Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religiões Gerais

Libertação e redenção na tradição pascal

Ernesto Arosio

A maioria das culturas da humanidade, desde os tempos mais antigos, vem se questionando sobre a morte: desaparecemos ou continuaremos a viver? Como? E se voltarmos a viver, como seremos? Reencarnados, conforme várias interpretações, ou desapareceremos na grande energia cósmica? Entretanto, a não ser as religiões cristãs, nenhuma cultura ou crença viu a possibilidade da ressurreição da pessoa como tal.
As perguntas sobre o que há após a morte perturbam até muitos pensadores modernos, porque o homem tem, no mais profundo de seu ser, esse desejo de ser eterno e busca, em sua cultura, símbolos que expressem sua esperança numa outra vida.
Exemplo dessa união entre fé e cultura é a própria festa da páscoa, celebrada de maneiras tão diferentes nas varias culturas, mas não menos significativas e que evocam tradições anteriores aos ritos judaicos. Esses, provavelmente, tomaram uma consistência quando os judeus celebraram a passagem do anjo pelo Egito, onde viviam escravos, ocasião em que os filhos de Israel foram salvos porque identificados pela marca do sangue de um cordeiro.
A páscoa de Cristo tem um significado mais profundo, apesar da correspondência com alguns símbolos da páscoa judaica: como ele ressurgiu três dias após sua morte, todos ressurgirão para a vida eterna. E a páscoa para os cristãos é a festa da esperança na vida eterna. Os símbolos usados pelos cristãos significam, portanto, um novo desabrochar da vida, uma passagem da morte para a vida, através da ressurreição. Isso explica o costume dos ovos coloridos (às vezes, até dourados, como na Rússia, verdadeiras jóias, trocados como presente), porque o ovo, ao se abrir, representa o sepulcro que liberta a nova vida. Outras tradições comuns aos cristãos são a benção do fogo novo, as velas ou círio, símbolo de Cristo ressuscitado, o pão artisticamente enfeitado porque é alimento que sustenta a vida. Páscoa para os judeus é vida e liberdade; para os cristãos é vida e ressurreição.

Símbolos e vida

Na páscoa cristã e judaica, existem símbolos comuns: o cordeiro sem ossos quebrados e seu sangue, marcando o povo para uma nova realidade de mudança e libertação. Cristo é o cordeiro imolado que salva a humanidade com seu sangue e o evangelista insiste em dizer que, na cruz, nenhum osso lhe foi quebrado.
Esses mesmos símbolos são utilizados em tribos de beduínos, nômades, pastores de ovelhas que vivem no deserto ao norte do Iraque: um rito da vida, correspondendo à páscoa de cristãos e judeus que é celebrado no primeiro plenilúnio da primavera. Na realidade, esses beduínos árabes têm a mesma origem dos judeus em Abrãao e essas semelhanças comprovam a autenticidade e a antiguidade de ambas as tradições.


A festa dos beduínos

O relato da celebração da vida entre os beduínos é feita por um viajante que passou algum tempo vivendo com esse povo.
"Ao pôr-do-sol, centenas de pastores vindos de todos os lados do deserto preparavam-se para celebrar a festa da vida, a fim de que os deuses tornassem verdes as pastagens para seus rebanhos, fonte e sustento de suas vidas. Um cordeiro foi dependurado pelas pernas posteriores, degolado e seu sangue recolhido numa grande tigela, sem que nenhum osso lhe fosse quebrado para que a divindade não recusasse essa oferenda, mas que a devolvesse multiplicada na fecundidade das ovelhas e na fartura das pastagens. Enquanto os homens sacrificavam o cordeirinho de um ano, algumas mulheres cozinhavam sobre pedras quentes pães ázimos, tipo de pão usado ainda hoje por muitos povos orientais. Outras preparavam um molho de ervas aromáticas que brotam no deserto.
O chefe do grupo ungiu com o sangue do animal degolado as testas dos homens e das mulheres, as cordas e as estacas das tendas para invocar os deuses bons e afugentar os espíritos do mal, especialmente Mashkhit, o destruidor. O rito terminou com um banquete em que os homens ficaram de pé com um bordão nas mãos, como se estivessem preparados para uma viagem. Após esse ritos, a vida continuaria normalmente e os beduínos voltariam para o deserto, confiantes na proteção divina".
Dois símbolos dessa festa são comuns à páscoa judaica: o cordeiro de um ano, sem mancha, sem ossos quebrados, comido em pé, como se estivessem prontos para partir, e as ervas amargas.
Os samaritanos, embora atualmente reduzidos a um pequeno grupo que vive perto de Nablus, a Neápolis do relato evangélico, ainda celebram assim sua páscoa no monte Garizim.

PESSACH: a páscoa judaica

A páscoa judaica é chamada pessach, o que significa libertação e lembra o episódio encontrado no Êxodo, contando que quando os judeus eram escravos no Egito, receberam a ordem de Moisés para degolar um cordeiro de um ano, comê-lo de pé, prontos para viajar e marcar com seu sangue as portas de suas casas. O anjo exterminador matou os primogênitos dos egípcios e dos seus animais, mas poupou os dos israelitas.
Para os judeus, a páscoa é celebrada no primeiro dia de lua cheia do primeiro mês do início da primavera e dura sete dias. É a festa mais importante porque comemora a liberdade e a identidade judaica, permitindo a sobrevivência desse povo por longos séculos, através desses seus ritos.
A pessach é uma festa tipicamente familiar. No dia anterior à celebração, faz-se uma profunda limpeza da casa, procurando não deixar nada de fermentado nela; em alguns lugares, costuma-se até queimar esse lixo para ensinar às crianças que, naqueles dias, é permitido comer somente pães ázimos, conforme a prescrição de livro do Êxodo. A Cabala ensina que o fermento representa as imperfeições morais e as tendências negativas do homem. Assim como a massa fermentada enche-se de ar e cresce, assim o homem se enche de vaidades vazias. O pão ázimo lembra também aos judeus a pressa com que seus antepassados tiveram que sair do Egito.

SEDER: a ceia pascal

Ao pôr-do-sol, tem início a festa que consiste numa ceia - seder - palavra que significa ordem, porque ela se desenrola, conforme um ritual secular. Durante a ceia, lembram a libertação da escravidão do Egito, transmitindo a importância dessa memória numa catequese sobre a história do povo judaico.
A primeira cerimônia do seder é a benção de vinho ou kidush que se bebe enquanto uma criança faz as perguntas rituais sobre o sentido do pessach. As respostas são dadas pelo chefe da família, enquanto se põem os alimentos na mesa: o pão ázimo, as ervas amargas, o cordeiro assado e um ovo que representa a destruição do templo de Jerusalém.
Durante o seder, são tomadas quatro taças de vinho.
Após a refeição, as crianças vão em busca da sobremesa afikomam, escondida pelo pai no início da cerimônia. O doce é distribuído entre os presentes que, depois de degustá-lo, não poderão tomar nada de sólido até o final da noite. Faz-se a benção de ação de graças e é tomada mais uma taça de vinho (a quinta), dedicada ao profeta Elias.
O encerramento formal do seder inclui uma série de canções e melodias que podem continuar pela noite adentro, sendo que a última, intitulada "No ano que vem em Jerusalém" é um voto de esperança que manifesta o que está no coração de todo judeu: que se restabeleça o reino de Deus e que Jerusalém seja o símbolo, embora incompleto, do viver dos tempos messiânicos.

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