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Nirvana: o perder-se no absoluto
Ernesto Arosio
Quase todas as religiões concordam que a salvação
é um fato essencialmente pessoal, ou seja, o fiel se salva através
das atitudes que adotou durante sua vida terrena. Em todas as religiões,
há correntes, guias, gurus e mestres que indicam caminhos espirituais
para conseguir a salvação
Os hindus e a salvação
O hinduísmo, a mais antiga religião organizada da humanidade
e a principal da Índia, sofreu uma sensível evolução
durante os séculos, passando de uma crença primitiva e simples
a uma religião sincrética, com fortes elementos das religiões
locais e do budismo.
Nos livros mais antigos dos Vedas, a salvação era pessoal,
havia um lugar após a morte, um reino de luz e felicidade em que
os bons, na imortalidade, poderiam gozar do convívio com as divindades,
enquanto os maus teriam uma existência eterna de sofrimentos, numa
espécie de inferno.
Com o tempo, foi introduzida no hinduísmo a teoria dos ciclos cósmicos.
O universo manifestar-se-ía através de longos ciclos de
tempo indeterminado que corresponderiam às reencarnações
do Brama, intercalados por períodos de repouso do mesmo em que
se produziria uma dissolução cósmica. Quando o Brama
acordasse, re-começaria o ciclo das reencarnações
e assim eternamente, alternando épocas de manifestação
e repouso.
As reencarnações, as transmigrações (ou metempsicose,
que é a reencarnação do espírito humano em
seres inferiores como animais, plantas e minerais) acompanham esses ciclos
e acontecem pela lei implacável do carma das pessoas - destino
negativo - que submete a vida atual à dor, a fim de que a pessoa
expie as faltas das existências anteriores. Isso é motivo
de grande angústia para os hindus, os quais procuram se subtrair
a essa lei através de uma vida de meditação e de
renúncia. Todo esforço do bom hindu será, de uma
maneira ou de outra, realizado para escapar dessa dolorosa transmigração
- seu carma - e assim encurtar os ciclos das reencarnações,
para, finalmente, poder perder-se no nirvana. É isso que procuram
os ascetas.
Salvação e prática da religião
Os livros sagrados mais antigos - como os Upanishad - ensinam que a condição
de pecado da vida humana é provocada pela ignorância, pelo
desejo e egoísmo de onde provém o carma que condiciona a
existência à lei da reencarnação. Diz um texto
do Mahabharata que: "a árvore do desejo nasce no coração;
sua raiz é a ignorância; a ira e orgulho são o caule
e seus frutos provêm das más ações realizadas
nas vidas passadas".
O segredo para se livrar do carma, das transmigrações e
reencarnações está, portanto, no repúdio total
e radical dos desejos que levam às más ações
e amarram às paixões. Quem conseguir se libertar dos desejos,
rompendo essa corrente cósmica já em vida, torna-se, um
bramam e se une ao Brama. "Quando todos os desejos foram anulados,
então o homem se torna imortal e, desde já, é um
bramam, - reza o Upanishad - fica somente o espírito, incorpóreo
e imortal como Brama, energia pura". Isso significa desaparecer no
Brama e não estar mais sujeito a posteriores reencarnações,
porque o espírito se dissolveu no nirvana.
Quando um indivíduo chega, em sua vida, ao desapego total dos desejos,
tornando-se um bramam, é reconhecido pelo povo como um santo e
seu corpo, após a morte, recebe um tratamento diferente. Enquanto
os comuns mortais têm o cadáver cremado para evitar que o
espírito retorne nele, o de um bramam é entregue às
águas de um rio, possivelmente o rio Gange, como sinal de que o
espírito não precisa mais de nenhum invólucro corpóreo,
visto que seu estado de bramam é definitivo e final: para ele terminou
o ciclo das reencarnações.
Os meios de salvação
Para conseguir essa estágio de anulação dos desejos,
o hindu tem alguns caminhos que lhe facilitariam o êxito. Os caminhos
são: o do conhecimento - ñanamarga, o das obras - karmagara,
o da dedicação amorosa - bhaktimarga -, que pede a oração
constante do asceta, para que possa se perder na confiança do poder
da divindade.
Além desse três caminhos, o hindu tem meios e guias como
o avatar, o guru e o mantra. O avatar é a encarnação
da divindade que assume formas humanas ou de outros seres vivos, como
animais ou plantas. Brama e Krishna são os avatares de Visnu e
a tradição diz que suas vindas entre os homens são
numerosas, particularmente quando falha a justiça e triunfa a ilegalidade
na terra. O guru (ou mestre) é o mediador entre a realidade última
e seus discípulos. Sem a direção firme de um guru,
seria praticamente impossível conseguir a salvação,
segundo o conceito do hinduísmo. Por isso, todo bom devoto hindu
faz referência a algum deles. O guru torna-se, então, a autoridade
absoluta para seus discípulos que lhe atribuem honras e até
nomes divinos. Em contrapartida, o guru indica o caminho específico
para a meditação do discípulo, indicando-lhe um mantra,
uma espécie de fórmula mágica, cuja constante repetição
cria o contato interior com a divindade de sua devoção.
O mantra é um meio indispensável no caminho da purificação
e da salvação dos hindus.
Ética hindu
Dentro dos vários caminhos, o das obras realça a importância
da vida moral ensinada por todos os verdadeiros gurus para conseguir a
anulação do carma e a fusão no nirvana. Entre as
obras a serem realizadas, destacam-se o domínio sobre si mesmo,
a compaixão para com todos os seres vivos e a esmola, definidas
como as três virtudes fundamentais do hinduísmo.
Outros gurus apresentam outros caminhos da purificação:
o repúdio das coisas terrenas, a separação intelectual
entre o eterno e o não eterno, a prática das virtudes citadas
e um intenso desejo de salvação.
A salvação e o povo
Evidentemente, essas teorias referentes à salvação
são difundidas e praticadas nos centros de vida espiritual - ashram
- e pelos ascetas e, como em todas as outras religiões, essas correntes
espirituais, muitas vezes, criam polêmicas com a religiosidade popular
e os rituais praticados pelo povo. De fato, o povo busca a salvação
nos templos, nos rios sagrados, nas peregrinações, fazendo
com que devoção e magia, oração e ritos, astrologia,
purificação das culpas, aquisição de méritos,
penitências, autopunições, ingenuidade e exploração
se fundam num fenômeno intenso e colorido que somente na Índia
é possível encontrar.
Reencarnação e cristianismo
A reencarnação não existe na tra-dição
religiosa judaico-cristã. Ela é totalmente contrária
ao dogma cristão da ressurreição da carne, que é
o retorno, no final dos tempos, a uma vida pessoal, eterna, embora transformada,
de felicidade ou danação. Apesar dessa contradição,
muitos cristãos, até mesmo praticantes, acreditam na reencarnação,
porém, num sentido distorcido do conceito oriental.
Enquanto nas religiões orientais e nas seitas que nelas se baseiam,
a reencarnação é uma expiação das vidas
precedentes, para os ocidentais, ela se torna um vago desejo de tornar
a viver após a morte, um consolo diante do inevitável, do
medo, do desconhecido, querendo de certa forma driblar a realidade da
morte: um conceito bem de acordo com o modismo atual da New Age.
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