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Ritos e mistérios nas religiões tradicionais
Ernesto Arosio
Desde que o ser humano percebeu a existência de seres transcendentes
que podiam influenciar, positiva ou negativamente, sua vida, começou
a criar cerimônias para cultuá-los ou esconjurá-los
e neutralizar seus possíveis efeitos negativos.
Além de orações criou rituais e encontrou símbolos
com características próprias do povo que, ao longo dos séculos,
foram se modificando e se fixando até se tornarem cerimônias
que podemos definir como verdadeiras liturgias populares.
A finalidade desses rituais varia muito, dependendo da cultura e tradição
locais, mas também dos momentos da vida a que se refere, por isso,
encontramos oferendas das primícias das colheitas (entre os povos
agricultores) ou da caças (povo caçadores), muitas formas
de purificação, danças e até sacrifícios
cruentos, como flagelações, circuncisões e assassínios
rituais. Tais celebrações podem assustar um desavisado espectador,
que não pertença àquela cultura, e também,
não se justificam mais no dia de hoje, mas são atos que
se originaram do conceito que cada cultura tem das suas divindades e constituem
o patrimônio cultural e religioso de cada povo.
Rituais nas religiões tradicionais
Nas religiões tradicionais, erroneamente chamadas "primitivas",
e naquelas que se baseiam nos ciclos lunares, solares ou cósmicos,
existe uma forte preocupação com a passagem desses ciclos,
porque o homem percebeu, por sua secular experiência, o quanto é
importante o fluxo normal e regular desse fenômenos para gozar de
tranqüilidade e felicidade na vida cotidiana. Para conseguir essa
segurança, os primitivos deram grande valor aos ritos de propiciação
da fertilidade humana, animal e da terra, estabelecendo rituais que podem
ser oferendas, libações, purificações corporais
ou do lugar, sacrifícios de animais e, até pouco tempo atrás,
de pessoas (assassínio ritual). Entre os peles-vermelhas, por exemplo,
ofereciam-se cavalos; em algumas tribos dos esquimós, renas, além
de se pronunciar uma oração de oferenda ao Grande Espírito
para que devolvesse, em abundância, o que lhe era oferecido.
Em quase todas as culturas tradicionais, essas celebrações
são realizadas com muitas danças, às vezes reservadas
somente aos adultos de um ou outro sexo, ou que simulam combates simbólicos,
em que, ao final, vence sempre quem representa o bem, a força da
natureza. Citamos como exemplo o ritual dos swazi, difundidos em toda
a África Central, no qual se simula uma rebelião contra
o rei ou chefe da tribo que é desautorizado e humilhado mas seus
defensores acabam vencendo e ele é recolocado triunfalmente no
trono. Simbolicamente, a ordem foi restaurada e o povo pode confiar na
benevolência dos espíritos para as próximas colheitas.
Nesses rituais, o homem tribal revela a alegria de viver, a certeza da
manutenção de sua vida na abundância e sob a proteção
do céu. Em toda as suas manifestações, é perceptível
a noção de que vida ou morte, riqueza e sofrimento, luz
e trevas dependem não dele, mas dos seres superiores; os ritos
tornam-se, então, uma maneira de comunicar com esses seres e de
participar da vida deles. Não é um simples folclore, mas
uma genuína expressão da religiosidade que permeia toda
a vida dessas pessoas. Os ritos da purificação não
são somente para as pessoas, mas também para os lugares
onde se vive e podem ser realizados através da água e do
fogo. Sua finalidade é livrar-se dos espíritos maus e de
suas ações nefastas, invocando a proteção
dos espíritos bons para ter colheitas e caça abundantes.
Os grandes rituais da vida
Essas culturas, pelo envolvimento existencial com a natureza, não
conseguem separar o aspecto religioso da vida social e, portanto, têm
rituais mais marcantes para os grandes acontecimentos da vida: o nascimento,
a iniciação para a vida adulta e social, o matrimônio
e a morte.
Para eles, a vida é um grande mistério. Por exemplo, devido
às situações precárias de higiene ou pelo
uso tradicional de remédios inadequados, existe sério perigo
de morte para o nascituro e para a mãe, daí a felicidade
de o filho nascer vivo e a mãe sobreviver ao parto e a preocupação
de pedir a proteção divina para eles. A mãe, antes
de dar à luz, deve cumprir cerimônias para escapar da morte
e ter a alegria de criar uma nova vida. Em certas tribos, como as dos
índios da Amazônia, o marido também pratica um ritual
de acompanhamento do parto, simulando as dores da esposa durante o nascimento
do filho, como se fosse ele quem estivesse parindo e confundir os espíritos
maus. Em outras tribos, as mulheres devem ficar segregadas numa cabana
escura, uns dias após o parto, não somente por normas higiênicas,
mas também para impedir que os espíritos maus as descubram.
Superstições? Não: rituais antigos que provêm
de uma secular experiência.
A cerimônia de iniciação, (quase sempre para os adolescentes
de sexo masculino, embora em algumas culturas, também para as meninas)
acontece num ritual complexo: geralmente, os adolescentes são isolados
na floresta ou em cabanas à margem da aldeia, onde mulheres não
podem entrar, e aí são preparados para a vida adulta da
aldeia, recebendo ensinamentos sobre as tradições locais.
Normalmente, a cerimônia se conclui com a circuncisão ritual
do prepúcio, fato dolorido que pode causar a morte por infecção
generalizada. Naquele momento, o adolescente, tendo superado as provas
e demonstrado coragem, torna-se adulto e guerreiro. Em certas tribo, o
rito da iniciação é comparado à morte (simbólica)
da criança, que ressurge como adulta, portanto, ela deve dar prova
dessa maturidade, vencendo a dor. Os nossos índios são obrigados
a superar provas dolorosas, como a cerimônia da tucandeira. Outros
rituais complexos e ricos de símbolos religiosos e sociais celebram
o casamento e a morte
A dança: participação na natureza
Para esses povos, viver significa participar da natureza, estar em contato
com os espíritos bons e maus, com os antepassados, procurando sempre
a harmonia com todo esse universo mágico.
Nesse contexto a dança tem um papel importante: serve para criar
o ambiente emocional que estabelece a comunicação de todo
o seu corpo - através de movimentos, música e cantos - com
o universo. Considerar, portanto, as danças tribais e seus cantos,
simplesmente como algo folclórico e sensual, significa não
entender uma expressão fundamental da existência social e
religiosa do homem, que vibra com o universo.
O fanado na Guiné Bissau
O ato central da iniciação dos jovens na Guiné Bissau
é a circuncisão e o que acontece durante a cerimônia,
será o grande segredo da vida e sua revelação seria
punida com a morte pelo espírito Iran.
O jovem é imerso no lodo de um rio, até os joelhos para
dificultar seus movimentos, durante o corte do prepúcio que o mestre
irá realizar com uma faca afiada. O iniciando deve dar prova de
sua força e coragem, não emitindo qualquer gemido. Em seguida,
com pedrinhas aquecidas, o mestre tenta cauterizar a ferida. No final,
os jovens circuncidados são levados para as cabanas, onde ficarão
de bruços sobre covas, para evitar tocar a terra com a ferida e,
todos os dias, acompanhados pelo mestre, irão se banhar no rio
para evitar infecções. No caso que aconteçam, o mestre
irá curá-las com ervas. Se morrer, o jovem será sepultado
no lugar e ninguém (nem os pais) poderá perguntar as causas,
por causa do aspecto sagrado dessa cerimônia.
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