo), para outras, é livrar-se da existência individual e perder-se num todo nem sempre bem definido em sua essência (religiões orientais e cósmicas).

Islã: salvação espiritual e social

O islamismo, embora tenha a mesma inspiração do cristianismo, porque nascido num ambiente influenciado pelo judaísmo e pelo cristianismo (662 d.C.), tem uma interpretação própria da salvação e da religião. Esta se apresenta como uma religião que persegue o sucesso e a prosperidade aqui na terra e a felicidade futura após a morte; uma felicidade que é expressa em termos muito concretos com descrição de imagens semelhantes ao sucesso material que se tem aqui na terra. A sura 56 descreve o paraíso como um oásis sem limites onde os crentes repousarão sobre leitos ornados de ouro e pedras preciosas, um em frente ao outro, rodeados de adolescentes eternamente jovens com cálices de bebidas refrescantes e límpidas, frutas seletas e carnes escolhidas. Estarão presentes também as huri (literalmente, "as brancas") de grandes olhos semelhantes a pérolas, como recompensa por todo o bem que tiverem feito durante a vida. Essa descrição repete-se outras vezes no Alcorão. Os que não creram serão condenados ao inferno, cuja parte mais profunda, a geena, está reservada aos que não se converteram ao islã ou o abandonaram para seguir outras religiões.

Salvação e vida terrena

Para o muçulmano, o sucesso na vida terrena é sinal da benevolência de Alá, por isso a riqueza, a prosperidade, a numerosa e longa descendência são bênçãos de Deus e premissa da felicidade na outra vida: portanto, é lícita a sua busca.
Ele não aceita a mística do sofrimento ou da renúncia em vista do paraíso, por isso, o monaquis-mo e ascetismo celibatário são estranhos ao islamismo, pelo menos, na maioria sunita. A corrente xiita, porém, aceita o martírio pela fé, o sofrimento e o ascetismo como certeza para conseguir o paraíso.
A oração, que todo bom muçulmano reza diariamente voltado para a Meca, é iniciada pelo muezim com um convite bem esclarecedor: "Venham para a oração! Venham para o sucesso!".
Para obter a salvação na outra vida e o sucesso nesta, é indispensável a fé acompanhada pelas obras e o Alcorão insiste nesta união: "Aqueles que creram e operaram o bem, terão o paraíso como morada". As obras que o bom muçulmano deve praticar são as referentes ao culto (oração diária, jejum no Ramadã, peregrinação à Meca), a esmola e a guerra santa. A fé, porém, está acima de todas essas obras e somente ela pode propiciar a salvação. No momento da morte, é desejável que o moribundo pronuncie seu testemunho de fé, rezando a fórmula clássica do islã: "Não existe outro deus além de Alá e Maomé é seu profeta".
Para o muçulmano, não existem, entre Alá e os homens, intermediários ou mediadores e, portanto, não tem sentido as orações pelos defuntos. O crente está só diante de Deus e depende apenas dele mesmo salvar-se ou ser condenado.

Salvação e pecado

O crente muçulmano, porém, está sujeito aos pecados e a doutrina islâmica enumera vários, entre os quais, uns tão graves que nem Alá pode perdoá-los (a idolatria e o suicídio) e outros menos graves: a apostasia, a blasfêmia contra Maomé, o homicídio, o adultério, as faltas contra a natureza, contra os pais, a magia negra, a calúnia e a prática da usura. Esses pecados permanecem manchando a pessoa até que o pecador não se tenha arrependido e mudado seu comportamento.
Uma maneira de purificar-se dos pecados é a esmola aos pobres e, em particular, a peregrinação a Me-ca, que deveria ser o ponto alto da conversão do muçulmano.
Proibições que prejudicam a obtenção do sucesso aqui e na outra vida, mas cuja gravidade é julgada de maneira diferente, conforme as várias correntes islâmicas e culturas, são as prescrições alimentares que proíbem a carne de porco, o álcool e as carnes de animais mortos não conforme o ritual muçulmano.

A salvação no xintoísmo

O xintoísmo é a religião da natureza e, portanto, não tem respostas claras às tradicionais perguntas sobre quem é homem, qual o sentido da existência e a vida depois da morte. Não há nenhuma norma moral ou ética: o homem é parte dessa natureza, que é divina, e as pessoas, mais que os animais, devem saber pela sua natureza o que é o melhor a ser feito em cada momento. A vida e tudo o que a torna mais bela é considerada positivamente, enquanto a morte e tudo o que a ela conduz (doença, infelicidade, pecado, falta de sorte) é considerado negativo e deve ser evitado. Nenhum sentimento de culpa, mas, de vez em quando, uma purificação ajuda as pessoas a viver em maior sintonia com a natureza. Essas cerimônias purificatórias são feitas em lugares considerados sagrados como o monte Fuji, os templos e as praias e em datas especiais, como o dia da luz, no início do ano.
Entre as poucas virtudes cultivadas pelo xintoísmo, há os sentimento da honra e da fidelidade, considerados, contudo, como um fim em si mesmo, sem valor ético algum. Essa honra traduz-se na fidelidade aos próprios deveres, na lealdade ao imperador, aos superiores e ao grupo ao qual se pertence.
O xintoísmo tem santuários e lugares santos onde a força ou energia da divindade se revela mais, bem como sacerdotes e sacerdotisas que estão a serviço dessas forças naturais e que se tornam gurus ou mestres de elevação espiritual.

A felicidade do paraíso Sura 44 (40-59)

"Os tementes a Deus (após o julgamento) estarão em lugar seguro - entre jardins e fontes - vestidos de seda e brocado, face a face. Assim será. Receberão como esposas jovens de grandes olhos pretos; pedirão todo tipo de fruta que gozarão na segurança. Aí não encontrarão mais a morte salvo a Primeira Morte e Alá os preservará das penas do fogo do inferno - pela graça do Senhor. Este é o sucesso supremo (...)".

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